O Pacto de Casamento Falso da Herdeira Muda

Na manhã seguinte, o alfaiate chegou. Era um homem pequeno e nervoso que cheirava a amido e medo. Foi conduzido à sala matinal onde Gema já reinava, cercada por três assistentes que afofavam a cauda de um vestido carmesim.

- É magnífico - arrulhou Aurora, batendo palmas.

Brisa estava no canto, misturando-se ao papel de parede bege. O alfaiate olhou para ela, depois para Ápice.

- E para... a outra? - perguntou o alfaiate.

Ápice acenou com a mão desdenhosa.

- Algo de arara. Da estação passada. Modesto. Ela não precisa brilhar; só precisa estar apresentável para a família Abrolho inspecionar.

Abrolho.

As orelhas de Brisa não se moveram, mas sua atenção se aguçou como o fio de uma navalha. Inspecionar. Como gado.

- Claro - disse o alfaiate. Puxou uma capa de vestuário do fundo de sua pilha. Entregou a Brisa um vestido cinza. Era sem forma, de gola alta, algo que uma governanta usaria em um funeral.

- Vista - ordenou Ápice.

Brisa foi para trás do biombo. O tecido pinicava. Pendia de sua estrutura, engolindo sua figura. Ela saiu.

Gema riu.

- Ai meu Deus, ela parece que roubou o uniforme de uma empregada.

Brisa curvou os ombros, fazendo-se parecer menor, mais patética. Olhou para o chão, escondendo o cálculo em seus olhos.

Mais tarde naquela tarde, Brisa esgueirou-se para a biblioteca. Era uma sala de dois andares cheia de livros que ninguém naquela família lia. Encontrou um nicho atrás de uma fileira de enciclopédias e sentou-se no chão.

Vozes se aproximaram. As pesadas portas de mogno não fecharam completamente.

- O Abrolho é um desastre - a voz de Cerne flutuou para dentro. - Desde o acidente. Ele está paralisado da cintura para baixo. É amargo, bebe, é um recluso.

- O que o torna perfeito - respondeu Ápice. Sua voz era aço frio. - A família Abrolho precisa de uma esposa para ele para garantir a liberação do fundo fiduciário. Eles não se importam com quem seja. Gema é valiosa demais para desperdiçar com um aleijado. Brisa servirá.

- Você acha que ela consegue lidar com ele? - perguntou Cerne. - Ouvi dizer que ele tem temperamento difícil.

- Ela é muda - zombou Ápice. - Não pode reclamar. Não pode ir à imprensa. Só tem que sobreviver um ano até a fusão estar completa. Então nos divorciamos dela, pegamos o acordo e a cortamos.

Brisa pressionou a testa contra a estante. Suas unhas cravaram nas palmas das mãos até a pele romper.

Vendida. Ela estava sendo vendida para cobrir um acordo comercial.

Esperou até que saíssem. Então se moveu.

Não apenas saiu da sala. Foi até a mesa de Cerne. O computador estava bloqueado, mas Cerne era uma criatura de hábitos. Havia escrito suas senhas em um post-it enfiado sob o mata-borrão - uma falha de segurança que ela notara no escritório de seu pai adotivo anos atrás.

Logou. Não procurou dinheiro. Procurou registros médicos. O servidor privado da família Vance.

Encontrou os arquivos. Cerne Vance. Aurora Vance. Gema Vance.

Puxou o celular e tirou fotos dos relatórios de tipo sanguíneo. A, A e B.

Biologia impossível.

Ela não sabia a história completa ainda, mas tinha a munição. Fez logout, limpou o registro de atividades recentes e desapareceu.

De volta ao quarto, pegou o tablet. Contornou os controles parentais da família novamente e mergulhou na deep web.

Assunto: Abrolho (Julian Thorne).

Resultados da pesquisa:

Ex-tubarão de Wall Street.

Acidente de carro há dois anos.

Lesão na coluna. Cadeirante.

Noiva o deixou um mês depois.

Rumores de surtos violentos na propriedade Abrolho.

Ela puxou imagens. A maioria eram fotos granuladas de paparazzi. Abrolho em uma cadeira de rodas, cabeça baixa, parecendo frágil.

Mas Brisa não olhava para a cadeira de rodas. Deu zoom em uma foto tirada há três meses. Abrolho agarrava o apoio de braço de sua cadeira.

Aplicou um filtro para melhorar a resolução.

As mãos dele. Os nós dos dedos estavam brancos. Os tendões, definidos.

Mudou para uma foto dele entrando em um carro. Ele estava se levantando. A definição do tríceps era extrema. Mas foram as pernas que chamaram sua atenção. Na sombra da porta do carro, o músculo da panturrilha estava engajado.

Paralisia causa atrofia. A perda muscular acontece em meses. Abrolho estava naquela cadeira há dois anos. Suas pernas deveriam ser gravetos. Não eram.

Ela deu zoom nos olhos dele em outra foto. Não havia o brilho vidrado do alcoolismo. Nem a opacidade da depressão.

Eram afiados. Predatórios.

Ele estava fingindo.

Naquela noite, Gema bateu em sua porta. Estendeu um colar de pérolas.

- Aqui - disse ela, a voz pingando doçura falsa. - Vovó disse que você devia usar isso. Para parecer menos... pobre.

Brisa pegou. Plástico. Podia dizer pelo peso.

- Você vai conhecer o Abrolho amanhã - sorriu Gema com escárnio. - Boa sorte. Ouvi dizer que ele joga coisas.

Brisa colocou as pérolas. Olhou no espelho e deu um sorriso aterrorizado e trêmulo.

Gema radiou, satisfeita por sua campanha de terror estar funcionando, e saiu.

Assim que a porta clicou, Brisa arrancou as pérolas e as jogou na lata de lixo. Foi até o armário e olhou para o vestido cinza.

Ela não precisava ser bonita. Não precisava ser encantadora. Precisava ser a única coisa que Abrolho não esperaria.

Precisava ser cúmplice dele.

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