O som agudo dos pneus no asfalto molhado foi a última coisa que Pedro ouviu. Depois, apenas uma escuridão fria e silenciosa.
Quando abriu os olhos, a luz branca do teto do hospital o cegou por um instante. Uma dor surda latejava na sua cabeça, e sua mente era uma tela em branco. Ele não sabia quem era, onde estava, ou por que seu corpo doía tanto.
Uma mulher com um rosto que ele não reconhecia, mas que parecia ansiosa, estava ao seu lado. Ela era bonita, com cabelos loiros perfeitamente arrumados e maquiagem impecável, mesmo no ambiente estéril do hospital.
"Pedro, meu amor, você acordou!"
A voz dela era um pouco estridente. Ele piscou, confuso.
"Quem… quem é você?"
O sorriso dela vacilou por um segundo.
"Sou eu, Sofia. Sua noiva."
Ela pegou a mão dele, mas o toque era frio, quase formal. Pedro não sentiu nada. Nenhuma faísca de reconhecimento, nenhum conforto. Apenas a sensação estranha dos dedos dela nos seus.
Nos dias seguintes, a confusão de Pedro não diminuiu. Sofia o visitava, contava histórias sobre a vida deles, sobre o restaurante famoso dele, sobre o casamento que estavam planejando. Mas as histórias pareciam pertencer a outra pessoa. Ele se sentia como um espectador na vida de um estranho.
Uma semana depois, Sofia apareceu com outra mulher. Esta era diferente. Tinha cabelos castanhos presos num coque bagunçado, olhos gentis e um ar de cansaço, como se não dormisse há dias. Ela usava roupas simples e não tinha maquiagem.
"Pedro, esta é a Ana. Minha melhor amiga," Sofia disse, com uma animação forçada. "Ela vai ajudar a cuidar de você enquanto eu resolvo umas coisas urgentes do trabalho. Você sabe como é."
Pedro não sabia. Mas ele olhou para Ana, e pela primeira vez, sentiu uma pontada de algo familiar, embora não conseguisse identificar o quê.
Ana sorriu para ele, um sorriso tímido e genuíno.
"Oi, Pedro. Fico feliz em ver que você está melhor."
A voz dela era calma e suave, um contraste com a de Sofia.
Naquela tarde, Sofia saiu apressada, falando ao celular sobre um compromisso inadiável. Deixou Ana sozinha com Pedro. O silêncio no quarto era desconfortável.
"Então…" Pedro começou, sem saber o que dizer. "Vocês são melhores amigas?"
Ana assentiu, sem olhá-lo nos olhos. Ela ajeitava as flores num vaso ao lado da cama.
"Desde a faculdade."
Algo na postura dela parecia tenso. Pedro, mesmo com a memória em branco, era um observador. Ele sempre fora, mesmo que não se lembrasse disso. Ele notava os detalhes: a forma como Ana torcia as mãos, como seu olhar fugia do dele.
No dia seguinte, o médico deu a notícia: a amnésia de Pedro poderia ser temporária ou permanente. Ninguém sabia.
Quando o médico saiu, Sofia olhou para Pedro com uma expressão que ele não soube decifrar. Não era preocupação. Era… cálculo.
Mais tarde, Pedro estava cochilando quando ouviu vozes do lado de fora do seu quarto. A porta estava entreaberta. Eram Sofia e Ana.
"Eu não posso fazer isso, Sofia," a voz de Ana era um sussurro desesperado. "É loucura. É cruel."
"Cruel? Cruel é ficar presa a um homem que nem sabe o próprio nome," a voz de Sofia era baixa e dura. "Eu tenho uma vida, Ana. O Lucas está me esperando. A gente ia viajar. Eu não posso colocar tudo em pausa por causa disso."
Lucas. O nome flutuou no ar.
"Mas… e o Pedro? Você não pode simplesmente abandoná-lo."
"Eu não vou abandonar! Você vai estar aqui," Sofia disse, como se fosse a solução mais óbvia do mundo. "É perfeito. Você sempre gostou dele mesmo, não é? Sempre olhando para ele com essa cara de cachorrinho abandonado. Agora é sua chance."
Houve um silêncio. Pedro sentiu o coração acelerar. Ele não entendia tudo, mas entendia a essência. Traição.
"Você só precisa fingir que é minha noiva por um tempo," Sofia continuou, a voz agora mais suave, manipuladora. "Só até ele se recuperar um pouco, ou até eu resolver o que fazer. Pense nisso como um favor. Para sua melhor amiga."
Pedro fechou os olhos, a cabeça doendo de novo, mas desta vez não era pelo acidente. Era pela decepção que começava a se formar no vazio da sua mente.
No dia seguinte, Sofia não apareceu. Em vez dela, Ana entrou no quarto, pálida e com olheiras profundas. Ela carregava uma pequena mala.
Ela parou ao lado da cama de Pedro, respirando fundo.
"Pedro…" ela começou, a voz trêmula. "A Sofia… ela… ela precisou viajar a trabalho. De última hora. Ela pediu para eu… para eu cuidar de você. Como… como sua noiva."
Pedro olhou para ela. Ele podia ver a mentira nos olhos dela, a culpa pesando em seus ombros. Ele podia ver o conflito, a lealdade distorcida a uma amiga que não merecia, e talvez… algo mais. Uma esperança secreta, como Sofia havia dito.
Ele pensou em confrontá-la. Em gritar que tinha ouvido tudo. Mas uma parte dele, uma parte perspicaz e curiosa que o acidente não apagou, decidiu esperar. Ele queria ver até onde essa farsa iria. Queria entender quem era aquela mulher que aceitou participar de um plano tão absurdo.
Então, ele apenas assentiu, com uma expressão de confusa aceitação.
"Minha noiva?" ele repetiu, como se estivesse tentando se acostumar com a ideia.
Ana engoliu em seco e forçou um sorriso.
"Sim. Eu. Ana."
Pedro estendeu a mão e, desta vez, quando os dedos dela tocaram os seus, eles estavam quentes. Trêmulos, mas quentes. Ele segurou a mão dela, olhando-a nos olhos, e sentiu o primeiro fio de uma conexão real se formar em meio ao caos da sua mente perdida. O jogo havia começado. E, por alguma razão, ele estava ansioso para jogá-lo.





