O Rapto do Meu Filho: A Traição Que Me Destruiu

Passaram duas horas. Duas horas de agonia pura.

A polícia chegou. Fizeram-me perguntas que eu mal conseguia responder.

O que é que ele vestia? Calças de ganga azuis, uma t-shirt vermelha com um dinossauro.

Quando foi a última vez que o viu? Há duas horas, no corredor do leite.

O meu cérebro repetia as mesmas imagens vezes sem conta, o seu sorriso, a forma como a sua mão pequena segurava a minha.

O meu telemóvel vibrou. Era a minha sogra, a mãe do Pedro.

Atendi, esperando algum conforto, alguma palavra de apoio.

"Sofia! O que é que fizeste?"

A sua voz era um chicote.

"O Pedro ligou-me. Disse que perdeste o Lucas! Como pudeste ser tão descuidada? Eu sempre disse que não eras capaz de tomar conta de uma criança!"

As suas palavras eram cruéis, calculadas para me ferir.

"Eu não o perdi... ele desapareceu." A minha voz era um sussurro.

"É a mesma coisa! Irresponsável! O Pedro está no hospital com a coitada da Clara, que se magoou a trabalhar para sustentar a vossa família, e tu causas este tipo de problema! Tens alguma noção?"

A coitada da Clara.

Senti uma náusea. Eles já tinham a sua narrativa. Eu era a vilã, a mãe negligente. A Clara era a vítima. O Pedro, o santo.

"Ele devia estar aqui," disse eu, com mais força do que esperava. "O filho dele está desaparecido."

"Ele está a ajudar uma pessoa necessitada! Isso chama-se ter bom coração, uma coisa que tu pelos vistos não entendes! Em vez de estares a fazer acusações, devias estar a rezar para que o meu neto apareça são e salvo, por tua culpa!"

Ela desligou-me o telefone na cara.

O mesmo gesto do filho. Tal mãe, tal filho.

Um polícia aproximou-se de mim com um copo de água.

"Alguma notícia?" perguntei, a esperança a doer.

Ele abanou a cabeça. "Ainda não, senhora. Estamos a ver as câmaras de segurança. Vai demorar um pouco."

Sentei-me numa cadeira de plástico que a segurança me arranjou. O supermercado estava agora quase vazio, um silêncio assustador pairava no ar.

Cada minuto que passava era uma tortura.

Onde estaria o meu menino? Estaria assustado? Estaria a chorar por mim?

A imagem do Pedro a amparar a Clara, a consolá-la, a tratar da sua "lesão grave" no tornozelo, invadiu a minha mente.

Ele não me ligou uma única vez para saber se o Lucas tinha sido encontrado.

Nem uma única vez.

A prioridade dele estava clara. E não éramos nós. Nunca fomos nós.

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