O Grito Silencioso de Helena

Quando abri os olhos, o cheiro forte de desinfetante encheu o meu nariz. A luz branca do hospital era fria e impessoal, e a dor aguda na parte inferior do meu abdómen era um lembrete cruel do que tinha acabado de perder.

O meu bebé, o nosso bebé, tinha-se ido.

O médico tinha dito que o stress extremo e a queda causaram o aborto.

Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer. O ecrã mostrava dezenas de chamadas não atendidas para o meu marido, Pedro. Nenhuma resposta.

A minha sogra, Laura, estava sentada ao lado da minha cama, a descascar uma maçã com uma expressão fria. Ela nem sequer olhou para mim.

Eu precisava de ouvir a voz dele, precisava de uma explicação.

Respirei fundo e disquei o número do Pedro mais uma vez.

Desta vez, ele atendeu. O som de fundo era barulhento, com música e risos.

"Helena? O que foi agora? Estou ocupado."

A voz dele era impaciente, distante.

"Pedro, onde estás? Eu... eu perdi o bebé." A minha voz falhou.

Houve um silêncio do outro lado, mas não o silêncio de choque ou tristeza. Era um silêncio de irritação.

"Eu sei. A minha mãe já me disse. Não podias ter esperado para ligar? Estou a meio de algo importante."

Importante? Mais importante do que o nosso filho?

Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz feminina e doce perto do microfone dele.

"Pedro, querido, está tudo bem? A tua irmã está a chamar-te para cortar o bolo!"

Era a voz de Eva, a minha cunhada. A irmã dele.

O meu coração gelou. Eles estavam numa festa de aniversário.

"Tenho de ir, Helena. Falamos mais tarde. Tenta não ser tão dramática."

Ele desligou.

Dramática. Ele chamou-me dramática por ter perdido o nosso filho.

As lágrimas que eu tinha segurado finalmente rolaram pelo meu rosto.

Laura, a minha sogra, finalmente falou, sem levantar os olhos da maçã.

"Não o culpes. A festa de aniversário da Eva já estava planeada há semanas. Ela tem andado tão deprimida ultimamente, precisava de se animar. Não é como se pudesses ter evitado o aborto de qualquer maneira."

A faca dela cortou a maçã com uma precisão fria.

"Além disso, foi só um acidente. Acontece. Vais superar."

A sua indiferença era mais dolorosa do que qualquer grito.

Olhei para o meu ventre agora vazio e uma decisão formou-se na minha mente, clara e sólida como o gelo.

Eu queria o divórcio.

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