O Preço do Desprezo: Um Amor Proibido

Maria voltou para o centro do salão, o papelzinho do amuleto guardado no fundo do bolso. Sua postura havia mudado. A cabeça estava erguida, os ombros relaxados.

Pedro, percebendo a mudança, veio em sua direção, o rosto vermelho de raiva e bebida. Ele não gostou de vê-la calma. Ele queria vê-la chorando.

"Ainda está aqui, caipira? Não entendeu o recado?"

Ele bateu com a mão numa mesa próxima, fazendo os copos tilintarem.

"Hoje é a minha festa! O meu dia! E eu não quero uma Zé Ninguém como você estragando tudo. Por que não faz um favor para todo mundo e some?"

Seus amigos riram, incentivando o espetáculo.

Maria o encarou, os olhos escuros e profundos. Sua voz saiu tranquila, mas com um peso que fez Pedro vacilar por um instante.

"Eu não sou uma Zé Ninguém, Pedro."

Ela fez uma pausa, deixando a frase pairar no ar.

"Eu sou uma Filha do Axé. Uma protegida dos orixás. Talvez você devesse me tratar com um pouco mais de respeito."

A menção ao Axé e aos orixás fez Pedro e seus amigos caírem na gargalhada.

"Filha do quê? Axé?" , zombou o amigo loiro. "Isso é algum tipo de seita da sua fazenda? Paga bem? Porque aqui, o que manda é o dinheiro do papai Silva. O resto é conversa pra boi dormir."

Pedro concordou, recuperando a arrogância.

"Exato! Dinheiro! É isso que importa. E você não tem nada. Você não é nada. Você não merece fazer parte desta família."

Ele então fez um sinal para um dos empregados, que trouxe uma pasta de couro e uma caneta. Pedro abriu a pasta sobre a mesa com um baque. Dentro, havia um documento com o timbre do escritório de advocacia da família.

"Já que você gosta tanto de ser da roça, vamos oficializar isso" , disse Pedro, o tom carregado de veneno. "Isso aqui é um termo de desligamento familiar. Você assina, abre mão de qualquer direito ao nome e ao patrimônio dos Silva, e vira oficialmente o que você sempre foi: uma órfã abandonada que meu pai, por pena, sustentou de longe."

A crueldade do ato chocou até mesmo alguns dos convidados, que pararam de conversar para observar a cena.

Maria olhou para o papel, depois para o rosto triunfante do irmão. Ela não demonstrou surpresa ou dor. Em vez disso, uma calma assustadora tomou conta dela.

Ela pegou a caneta.

"Tudo bem, Pedro. Eu assino."

Ela se inclinou sobre a mesa e, antes de assinar, olhou nos olhos dele.

"Mas eu vou te dar um aviso. No momento em que meu nome sair deste papel, a sorte desta família vai junto. A fortuna dos Silva foi construída sobre o axé que corre no meu sangue. Ao me cortar, você corta a fonte. Eu te dou uma hora. Em uma hora, tudo o que você conhece vai começar a ruir."

Pedro riu, um som alto e incrédulo.

"Você está me ameaçando com macumba? Que patético! Está tentando me assustar, sua bruxa de quinta categoria?"

"Não é uma ameaça" , respondeu Maria, a voz firme como uma rocha. "É uma profecia. Você vai se arrepender disso. Vai implorar para eu voltar, mas será tarde demais."

Ela assinou o documento com um traço firme e legível: Maria Silva. E, ao lado, entre parênteses, escreveu "Chica" .

Pedro pegou o papel, vitorioso, e o ergueu no ar como um troféu.

"Adeus, maninha! Agora você está livre para voltar pro seu chiqueiro!"

Ele e seus amigos riram, mas Maria não se abalou. Ela se virou, sentindo um peso enorme sair de seus ombros. A ligação tóxica havia sido cortada. Por dentro, ela sorriu. Imaginou a cara que Mestre Zé faria ao saber que ela tinha previsto o futuro. Ele diria que ela estava finalmente usando seu dom. A família Silva não sabia, mas eles tinham acabado de assinar a própria sentença. E o relógio já estava correndo.

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