O Relógio e a Traição

Naquela noite, o silêncio na mesa de jantar era pesado, denso.

Patrícia tentou quebrar o gelo.

Ela preparou o prato favorito de Ricardo, risoto de cogumelos, e abriu uma garrafa do melhor vinho que tinham na adega.

"Eu estava pensando...", ela começou, a voz um pouco hesitante. "Sobre o relógio."

Ricardo continuou a comer, sem levantar os olhos do prato.

"Eu sei que você ficou chateado", ela continuou, tentando soar conciliadora. "Mas não foi nada demais, de verdade. O Leonardo tem se desdobrado, feito horas extras... foi só um gesto de reconhecimento. Ele admira muito a empresa, o nosso trabalho."

Ela tentou se mostrar vulnerável, uma tática que sempre funcionava.

"Eu não deveria ter escolhido aquele relógio específico, eu admito. Foi uma falha minha, eu estava com a cabeça cheia. Me desculpe."

Ricardo parou de comer.

Ele pousou os talheres ao lado do prato, o som ecoando na sala silenciosa.

Ele finalmente olhou para ela.

"Não, Patrícia. Não foi uma 'falha'. Foi uma escolha."

A voz dele era calma, mas firme.

"Você escolheu desvalorizar algo que era nosso, que era único. O problema não é o valor do relógio, é o valor do que ele representava. E você deu isso a outra pessoa. Você entende a diferença?"

A pergunta não era uma acusação, era uma constatação. Ele estava testando se ela ainda era capaz de entender a linguagem deles.

Patrícia suspirou, sentindo a frustração crescer.

"Você está fazendo uma tempestade em copo d'água. Era só um objeto."

"Não, não era", ele a cortou. "Era um símbolo. E símbolos importam. A lealdade importa. O respeito importa."

Ele se inclinou para a frente.

"O que eu fiz hoje, recusando o projeto Nova Era, também foi um símbolo. Foi um aviso."

A palavra "aviso" pairou no ar entre eles.

"Um aviso?", ela repetiu, incrédula. "Você está me ameaçando?"

"Estou te mostrando as consequências", ele esclareceu. "O que aconteceu hoje foi apenas o começo. Se você continuar a colocar seus caprichos e esse garoto acima da nossa parceria e da nossa empresa, as perdas serão muito maiores. Eu garanto."

A ameaça era velada, mas absolutamente clara.

Ele não estava mais jogando o jogo do marido magoado. Ele estava jogando para vencer.

Patrícia o encarou, chocada. O Ricardo à sua frente era alguém que ela não reconhecia. Calculista, frio, determinado.

Ela sentiu um calafrio. Pela primeira vez, ela sentiu medo de perdê-lo. Não apenas o marido, mas o sócio, o pilar que sustentava o mundo dela.

"Isso não vai mais acontecer", ela disse, a voz baixa e apressada. "Eu prometo. Vou manter o Leonardo no lugar dele. Foi um erro, eu entendi."

Ricardo apenas a observou, o rosto inescrutável.

Ele não acreditava nela.

Não mais.

Ele viu a promessa nos lábios dela, mas viu a verdade nos olhos dela. A verdade era que ela não achava que tinha feito nada de errado. Ela estava apenas cedendo para apagar o incêndio, para que pudesse voltar a fazer o que queria.

Ela não entendia que o problema não era o Leonardo. O problema era ela.

"Ótimo", ele disse, levantando-se da mesa. "Estou cansado. Vou para o quarto de hóspedes hoje."

"Ricardo, espere...", ela pediu, levantando-se também.

Mas ele já estava saindo da sala de jantar, sem olhar para trás.

Patrícia ficou sozinha, olhando para o risoto intocado no prato dele.

Ela sentiu uma pontada de pânico. Ela havia subestimado a profundidade da ferida que causara.

Ela arrumou a mesa, lavou a louça, realizou as tarefas domésticas como se a normalidade pudesse, de alguma forma, consertar a rachadura que se abria entre eles.

Ela pensava que um pedido de desculpas e uma promessa seriam suficientes.

Ela não entendia que a confiança, uma vez quebrada, não se conserta com palavras.

Ricardo, deitado na cama do quarto de hóspedes, olhava para o teto.

Ele ouvia os sons dela se movendo pela casa, a tentativa patética de restaurar uma ordem que não existia mais.

Ele sabia que a promessa dela era vazia.

O coração dele doía, uma dor surda e persistente. Mas por baixo da dor, uma nova resolução se solidificava.

Ele não seria mais a vítima. Ele não esperaria pela próxima traição.

Ele tomaria o controle.

Ele pegou o celular e enviou uma mensagem.

"Precisamos conversar. Amanhã."

A resposta foi quase imediata.

"Claro, irmão. Onde e quando?"

Ele sorriu no escuro.

A ajuda estava a caminho.

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