O Coração Destruído de Sofia

O corredor do hospital se tornou um palco para a histeria de Sofia.

"Você vai deixar nosso filho morrer? É isso? Por dinheiro?"

Ela gritava, as palavras ecoando nas paredes brancas e estéreis. As pessoas nos corredores começaram a parar e olhar, atraídas pelo drama.

João Carlos se virou para ela, o rosto uma máscara impenetrável.

"Não se trata de dinheiro, Sofia. Se trata de princípios."

"Princípios?" ela riu, um som quebrado e amargo. "Que princípios valem mais que a vida do seu próprio filho? Você é um monstro!"

Pedro se aproximou, colocando um braço protetor ao redor de Sofia.

"Calma, cunhada. Ele não sabe o que está dizendo, deve estar em choque."

Ele então olhou para João Carlos com uma falsa expressão de pena.

"Irmão, eu sei que é difícil, mas pense no Pedrinho. Eu estou fazendo isso por ele, pela família. A compensação é só uma formalidade, para me proteger."

João Carlos olhou para a mão de Pedro no ombro de sua esposa e sentiu uma náusea. A encenação era patética.

"Proteger você de quê, Pedro? De um ataque de generosidade? E se o seu rim falhar depois do transplante? E se o corpo de Pedrinho rejeitar o órgão? E se ele morrer na mesa de cirurgia? Sua 'compensação' não vai trazer o menino de volta, nem o seu rim."

Cada pergunta era uma facada lógica na falsa benevolência de Pedro.

Dona Laura interveio, com lágrimas nos olhos.

"Como você pode falar uma coisa dessas? Desejar o mal para o seu próprio filho?"

"Eu não estou desejando o mal, estou sendo realista" , respondeu João Carlos, sua voz cortante. "Algo que nenhum de vocês parece ser capaz."

"Ele é um demônio sem coração" , disse o Sr. Carlos, balançando a cabeça em desaprovação. "Nunca se importou com ninguém além de si mesmo. Eu não sei onde foi que eu errei."

A acusação do pai doeu, mas João Carlos não demonstrou. Em vez disso, ele se voltou para Sofia, a raiva finalmente transparecendo em sua voz.

"Você é a mãe dele, Sofia. Por que você não faz alguma coisa? Por que você não vende suas joias, seus carros de luxo, sua parte na casa? Por que a salvação do seu filho depende apenas de mim e do meu dinheiro?"

Sofia ficou sem palavras, o rosto pálido de choque e ofensa.

"Como você ousa…?"

"Eu ouso porque estou cansado de ser o único a carregar o fardo nesta família" , ele a interrompeu. "Todos querem os benefícios, mas ninguém quer os sacrifícios."

A essa altura, uma pequena multidão havia se formado. Sussurros começaram a se espalhar. "Que tipo de pai faz isso?" , uma mulher perguntou. "Deixar o filho morrer por causa de dinheiro" , disse outro homem.

Uma enfermeira se aproximou, com uma prancheta na mão.

"Senhor, a conta do tratamento do Pedrinho precisa ser acertada. O seguro cobriu uma parte, mas o restante precisa ser pago para que possamos continuar com os procedimentos diários."

João Carlos olhou para a enfermeira, depois para sua família e para a multidão curiosa.

"Eu não vou pagar."

A declaração caiu como uma bomba.

"O quê?" disse a enfermeira, incrédula.

Sofia desabou em prantos.

"João, pelo amor de Deus!"

"Ela é a mãe" , disse João Carlos, apontando para Sofia com o queixo. "Ela pode pagar. Ou eles" , ele gesticulou para Pedro e seus pais. "Eles parecem tão preocupados. Deixem que eles provem."

Com isso, ele se virou e caminhou em direção à saída, ignorando os gritos de sua esposa, os xingamentos de sua madrasta e os olhares de condenação de todos ao redor. Ele parecia um vilão de novela, frio e impiedoso, saindo de cena após destruir a vida de todos. Mas por dentro, cada passo era um esforço para não desmoronar, para manter a máscara no lugar até que a verdade pudesse finalmente vir à tona.

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