O Ódio Dele, Minha Liberdade

Eu morri no ano em que Pedro Henrique mais me odiava.

O ódio dele era como um veneno lento, que se infiltrava em cada parte da minha vida, dia após dia, até que eu não aguentasse mais.

Cansada de tudo, decidi acabar com o meu sofrimento.

Quando a funerária entregou minhas cinzas a ele, eu flutuava no ar, observando a cena.

Ele estava impecável em seu terno preto, o cabelo perfeitamente penteado. Não havia um pingo de tristeza em seu rosto.

Pelo contrário, ele pegou a urna com uma mão e a acariciou com a outra, um sorriso se formando lentamente em seus lábios.

Foi o único sorriso que ele deu naquele dia.

"Está suja demais", ele disse com a voz baixa e carregada de desprezo.

"Ela deveria ser pulverizada, virar pó de verdade."

Com um movimento brusco, ele soltou a urna.

Ela caiu no chão com um estrondo seco, quebrando-se em mil pedaços.

Minhas cinzas se espalharam pelo piso frio da sala.

Sim, ele me odiava.

Ele acreditava que eu havia matado o grande amor da sua vida, Luana.

Todos os anos que ele passou ao meu lado, fingindo ser um bom marido, foram apenas para este momento. Para a sua vingança.

Ele olhou para as minhas cinzas espalhadas no chão, seu sorriso se alargando.

Então, ele deu um passo à frente e pisou nelas.

Ele girou o calcanhar, moendo o que restava de mim contra o mármore.

Depois, virou-se e foi embora sem olhar para trás.

Mas eu vi. Pouco tempo depois, escondido no carro, ele chorou. Chorou como uma criança, soluçando, e ligou para a funerária, implorando para que eles me trouxessem de volta.

Minha morte foi na banheira.

Eu cortei meus pulsos e deixei o sangue escorrer. A água ficou vermelha, um vermelho vivo e denso.

A imagem era terrivelmente familiar.

Lembrei-me do dia do meu casamento com ele. Eu estava tão feliz, tão cheia de esperança.

Naquela noite, ele derramou uma garrafa de vinho tinto na nossa cama de lençóis brancos.

A mancha escura se espalhou, e ele olhou para mim com um ódio que eu não compreendi na época.

"É assim que eu me sinto", ele disse. "Sujo. Contaminado por você."

Agora, flutuando como um fantasma, eu finalmente entendia tudo.

Quando o assistente dele, Tiago, ligou para dar a notícia da minha morte, Pedro Henrique estava em uma reunião importante, fechando um negócio que arruinaria de vez a minha família.

Eu o vi através das paredes.

Ele atendeu o telefone, ouviu a notícia e ficou em silêncio por um instante.

Então, ele começou a rir.

Uma risada alta, descontrolada.

Ele bateu palmas.

"Ótimo! Maravilhoso!", ele exclamou, para o espanto de todos na sala.

Mas assim que desligou o telefone, sua expressão mudou.

A risada morreu, e as lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto.

Ele não as enxugou. Apenas ficou ali, parado, chorando em silêncio enquanto os outros o observavam, confusos.

O ódio e o alívio lutavam dentro dele, e eu, como uma espectadora invisível, assistia a tudo.

A vingança dele estava completa.

Mas o vazio que se seguiu parecia ser ainda maior do que o ódio que ele sentia.

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