O Retorno de Lia: Mais Forte do Que Nunca

Acordei no quarto de hospital estéril. A primeira coisa que senti foi um vazio. Um vazio profundo e doloroso no meu ventre e no meu coração.

O meu bebé tinha-se ido.

A minha mãe estava sentada numa cadeira ao lado da minha cama, o seu rosto envelhecido dez anos numa única noite. Ela segurava a minha mão.

"O médico disse que a cirurgia correu bem," disse ela suavemente. "Mas... o bebé..."

Ela não precisava de terminar. Eu já sabia.

As lágrimas que eu não tinha tido força para chorar antes, agora escorriam livremente pelo meu rosto. Chorei silenciosamente pelo filho que nunca conheceria.

O telemóvel de Miguel estava na mesa de cabeceira. Tinha tocado incessantemente enquanto eu estava na cirurgia. Eram mensagens e chamadas da família dele.

Peguei no telemóvel. A minha mão tremia.

Abri as mensagens. Eram do pai de Miguel, o Sr. Alves.

"Miguel, a tua avó está estável. Foi só um pico de tensão. O médico disse que ela precisa de descansar. Não te preocupes com a Lia. Ela é forte. Além disso, foi só um feto."

Só um feto.

O meu mundo desabou um pouco mais. Para eles, o meu filho era apenas um inconveniente. Um aglomerado de células sem importância.

Senti uma onda de raiva fria a substituir a minha dor.

Liguei para o Miguel. Ele atendeu ao segundo toque.

"Lia? Como estás? A avó está bem. Foi um alarme falso." A sua voz era casual, como se estivesse a falar do tempo.

"Eu perdi o bebé, Miguel."

Houve um silêncio do outro lado da linha. Não um silêncio de choque ou tristeza. Mas um silêncio de quem não sabe o que dizer.

"Ah," ele disse finalmente. "Bem... isso é... lamentável. Mas podemos tentar de novo, certo?"

Lamentável.

"A tua avó empurrou-me," disse eu, a minha voz firme e sem emoção.

"Lia, não comeces. A avó não faria isso. Ela estava stressada. Tu provavelmente disseste algo que a provocou."

Ele estava a defender a mulher que me tinha tirado o meu filho.

"Eu quero o divórcio, Miguel."

A frase saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar. Mas assim que a disse, soube que era a decisão certa.

"O quê? Divórcio? Estás a brincar? Por causa de um acidente? Lia, não sejas dramática."

"Não foi um acidente. E não é só por causa disto. É por tudo. Por me teres deixado a sangrar no chão para ires ter com ela. Por a chamares de 'alarme falso' e ao nosso filho de 'lamentável'."

"Eu não disse isso!" ele gritou, a sua voz a subir. "Estás a torcer as minhas palavras! Estás a ser histérica por causa das hormonas!"

"Não, Miguel. Eu estou a ser clara pela primeira vez em muito tempo."

Desliguei o telemóvel.

Senti-me vazia, mas também... livre.

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