O Divórcio da Linha Reta

O corredor do hospital cheirava a desinfetante e a medo. As luzes brancas e frias do teto refletiam no chão polido, pareciam infinitas.

O meu pai estava a morrer do outro lado daquela porta de vidro fosco.

"Senhora Alves, precisamos de uma decisão," disse o médico, com uma voz cansada. "A cirurgia de emergência é de alto risco, mas é a única opção que resta."

A minha mão tremia enquanto eu segurava o telemóvel.

"Só preciso da assinatura do meu marido. Ele já devia estar a chegar."

O médico olhou para o relógio na parede, a sua expressão não mudou.

"Não temos muito tempo."

Ele voltou para dentro da Unidade de Cuidados Intensivos, deixando-me sozinha com o som dos meus próprios batimentos cardíacos.

Disquei o número do Leo pela décima vez. Chamou, chamou, e foi para o correio de voz. De novo.

"Leo, por amor de Deus, atende. É o pai. Os médicos precisam de ti."

Deixei a mensagem, a minha voz a falhar.

Sentei-me no banco de plástico duro, o frio a atravessar a minha roupa. Olhei para as minhas mãos, para a aliança de casamento no meu dedo. Parecia um objeto estranho.

O telemóvel vibrou na minha mão. Era ele. Atendi no primeiro toque.

"Sofia? O que se passa? Estás a ligar sem parar, assustaste a Clara."

A sua voz era irritada, impaciente. Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Clara.

"Leo, é o pai. Ele está mal. Os médicos precisam de ti aqui para assinar os papéis da cirurgia. Agora."

Houve uma pausa. Ouvi o Leo a suspirar.

"Sofia, não posso ir agora. A Clara caiu das escadas, torceu o tornozelo. Estou a levá-la ao hospital."

O meu sangue gelou.

"Caiu das escadas? Leo, o meu pai está a morrer! Que hospital? Eu vou ter contigo!"

"Não," ele disse, a sua voz firme. "Fica aí. Os médicos que esperem. A Clara está em pânico, não a posso deixar sozinha. Ela não tem mais ninguém."

Ela não tem mais ninguém. E eu? E o meu pai?

"Leo, por favor," implorei, o meu orgulho a desfazer-se. "É uma questão de minutos."

"Tu consegues tratar disso, Sofia. És forte. Assina tu os papéis. Ligo-te mais tarde."

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.

Olhei para o telemóvel, incrédula. Olhei para a porta da UCI.

O médico saiu novamente. Desta vez, o seu rosto era sombrio. Ele não precisou de dizer nada.

Atrás dele, o monitor cardíaco que eu conseguia vislumbrar pelo vidro mostrava uma linha reta e emitia um som agudo e contínuo.

O meu mundo ficou em silêncio.

O meu telemóvel apitou com uma nova mensagem. Era do Leo.

"A Clara só partiu um osso do pé. Que susto. Já estamos a ser atendidos. Beijo."

Não respondi. Deixei o telemóvel cair no meu colo. O meu pai tinha-se ido. Sozinho.

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados