O Diário das Sombras

O sol da manhã entrou lentamente pela janela do quarto de Amara, iluminando a escrivaninha onde o diário descansava.

A luz tocava a capa escura como se tentasse revelar algum segredo escondido ali.

Amara acordou devagar.

Por alguns segundos ela ficou olhando para o teto, tentando lembrar do que havia acontecido na noite anterior.

Então lembrou.

O gato.

As palavras que apareceram sozinhas.

O diário abrindo.

Seu coração acelerou imediatamente.

Ela sentou-se na cama e olhou para a mesa.

O gato ainda estava ali.

Enrolado ao lado do diário, dormindo tranquilamente.

- Você ainda está aqui... - murmurou Amara.

O gato abriu um olho lentamente, como se tivesse entendido.

Ele espreguiçou-se e levantou a cabeça.

- Ok... então isso não foi um sonho.

Amara levantou-se e caminhou até a escrivaninha.

O diário estava fechado.

Ela colocou a mão sobre a capa.

Ainda estava fria.

Exatamente como no dia anterior.

O gato observava cada movimento dela.

- Se isso for algum tipo de brincadeira... eu vou descobrir - disse ela, sentando-se na cadeira.

Ela abriu o diário.

As páginas estavam exatamente como tinham ficado na noite anterior.

A história do gato.

As frases que apareceram sozinhas.

"A garota acredita que controla a história."

"Mas a história também começa a observar a garota."

"E nas sombras... algo começa a despertar."

Amara sentiu um arrepio ao reler aquilo.

Ela pegou a caneta.

Ficou olhando para a página por alguns segundos.

- Vamos testar uma coisa - disse ela.

O gato inclinou levemente a cabeça.

Amara respirou fundo.

Se o diário realmente tivesse algum tipo de poder...

então ela poderia provar.

Ela começou a escrever:

"Na cozinha da casa, uma maçã vermelha caiu da mesa e rolou pelo chão."

Ela parou.

O quarto ficou em silêncio.

Nada aconteceu.

Amara franziu a testa.

- Claro... era bom demais para ser verdade.

Mas então...

TUM.

Um barulho veio da cozinha.

Amara congelou.

- Não.

Outro som.

Algo rolando no chão.

Devagar.

Ela levantou-se da cadeira lentamente.

Seu coração começou a bater mais forte.

- Isso... isso é coincidência.

Ela caminhou até a porta do quarto.

Abriu devagar.

O corredor estava vazio.

Silencioso.

Ela seguiu até a cozinha.

E parou imediatamente.

No chão...

uma maçã vermelha estava parada no meio do piso.

Como se tivesse acabado de rolar.

Amara sentiu o estômago gelar.

Ela olhou para a mesa.

O prato de frutas estava lá.

Mas uma maçã claramente faltava.

- Isso não pode estar acontecendo...

Ela pegou a maçã.

Estava fria.

Real.

Pesada.

Amara voltou correndo para o quarto.

O gato ainda estava sobre a mesa.

E o diário... estava aberto novamente.

Amara aproximou-se lentamente.

Uma nova frase estava sendo escrita na página.

A tinta aparecia devagar.

Como se uma mão invisível estivesse escrevendo.

"A garota começa a entender."

Amara segurou a borda da mesa com força.

- Quem está fazendo isso?

Silêncio.

A frase continuou.

"Cada palavra cria um eco no mundo."

Ela sentiu um arrepio subir pelo corpo.

- Então... é verdade.

Ela olhou para a caneta.

Se aquilo realmente funcionava...

então ela poderia escrever qualquer coisa.

Qualquer coisa.

Mas algo a fez hesitar.

O aviso da velha no mercado voltou à sua mente.

"Cuidado com o que você escreve."

Amara fechou o diário devagar.

- Eu preciso saber mais sobre você.

O gato miou baixo.

Como se concordasse.

Amara pegou o celular e sentou na cama.

Começou a pesquisar:

"diários mágicos"

"objetos amaldiçoados"

"livros que realizam desejos"

Nada.

Apenas histórias fictícias e lendas.

Nada que explicasse aquilo.

Ela largou o celular.

- Isso é inútil.

O gato pulou da mesa e caminhou até ela.

Subiu na cama e sentou-se ao seu lado.

Amara suspirou.

- Pelo menos você parece gostar de mim.

O gato piscou lentamente.

Amara olhou novamente para o diário.

Algo a puxava de volta.

Uma curiosidade impossível de ignorar.

Ela levantou-se e voltou até a mesa.

- Só mais um teste.

Ela abriu o diário.

Pegou a caneta.

Pensou por alguns segundos.

Então escreveu:

"Um vento frio atravessou o quarto."

Ela parou.

Esperou.

Nada.

- Viu? Nem tudo funciona.

Mas naquele instante a janela bateu.

CLACK.

Uma rajada de vento entrou no quarto.

Forte.

Gelada.

As folhas do diário se agitaram violentamente.

O gato arrepiou o pelo.

Amara ficou olhando, chocada.

- Ok... isso definitivamente funciona.

Ela começou a andar de um lado para o outro no quarto.

Seu cérebro girava com possibilidades.

Se aquilo era real...

ela poderia escrever qualquer coisa.

Dinheiro.

Sucesso.

Aventuras.

Ela poderia literalmente controlar a realidade.

Mas então algo estranho aconteceu.

Quando ela olhou novamente para o diário...

uma nova frase estava surgindo.

Mais lenta que antes.

Como se fosse difícil escrever.

"Mas cada história precisa de um equilíbrio."

Amara aproximou-se.

A frase continuou.

"Se algo nasce... algo também desperta."

Seu coração apertou.

- O que isso significa?

A tinta parou por alguns segundos.

Então as últimas palavras apareceram.

Mais escuras.

Mais pesadas.

"E algumas histórias não criam apenas coisas boas."

Amara ficou completamente imóvel.

O quarto parecia mais silencioso agora.

Até o vento havia parado.

Ela olhou para o gato.

- Você acha que isso pode ser perigoso?

O gato não respondeu.

Mas seus olhos estavam fixos no diário.

Amara respirou fundo.

- Eu preciso descobrir quem criou você.

Ela pegou a mochila.

Colocou o diário dentro.

- Hoje depois da escola eu vou voltar ao mercado.

O gato levantou-se imediatamente.

Como se soubesse para onde ela iria.

Amara franziu a testa.

- Você não pode vir comigo.

O gato apenas a encarou.

Ela suspirou.

- Ok... veremos.

Amara saiu do quarto para se arrumar para a escola.

Mas antes de fechar a porta ela olhou novamente para a mesa vazia.

Algo dentro dela dizia que aquela decisão mudaria tudo.

Porque naquele momento, em algum lugar dentro das páginas do diário...

uma nova frase começou a aparecer lentamente.

Sem que Amara visse.

A tinta escura formava palavras silenciosas.

"A garota decidiu voltar ao mercado."

A frase continuou.

"Mas ela não sabe..."

A tinta tremeu levemente.

Como se algo estivesse interferindo.

Então as últimas palavras surgiram.

Mais irregulares.

Mais profundas.

"...que alguém também está esperando por ela."

E pela primeira vez...

uma pequena mancha de tinta se espalhou pela página.

Formando algo parecido com uma sombra.

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