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O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor
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O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor

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Em O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor, uma escritora enfrenta traumas do passado em Vila Branca. Ao lado de um biólogo, ela investiga mistérios marítimos nesta romance novel. Leia livros online grátis e descubra segredos nesta mystery story sobre superação e destino.

Capítulo 1 de O Caminho do Coração - Sob as Correntes do Amor

O cheiro do mar era uma faca. Fino, salgado, cortante. Clara sentiu-o assim que desceu do ônibus que a deixara na entrada de Vila Branca, aquele vilarejo escondido entre falésias e pinheiros, onde o vento parecia sussurrar lembranças que ela lutava para esquecer.

A residência literária ficava no alto de um morro, em uma casa antiga pintada de branco e azul-claro, como todas ali. A brisa úmida do oceano arrepiava a pele de Clara, que carregava uma mochila leve e o coração pesado. Não era a primeira vez que via o mar desde o acidente, mas era a primeira vez que vinha por vontade própria. Mesmo que isso parecesse mais uma armadilha do destino do que uma escolha racional.

A proposta da editora havia sido tentadora: um mês à beira-mar para escrever sobre liberdade, recomeço, e, quem sabe, amor. Uma bolsa generosa. Um quarto com vista para o mar. Uma nova chance. Clara, que estava há meses bloqueada criativamente, aceitou. Por necessidade. E talvez, bem no fundo, por desafio.

Caminhou pelas ruas de pedra, sentindo o estalar dos passos contra o chão molhado. Havia chovido à noite, e o aroma da terra molhada se misturava ao sal. A cidade era silenciosa, quase parada no tempo. Em cada janela, uma planta. Em cada varanda, um olhar curioso.

Quando chegou à casa, foi recebida por uma mulher de voz doce e olhar firme.

— Você deve ser a Clara Martins. Bem-vinda à Casa Ondamar — disse ela. — Sou Teresa, a coordenadora da residência. Espero que a viagem tenha sido tranquila.

Clara apenas assentiu, apertando o casaco contra o corpo.

— Seu quarto é o segundo andar, janela para o mar.

— Claro que é — murmurou Clara, quase num riso amargo.

Teresa a conduziu escada acima. O quarto era simples, com uma cama de ferro, uma escrivaninha de madeira gasta e uma janela ampla que dava diretamente para o azul infinito.

Clara parou diante dela, hesitante. O mar se estendia como um espelho quebrado. As ondas quebravam suaves naquela manhã, mas ela ainda conseguia ouvir o som que a acompanhava nos pesadelos: o estrondo de algo afundando, o grito abafado, o silêncio depois da tragédia.

Ela fechou as cortinas.

---

À tarde, saiu para explorar os arredores. Queria entender onde havia se metido, mas sem se afastar muito da casa. Teresa lhe explicara que Miguel Duarte, um dos anfitriões do projeto e biólogo local, faria uma recepção com os escritores na manhã seguinte.

Seguiu por uma trilha costeira, afastando-se das ruas principais. A paisagem era de tirar o fôlego: o mar de um azul denso, as falésias altas, os barquinhos coloridos balançando ao longe.

Então parou.

O cheiro do mar se intensificou. E junto dele, uma onda de lembranças. Imagens dela criança, segurando a mão do pai enquanto ele contava as histórias de quando navegava. O riso da mãe, chamando-os para o piquenique na areia. O último abraço antes da viagem de barco. E depois… nada. Um telefonema. Um enterro sem corpos.

Clara respirou fundo, tentando afastar os pensamentos. Foi quando ouviu passos.

— Você voltou — disse uma voz masculina atrás dela.

Ela se virou, surpresa.

Ali estava ele.

Alto, de postura tranquila. Cabelos castanhos curtos e bagunçados pelo vento. Pele dourada de sol. E olhos… olhos escuros e profundos, como se carregassem o próprio oceano dentro deles.

— Desculpe… você é?

— Miguel. Miguel Duarte — ele estendeu a mão. — Acho que sou seu anfitrião.

Clara apertou sua mão, cautelosa.

— Vim escrever. Só isso.

— Ninguém encara o mar só por trabalho — ele respondeu, com um meio sorriso. — Alguma parte sua ainda quer entender o que aconteceu naquela noite, não é?

Ela o encarou, engolindo seco.

— Você me conhece?

— Não pessoalmente. Mas conheci seu pai. Ele salvou meu irmão uma vez, há muito tempo. No mar.

Clara sentiu o chão sumir por um instante. A mão escorregando da borda do barco, a onda levando tudo, o eco de um nome nunca mais pronunciado.

— Isso… isso é sério?

— É. Meu irmão se chamava Lucas. Tinha 18 anos. Seu pai o puxou da correnteza. Nunca mais nos vimos. Mas lembro do rosto dele. E do seu. Você estava lá. Tinha uns oito, talvez nove anos.

Clara deu um passo para trás, o ar rarefeito.

— Preciso ir.

— Claro. Só queria dizer que, se precisar de alguma coisa… estou por aqui.

Ela não respondeu. Apenas caminhou de volta à casa, os pensamentos embaralhados.

Ele conheceu meu pai. Ele me viu criança.

Por que isso parecia mais do que coincidência?

---

Naquela noite, Clara não dormiu.

Sentou-se na escrivaninha e abriu o caderno.

A tinta deslizou pela folha sem que ela pensasse.

> “O mar guarda histórias que não contamos em voz alta.

Ele carrega os nomes dos que perdemos, e devolve, às vezes, quem nunca esperávamos encontrar.”

Ela rabiscou até que a mão doesse.

Pela primeira vez em meses… estava escrevendo.

---

Pela manhã, um bilhete a esperava na porta:

“Encontro às 10h no farol. Vai valer a pena. — Miguel”

Ela ficou olhando para as palavras como se fossem um convite a outro mundo.

O farol ficava ao norte da vila, numa elevação que exigia coragem para escalar. O lugar onde, segundo Teresa, os pescadores iam “conversar com os mortos”. Um lugar de histórias. De despedidas.

Ela hesitou. Depois vestiu o casaco, amarrou o cabelo e partiu.

---

O farol era velho, mas imponente. O vento ali era mais forte, assobiando entre as pedras. Miguel já a esperava, encostado em uma pedra, olhando o mar como quem conversa com ele.

— Achei que não viria — disse ele, sem tirar os olhos do horizonte.

— Ainda não tenho certeza se vim.

Ele sorriu.

— Sabe por que gosto desse lugar? Porque daqui a gente enxerga o mar todo. O começo e o fim.

— E o que tem no meio?

— As correntes. Invisíveis, fortes. Levam o que queremos esconder. Trazem o que precisamos enfrentar.

Clara cruzou os braços.

— E por que me trouxe aqui?

Miguel olhou para ela.

— Porque você precisa encarar. Você veio até aqui por uma razão. E não é só pelo livro.

Ela sentiu raiva. Ele nem a conhecia.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Talvez não. Mas o mar sabe.

Ela se calou.

Ali, com o vento soprando as lembranças e a solidão do farol ao redor, Clara percebeu: havia algo naquele lugar que pedia para ser desenterrado.

E Miguel… talvez fosse a chave.

Ou talvez fosse mais uma onda prestes a quebrar sobre ela.

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