O Renascer da Fénix: Minha Paz, Minhas Regras

Quando abri os olhos, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.

O meu corpo inteiro doía.

A minha mãe, Sofia, estava sentada ao meu lado, a sua cara estava pálida e os seus olhos vermelhos e inchados.

Ela segurou a minha mão com força.

"Clara, finalmente acordaste."

A sua voz estava rouca, cheia de preocupação.

Tentei sentar-me, mas a dor na minha perna direita era insuportável.

Olhei para baixo e vi a minha perna, do joelho para baixo, envolta numa espessa camada de gesso.

Lembrei-me do que aconteceu.

A derrocada.

O meu carro foi atingido por lama e pedras, caindo da estrada da montanha.

O meu noivo, Lucas, estava ao meu lado.

"Lucas? Onde está o Lucas?", perguntei apressadamente.

A expressão da minha mãe ficou ainda mais sombria, e ela hesitou antes de falar.

"Ele... ele está bem. Está a cuidar da irmã dele, a Joana."

Joana?

A minha mente ficou em branco por um momento.

"Porque é que ele está a cuidar da Joana? Ela não estava na cidade?"

"A Joana ouviu sobre o teu acidente e correu para cá, mas o cão dela, o Trovão, assustou-se com a tempestade e fugiu para a montanha. A Joana foi procurá-lo e torceu o tornozelo," a minha mãe explicou, a sua voz baixa.

Uma raiva fria começou a subir do fundo do meu coração.

Eu estava aqui, com uma perna partida, quase morta, e o meu noivo estava a cuidar da sua irmã que torceu o tornozelo enquanto procurava um cão.

Agarrei o meu telemóvel na mesa de cabeceira.

As minhas mãos tremiam.

Encontrei o número do Lucas e liguei.

Demorou muito tempo até ele atender.

"Clara? Como estás? Estás acordada?" A sua voz soava cansada, mas não havia muita preocupação.

"Lucas, onde estás?" A minha voz era calma, assustadoramente calma.

"Estou no hospital com a Joana. Ela magoou o pé. O Trovão também está muito assustado, não come nada."

"Então, vais ficar aí com ela?"

"Sim, ela precisa de mim. Ela está sozinha, sabes como ela é sensível."

Sensível.

E eu? A noiva dele, que acabou de sobreviver a uma derrocada. O que sou eu?

Respirei fundo, o ar do hospital frio e com cheiro a desinfetante.

"Lucas, vamos terminar."

Houve silêncio do outro lado da linha.

Depois, a sua voz explodiu, cheia de incredulidade e raiva.

"Terminar? Estás a brincar comigo, Clara? Tivemos um acidente! Eu também estou exausto! A Joana é minha irmã, ela precisa de mim! Não podes ser um pouco mais compreensiva?"

"Compreensiva?" Eu ri, um som seco e sem alegria. "A tua irmã torceu o tornozelo. Eu parti a perna. Eu quase morri, Lucas."

"Foi um acidente! Eu não queria que isto acontecesse! Eu tirei-te do carro, não tirei? Chamei a ambulância! O que mais querias que eu fizesse? A Joana estava em pânico, eu tinha de a acalmar!"

As suas palavras eram como pedras, atingindo-me uma a uma.

Ele não entendia. Ele nunca entenderia.

"Não quero discutir, Lucas. Acabou."

Desliguei o telemóvel antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.

Olhei para o ecrã escuro, e depois para a minha mãe.

Os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela não disse nada, apenas me abraçou com força.

Eu não chorei.

Eu sentia-me vazia.

Completamente vazia.

Nesse momento, o meu telemóvel vibrou.

Era uma mensagem de um número desconhecido.

"Não penses que podes terminar com o meu irmão assim. Ele ama-te, mas a família vem sempre em primeiro lugar. Devias aprender o teu lugar."

Era a Joana.

Apaguei a mensagem.

Fechei os olhos.

A família vem em primeiro lugar.

Eu ia ser a família dele.

Mas, aparentemente, eu nunca seria tão importante como a irmã dele.

Ou o cão dela.

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