O Recomeço de Uma Rainha

A dor aguda rasgou seu abdômen, e o sangue quente escorreu por suas pernas, manchando o chão de madeira polida. Sofia olhou para cima, seus olhos embaçados de lágrimas e dor, e viu o rosto de sua irmã adotiva, Clara.

Clara sorria, um sorriso cruel e vitorioso. Ao seu lado, Lucas, o Quarto Príncipe, seu marido, desviava o olhar, incapaz de encarar a carnificina que ele permitiu.

"Por quê?", Sofia sussurrou, a vida se esvaindo dela.

Clara se agachou, seu rosto perfeito contorcido em desprezo.

"Como posso deixar uma bastarda me dominar? A culpa é sua e daquele bastardo por estarem no meu caminho!"

Essas foram as últimas palavras que Sofia ouviu. O mundo escureceu, a dor finalmente a consumindo junto com seu filho ainda não nascido.

...

Um grito silencioso escapou de seus lábios.

Sofia sentou-se na cama, o corpo tremendo, o suor frio escorrendo por sua testa. A luz suave da manhã entrava pela janela, iluminando o quarto familiar. Não havia sangue, não havia dor.

Ela olhou para suas mãos, pálidas, mas sem manchas. Levou-as lentamente ao seu abdômen, ainda plano. Nada. O bebê... seu bebê ainda estava lá. Seguro.

Ela se lembrou de tudo. A vida anterior. O casamento com Lucas, que Clara havia rejeitado para fugir com seu amante, Miguel. A gravidez que a encheu de esperança. O retorno arrependido de Clara. A manipulação, o veneno disfarçado de remédio para a gestação, a traição de seu marido. A morte.

A raiva, fria e cortante, substituiu o pânico. A tristeza deu lugar a uma determinação de aço. Ela não era mais a Sofia ingênua e subestimada. Ela renasceu.

Ela se levantou e caminhou até o calendário de bronze sobre a escrivaninha. A data a fez prender a respiração. Era o dia. O exato dia em que, em sua vida anterior, o médico da corte a informou sobre sua gravidez.

A urgência tomou conta dela. Seus pensamentos, antes confusos, agora estavam claros como cristal. O ódio lhe dava um propósito. Ela não cometeria os mesmos erros.

Nesse momento, a porta se abriu e Lucas entrou, vestindo suas roupas de príncipe. Seu rosto era bonito, mas agora Sofia só conseguia ver a superficialidade e a ambição por trás de seus olhos.

"Sofia, você já está de pé?", ele perguntou, com um sorriso que não alcançava seus olhos.

Sofia forçou um sorriso tímido, o mesmo sorriso que ela costumava dar.

"Lucas, tenho uma notícia para lhe dar."

Ele se aproximou, a curiosidade em seu rosto.

"O médico da corte esteve aqui esta manhã. Ele confirmou... estou grávida."

O rosto de Lucas se iluminou com uma alegria genuína, ou pelo menos, uma alegria que parecia genuína. Ele a abraçou com força, girando-a no ar.

"Maravilhoso! Sofia, você me fez o homem mais feliz do mundo! Um herdeiro! Isso solidificará minha posição na corte!"

Sofia sentiu um calafrio. Na vida anterior, essas palavras a teriam enchido de felicidade. Agora, elas soavam vazias e egoístas. Ele estava feliz não por ela, não pelo filho, mas por si mesmo. Era tudo sobre poder. O amor dele era uma farsa.

Ela se afastou gentilmente, ainda sorrindo.

"Estou tão feliz, meu príncipe."

"Devemos anunciar imediatamente! Enviarei mensageiros para o palácio e para sua família. Sua mãe, Dona Isabel, ficará radiante!"

Sofia balançou a cabeça.

"Não", disse ela, com uma suavidade que escondia sua intenção. "Ainda não. Quero contar à minha irmã primeiro."

Lucas franziu a testa.

"Clara? Mas por quê? Ela nem é sua irmã de sangue."

"É por isso mesmo", respondeu Sofia, sua voz cheia de uma falsa emoção. "Nós crescemos juntas. Quero compartilhar essa alegria com ela pessoalmente. Será uma surpresa."

Sofia sabia exatamente o que estava fazendo. Na vida anterior, Clara soube da notícia por mensageiros e sentiu inveja. Desta vez, Sofia entregaria a "boa nova" pessoalmente, embrulhada em um pacote de provocação.

Ela queria ver o rosto de Clara quando soubesse que a "bastarda" estava carregando um herdeiro real. Ela queria acender a chama da inveja com suas próprias mãos.

O que não se tem é sempre idealizado. Ela daria a Clara exatamente o que ela pensava que queria. Ela empurraria Clara para os braços de Lucas. E então, ela assistiria, do conforto de sua segurança, enquanto o amor idealizado deles se transformava em pó, exatamente como na vida anterior.

A única diferença era que, desta vez, não seria ela a morrer.

Lucas, alheio à tempestade nos olhos de Sofia, concordou.

"Como quiser, minha querida. Sua bondade é verdadeiramente notável."

Sofia sorriu.

"Prepare a carruagem. Vou visitar minha irmã."

O jogo havia começado.

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