O Preço da Indiferença

Saí do hospital com a certidão de óbito do meu filho na mão, um pedaço de papel que parecia pesar uma tonelada.

Lá fora, o sol brilhava forte, um contraste cruel com a escuridão que eu sentia por dentro.

As pessoas passavam, rindo, conversando, vivendo as suas vidas normais.

O meu mundo tinha parado.

Peguei no telemóvel para ligar ao meu marido, Leo. Precisava de lhe contar que o nosso filho, que esperámos por três anos, já não existia.

A chamada tocou uma, duas, três vezes.

Quando ele finalmente atendeu, o barulho de fundo era de festa, música alta e risos.

A voz dele soou irritada.

"Helena? O que foi? Estou ocupado."

A sua voz estava distante, desinteressada.

"Leo, o nosso bebé..."

A minha voz falhou, um nó formou-se na minha garganta.

"O que tem o bebé? Nasceu? Não me digas que estás no hospital, não posso ir agora. A Sofia está a ter um ataque de pânico, o gato dela fugiu. Estou a tentar acalmá-la."

Sofia. A minha cunhada. A irmã dele.

"Leo, o nosso filho morreu."

Disse as palavras de forma seca, sem emoção. As lágrimas tinham secado.

Houve um silêncio do outro lado da linha, mas não o silêncio de choque ou dor. Foi um silêncio de incómodo.

"Helena, que brincadeira de mau gosto é essa? Sabes que a Sofia é sensível, ela está a passar por um momento difícil."

"Não é brincadeira, Leo. Eu estou no hospital. Tive um aborto espontâneo. O nosso filho morreu."

"Merda," ele murmurou. "Olha, não posso falar agora. A Sofia precisa de mim. Depois falamos."

E desligou.

Assim, sem mais nada.

O meu marido escolheu consolar a irmã porque o gato dela fugiu, em vez de estar ao meu lado depois de perdermos o nosso filho.

Olhei para a certidão de óbito. O nome que tínhamos escolhido, Lucas, nunca seria usado.

A dor era física, uma pressão no peito que me impedia de respirar.

Sentei-me num banco ali perto, o sol a queimar-me a pele, mas eu não sentia nada.

O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem da minha sogra, a mãe do Leo, a Clara.

"Helena, o Leo disse-me que estás a fazer drama outra vez. Pára de ser egoísta. A Sofia está muito abalada com o desaparecimento do Biscoito. Ela tem o coração fraco, sabes disso. Em vez de apoiares a família, estás a criar problemas. Sê uma boa esposa e compreende as prioridades."

Prioridades.

O gato da irmã dele era a prioridade.

A minha dor, a perda do nosso filho, era um drama.

Levantei-me. A decisão formou-se na minha mente, clara e fria como o gelo.

Não havia mais nada para salvar.

O nosso casamento, tal como o nosso filho, estava morto.

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