O amor que não mereço

Vivian

Oito anos voaram num piscar de olhos.

Balões azuis, vermelhos e prateados tremulam nas paredes, presos por fitas que capturam a luz do fim de tarde. A mesa era um monumento à alegria infantil: um bolo decorado com pequenas naninhas de açúcar, cercado de cupcakes, pirulitos de chocolate e um exército de salgadinhos. O ar estava impregnado do aroma da celebração e da felicidade.

— Está tudo perfeito, Vivian. — disse Neil, meu amigo e vizinho. — Leo vai gostar.

Abro um sorriso largo e genuíno. Organizar essa festa de oito anos para o meu filho tinha sido uma terapia. Um ano difícil de desemprego, de contas apertadas, mas eu tenho economizado cada centavo para que hoje seja mágico.

Afinal, Leo é a luz que insiste em brilhar mesmo nos meus dias mais nublados. Ele merece.

— Ele chegou! — informo, espiando pela janela da sala.

Lá está ele, meu menino. Seus cabelos cacheados, tão parecidos com os do pai que nunca conheceu, balançam enquanto ele corria atrás de seus amigos e Emily Morris, minha melhor amiga. Seu riso, um som cristalino e contagiante, aquece o ar, fazendo com que meu coração se apertasse de amor. Tudo vale a pena.

A festa começa como um turbilhão de alegria. A casa logo se enche de gritos, risadas e o barulho de pés descalços correndo de um lado para o outro.

Leo era o centro do universo, o anfitrião orgulhoso, mostrando seus brinquedos e liderando as brincadeiras. Cantamos “Parabéns” com vozes desafinadas e entusiasmadas, e ele sopra as oito velinhas de um só assopro, os olhos fechados em concentração, com um sorriso de orelha a orelha.

Na hora do esconde-esconde, As crianças se espalham pela casa como cotovias assustadas. Leo, eufórico, correu para o jardim, seu esconderijo favorito atrás da grande roseira. Eu o observo correr, e então vejo que ele para subitamente no meio do caminho, como se tenha batido em uma parede de vidro, e leva a mão ao peito. Seu rosto, antes corado pela animação, perde toda a cor, ficando pálido como cera.

— Leo? — chamei, minha voz ainda leve, pensando que era cansaço.

Ele não me responde e cambaleia, um movimento desengonçado e lento. Seus olhos grandes parecem perder o foco, vidrados em algo no infinito.

— Leo! — meu grito fica mais agudo, um estampido de pânico no meio da algazarra.

Não chego a tempo. Seus joelhos cedem e ele desaba no gramado, como um boneco de pano. O som do seu corpo atingindo o chão é abafado pela grama, mas ecoa dentro de mim como um trovão.

O silêncio cai sobre a festa como um manto pesado e as risadas morrem instantaneamente. As outras crianças param, confusas e assustadas, observando o amigo caído.

Eu caio de joelhos ao lado dele, minhas mãos tremendo violentamente.

— Leo! Filho, me escuta! Mamãe está aqui!

Toco seu rosto, frio e úmido, como mármore numa manhã de orvalho. Sua respiração parece um fio tênue, com um movimento quase imperceptível em seu peito. Ele não responde, seus olhos semicerrados, as pálpebras tremulando levemente.

— Vou chamar uma ambulância! — grita Neil, sua voz estridente rompendo o estupor coletivo.

O que se segue é um borrão de imagens e sensações: a chegada estridente da ambulância, os paramédicos se movendo com eficiência assustadora, a maca, os fios, o oxigênio... Eles colocam meu pequeno no veículo, e eu subo atrás, minhas pernas feitas de gelatina. A última coisa que vejo antes que o veículo parta são os rostos confusos das crianças no jardim e um bolo meio comido no fundo, uma celebração interrompida de forma brutal e grotesca.

No hospital, o tempo perde todo o significado. Ficamos numa sala de espera da emergência, um cubículo branco e impessoal que cheira a desespero. O zumbido do ar-condicionado me parece a trilha sonora do meu inferno particular, cada minuto uma eternidade. Minha mente está cheia de pensamentos catastróficos. Um desmaio devido à excitação? Hipoglicemia? Ou algo pior, algo que eu, como mãe, tenho falhado em ver?

Quando Alvin, um médico, finalmente sai, seu rosto carrega um peso que faz meu estômago embrulhar.

— Senhora, seu filho está estável. Recuperou a consciência. — ele começa, sua voz calma e firme.

Um alívio intenso e fugaz me lava por dentro, mas dura apenas um segundo.

— Porém... — ele continua, e essa palavra cai como uma lâmina. — Os exames iniciais e o relato do episódio são bastante sugestivos. Encontramos uma arritmia cardíaca significativa. O desmaio, a síncope, foi muito provavelmente causado por isso.

— Mas... ele é uma criança de oito anos. — Só consigo balbuciar.

— É por isso que fizemos um exame minucioso. Suspeitamos que ele possa ter um problema cardíaco subjacente que exija cirurgia. — ele disse, a voz suavizando-se um pouco.

Então explica, com paciência, que era uma doença do músculo cardíaco, que pode ser silenciosa por anos. Sinto que cada palavra é um prego no caixão da normalidade que eu conheço. Ele fala em ecocardiogramas e ressonância magnética, fala em risco, e fala em morte súbita.

A palavra “morte” ecoa na sala e aniquila o que resta de mim.

— Quanto custa a cirurgia? — pergunto sem hesitar.

— Cem mil, acho, e sugiro que faça a cirurgia o mais rápido possível. — responde Alvin.

Cem mil... De onde tirarei tanto dinheiro?

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