As luzes do hospital de urgência eram demasiado brilhantes, demasiado brancas.
O médico disse-me que eu tinha chegado mesmo a tempo. Mais cinco minutos e o choque anafilático do Leo poderia ter sido fatal.
Eles levaram-no para uma sala de tratamento, e eu fiquei no corredor, o meu corpo finalmente a ceder ao tremor.
Sentei-me num dos assentos de plástico, o cheiro a antissético a encher-me os pulmões. Só então é que as lágrimas vieram, silenciosas e quentes.
Uma hora depois, Miguel apareceu.
Ele caminhava pelo corredor com a sua bata branca, parecendo calmo e controlado. Como se nada de extraordinário tivesse acontecido.
"Então, como é que ele está?" perguntou ele, parando à minha frente.
Levantei a cabeça e olhei para ele. O meu marido. O pai do meu filho.
"Ele quase morreu," disse eu, a minha voz vazia de emoção.
Miguel franziu o sobrolho.
"Não exageres, Sofia. Eu sabia que o ias trazer aqui a tempo. A Clara estava com muitas dores, coitada. Partiu mesmo um osso pequeno no pé."
Ele falava da sua irmã com uma preocupação genuína que nunca me tinha mostrado a mim ou ao nosso filho naquela noite.
"Ela partiu um osso. O nosso filho quase deixou de respirar para sempre."
"Estás a ser injusta. Eu sou médico, sei a diferença entre uma emergência e outra. A situação da Clara também era séria."
Olhei para ele, para o homem com quem tinha partilhado a minha vida durante sete anos. E pela primeira vez, vi um estranho.
Um estranho que tinha escolhido a sua irmã em vez do seu próprio filho.
"Eu quero o divórcio, Miguel."
As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar nelas. Mas assim que as disse, soube que eram a única verdade que me restava.
Ele olhou para mim, chocado.
"O quê? Divórcio? Estás a brincar? Só porque eu fui ajudar a minha irmã? Estás cansada e stressada, não sabes o que estás a dizer."
Ele tentou tocar no meu braço, mas eu afastei-me.
"Não voltes a tocar-me," disse eu, a minha voz a ganhar força. "Eu sei exatamente o que estou a dizer."





