O Apagão que Acendeu a Liberdade

O meu pai tinha uma apólice de seguro de vida.

O beneficiário era a minha mãe, falecida há dez anos. Eu era a beneficiária secundária.

O advogado, um velho amigo da família, sentou-se à minha frente no seu escritório abafado, os seus olhos cheios de pena.

"Beatriz, o teu pai deixou tudo para ti. A casa, as poupanças... e este seguro."

Ele empurrou os papéis pela mesa. O valor era substancial. O suficiente para eu nunca mais ter de me preocupar com dinheiro.

O meu pai sempre cuidou de mim.

Mesmo depois de morrer.

Uma lágrima silenciosa escorregou pela minha cara. Eu limpei-a rapidamente.

Quando saí do escritório, o sol brilhava. A cidade tinha recuperado a energia, mas a minha vida continuava às escuras.

O meu telemóvel vibrou. Era a minha sogra, a Clara.

"Beatriz? Onde é que te meteste? O João está preocupadíssimo contigo!"

Preocupado? Ele bloqueou o meu número.

"Estou a tratar das coisas do funeral do meu pai," respondi, a minha voz vazia de emoção.

Houve uma pausa.

"Ah, sim. O funeral. Que triste. Mas ouve, tens de entender o João. A Sofia estava em pânico. Ele é um bom homem, tem um coração enorme. Ele ajuda toda a gente."

Toda a gente, exceto a sua própria família.

"Ele não me atendeu o telefone, Clara. Eu estava a perder o nosso filho."

"Oh, querida, eu sei que é difícil. Mas essas coisas acontecem. Talvez não fosse para ser. Agora tens de ser forte, pelo teu marido. Ele precisa do teu apoio. A Sofia está a passar por um momento muito mau, coitadinha."

Eu não conseguia acreditar no que estava a ouvir.

A minha perda, a morte do meu pai, tudo era secundário. A prioridade era o bem-estar da Sofia.

"Eu pedi o divórcio ao João," disse eu, cortando o seu discurso.

O silêncio do outro lado da linha foi pesado, carregado de desaprovação.

"Divórcio? Depois de tudo o que o meu filho fez por ti? Tu és uma ingrata, Beatriz. Ele deu-te uma vida boa, uma família. E tu deitas tudo fora por um capricho? Vais arrepender-te disto."

Ela desligou.

Claro que ia.

Arrepender-me de não o ter feito mais cedo.

Voltei para a casa dos meus pais, a casa que agora era minha. Estava silenciosa, cheia de fantasmas.

Sentei-me no sofá velho do meu pai e comecei a fazer uma lista.

A primeira coisa na lista: contratar o melhor advogado de divórcios de Lisboa.

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