O Caçador de Feras indomáveis

Leônidas sentiu a mulher desmaiar de dor em seus braços. Puxou a pele que havia retirado do leopardo e o colocou ao lado dela, de modo que pudesse deitar-lhe sobre a pele.

 Notou que o ferimento estava sangrando muito. Lembrou-se então de sua bolsa, e buscou ali algo que servisse para vedar o sangramento.

      Encontrou um lenço branco com rendas delicadas, era um presente que lhe acompanhava há muito tempo, mas no momento também era o único que poderia usar. 

  O apertou entre as mãos, fechou os olhos por um momento suspirando, enquanto seus pensamentos retornavam a quem lhe havia presenteado.

"Sinto muito ítane! Nossa promessa tem me acompanhado todo este tempo, mas acredito que nem mesmo a ausência deste nobre presente apagará o que tenho vivido por você!"

   Ele o dobrou como uma faixa, pegou a garrafa que ainda continha bebida, e derramou um pouco sobre o ferimento, tentou ser o menos rude possível.

   Encarou o ferimento que continuava a sangrar vertiginosamente. Rasgou um pouco mais a manga da blusa, para que pudesse enrolar o lenço por sobre todo o ferimento, sem nenhum problema.

   Em seguida, com o lenço sobre o ferimento, o amarrou o mais gentil possível.

     Constatou que Constância pouco provavelmente acordaria por aquela noite, mas se o fizesse, seria melhor estarem bem acomodados e prevenidos contra ataques de algum predador, ou  mesmo da fera, que parecia estar atrás dela pelo que pôde perceber.

     Alimentou a fogueira novamente. E finalmente cansado, sentou-se na extremidade oposta a mulher, recostado contra uma árvore de tronco grosso, tentou relaxar, mas ainda tinha um pressentimento ruim sobre aquela noite, e isso o atordoava ainda mais.

   Havia deixado a aldeia há poucos dias, eram três dias de viagem até ali, sabia que não havia nenhuma casa por perto, entretanto, o que mais lhe intrigava agora, era o porquê daquela mulher estar logo ali, e por que a fera a perseguia?

    Seus olhos miravam a miravam. Ela possuía uma beleza selvagem, não era delicada como as outras mulheres, os cabelos eram compridos e levemente com ondas, seus lábios pouco fartos tinha o mesmo tom de sua pele morena, sobrancelhas cheias como as dele e pouca arqueadas, nariz reto como o seu.

  Ela era de toda atraente, porém a seus olhos, era mais uma mulher bonita como tantas outras que já tinha visto. 

  Todavia, ela poderia ter respostas que ele buscava há um tempo. E para que obtivesse suas respostas, o melhor seria mantê-la por perto, mesmo que essa ideia fosse contraproducente a seus desejos.

     Um barulho bem perto dali o arrancou de seus pensamentos, pegou o rifle, e esperou. A floresta pareceu cessar por um momento.

"Isso não é bom!"

    Leônidas caminhou o mais silencioso possível para junto da fogueira, pegou um pedaço de madeira dos muitos que estavam ali, e o acendeu. O predador estava perto, podia sentir. 

Olhou para Constância. Ela estava voltando a si novamente.

- Ai! - com uma das mãos sobre o ferimento arqueou o corpo em dor.

   Leônidas andou para mais perto dela, colocou-se ao seu lado, com uma mão segurando a tocha, e a outra o rifle, falou quase inaudível.

- Fique quieta!

   Constância olhou para ele, chateada e assustada por ainda estar viva, pior era estar ao lado dele, o homem que quase a matou duas vezes. No entanto, a atenção dele não era sua e sim de algo que se aproximava lentamente. 

  Seus olhos seguiram a mesma direção que os dele.

- O que pode ser?

 A voz dela estava falhando quando perguntou.

Leônidas voltou-se para ela.

- A fera!

   Constância encolheu-se ainda mais. O esforço a fez sentir dor. O ferimento estava piorando, entretanto ela nem percebeu diante de tanto pavor em pensar naquele monstro.

   Leônidas acabava de confirmar sua teoria. Constância era o que faltava para seu quebra cabeça ser montado.

   Os arbustos à volta deles estavam se mexendo. Ouviu-se um barulho aterrador naquele instante. Vinha de onde Leônidas havia deixado o corpo do leopardo.                         Colocou o rifle em suas costas junto com sua bolsa, deixou a tocha no chão por um momento, fez sinal para que Constância, que ainda permanecia recolhida o seguisse.

  Ela tentou com muito esforço levantar-se. Leônidas sabia que esta era a oportunidade de ambos, passou o braço direito em volta da cintura dela tomando-a de surpresa. 

  Segurando a tocha novamente, chutou areia para cima da fogueira e partiu apoiando Constância, ambos caminhavam para o lado oposto à fera. 

- Vamos! Tem uma abertura aqui em algum lugar! – Mesmo naquela situação a voz dele continuava firme.

   Constância concordou, não tinha forças nem coragem de discutir contra ele. Ambos caminharam por alguns minutos. O corpo dela não aguentava mais o esforço.

   Leônidas praticamente a carregava pelo restante do caminho.

- Por favor pare! Não aguento mais! Por favor! Está doendo muito! E minhas pernas não me obedecem!

   O caçador não parecia diferente, havia realizado um enorme esforço com o leopardo, mas não se deixaria morrer de cansaço, isso jamais. Curvou-se para que ela subisse em suas costas.

- Vamos lá!

  Ela estava quase desmaiando novamente.

- Não! Você não pode me carregar! 

   Vendo que ela os faria perder mais tempo, a agarrou de uma só vez, e a colocou em suas costas, encaixando as pernas dela em sua cintura.

- O que pensa que está fazendo? Me ponha no chão seu grosseiro!- A voz dela não era ouvida por mais ninguém, exceto eles.

   Leônidas reagiu a seu pedido, apertando mais ainda as pernas dela em seus braços, impedindo assim que, ambos gastassem a energia que ainda lhes restava.

  Ela gemeu em resposta. E o socou sobre a espádua dele.

- Eu bem que gostaria de abandonar você aqui para aquela fera, mas tenho um senso de justiça infalível!

Ela parou de remexer-se.

  O ouvindo agora, sentiu-se mais humilhada do que antes de o conhecer. 

   Passado um tempo, Leônidas  percebeu que havia chegado finalmente na caverna que havia visto mais cedo, abaixou-se um pouco para que pudessem entrar, olhando para todos os lados com a tocha empunhada certificou-se de sua segurança.Constância o apertava sem perceber. Os olhos dela iam e viam pela escuridão.

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