O Carro Rosa de Traição

Ponto de Vista: Giovana Ribeiro

Levantei-me e os olhos de Diogo caíram imediatamente sobre a caixa de presente que eu havia colocado na mesa de centro. O rosto dele se iluminou.

— O que é isso? Outra surpresa? — Ele caminhou em direção a ela, uma excitação infantil na voz.

— É para você — disse, minha voz plana. — Seu presente de aniversário.

Ele riu, pegando a caixa.

— Meu aniversário é só semana que vem! Você é sempre tão atenciosa, meu amor. — Seus olhos brilhavam. Ele era tão alheio. *Ele vai descobrir em breve*, pensei, uma satisfação fria se espalhando por mim.

— Abra no seu aniversário — disse a ele, com um toque de aço na voz.

Ele colocou cuidadosamente a caixa sobre a lareira, ao lado de uma foto emoldurada nossa do casamento.

— Eu vou — prometeu, os olhos cheios de afeto. — Você me faz o homem mais feliz do mundo.

Ele pegou minha mão, me puxando em direção à porta.

— Vamos. O jantar nos espera.

Descemos para a garagem subterrânea. Lá estava ele. O carro "Alma Gêmea", brilhando sob as luzes fluorescentes, sua pintura rosa quase cegante. Sua traição final, agora estacionada em nossa casa.

— Quer dar uma volta com ela? — perguntou ele, os olhos praticamente saltando das órbitas de orgulho.

Caminhei lentamente ao redor do carro, minha respiração presa na garganta. A placa personalizada: "GIOVANA". Meu nome. Estampado no veículo de sua infidelidade. Meu corpo começou a tremer, um pavor frio penetrando em meus ossos. Vi o rosto de Karina, seu sorriso zombeteiro, a mão dela na coxa de Diogo no vídeo. Tudo dentro do meu carro.

Diogo viu minha hesitação.

— O que foi, amor? Não gostou? — Ele parecia genuinamente preocupado.

Balancei a cabeça.

— Não, é lindo — menti. — É só que... não estou acostumada a dirigir um carro tão grande. Faz tempo que não dirijo na cidade. — Minha desculpa era fraca, mas ele acreditou.

Ele pegou as chaves da minha mão trêmula.

— Sem problemas! Eu dirijo. Eu até te ensino. Pense em todos os lugares que iremos. — Ele abriu a porta do passageiro com um floreio.

Tirei um lenço umedecido antisséptico, esfregando o couro suntuoso do banco do passageiro antes de me sentar. Esfreguei e esfreguei, como se pudesse apagar a presença de Karina, seu cheiro, seu toque. Era inútil.

Diogo riu novamente.

— É um carro novo, querida. Por que você está limpando?

— Não gosto que outras pessoas toquem nas minhas coisas — disse, minha voz cortante. As palavras pairaram no ar, pesadas com um significado não dito.

O sorriso dele vacilou. Um lampejo de algo — vergonha? medo? — cruzou seu rosto. Ele limpou a garganta rapidamente.

— Certo. Bem, vamos lá. Aquele macarrão trufado não vai se comer sozinho.

Ele tagarelou sobre o restaurante estrelado, o menu requintado, a harmonização perfeita de vinhos. Eu mal o ouvia. Minha mão roçou em algo duro sob o assento. Um batom. Fúcsia.

Eu o peguei. Ele viu. Seus olhos dispararam nervosamente. O rosto dele ficou vermelho carmesim.

— Ah, isso! É... um novo truque de marketing. Uma cor popular. A Karina deve ter deixado cair. — Ele tropeçou nas palavras.

Levantei o objeto, um sorriso fraco e arrepiante nos lábios.

— Isso também é um presente, Diogo?

Ele gaguejou:

— Não, não! Apenas uma amostra. A equipe de vendas provavelmente colocou lá por engano.

Zombei internamente. Girei a tampa. A ponta do batom estava gasta, claramente usada. Olhei para ele, meu olhar penetrante.

— Odeio coisas de segunda mão, Diogo — disse suavemente. — Homens também.

Ele recuou, como se tivesse levado um tapa. Sua mão disparou, agarrando meu pulso.

— Giovana, por favor! Sinto muito. Eu... — A voz dele estava grossa de pânico.

Não respondi. Simplesmente levantei a mão e joguei o batom na lixeira da esquina enquanto estávamos parados no sinal.

Meu celular vibrou. Karina. *'Ops, deixei meu batom no Alma Gêmea de novo! Não queria sujar minha bolsa nova, rs. Diga ao Diogo que pego amanhã de manhã, tá?'*

Olhei para Diogo, o rosto dele uma máscara de arrependimento suplicante. Era tudo uma performance. Era tudo tão absolutamente sem sentido.

Virei a cabeça, observando as luzes da cidade passarem borradas. Eu só queria que este dia acabasse. Queria comemorar meu último aniversário com ele, e depois cair fora.

Chegamos ao restaurante. Ele abriu minha porta, um marido encantador e devoto. As pessoas ao redor arrulhavam. "Que cavalheiro!" "Ele está tão apaixonado!" "Ela é tão sortuda!"

Diogo se empavonou, absorvendo a admiração. Ele me conduziu para dentro. Uma mesa carregada com meus pratos favoritos nos esperava. Cozinhados por outra pessoa. Pagos por ele. A ilusão suprema.

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