O Amor Que a Morte Não Apagou

O relatório médico na minha mão parecia pesar uma tonelada, cada palavra um prego no meu caixão. Tumor cerebral, estágio terminal. O médico disse que eu tinha, na melhor das hipóteses, três meses de vida.

No mesmo dia, os jornais de Lisboa estampavam o rosto dele na primeira página. Leonel Contreras, o arquiteto prodígio, regressava a Portugal depois de anos no Brasil para celebrar o seu noivado com Sofia, uma curadora de arte do Porto.

O meu ex-namorado. O meu meio-irmão. O homem que eu amava mais do que a própria vida.

Saí do consultório, amassei o relatório e atirei-o para o lixo mais próximo. Se só me restavam três meses, não os ia passar numa cama de hospital. Ia usá-los para ter de volta o que era meu.

Sabia exatamente onde o encontrar. A clínica de repouso em Cascais, onde a mãe dele estava internada há anos.

Quando cheguei, ele estava de pé no jardim, de costas para mim, a falar ao telemóvel. A sua silhueta alta e imponente era a mesma que assombrava os meus sonhos.

"Sofia, já te disse, estou a tratar de um assunto. Ligo-te mais tarde."

Ele desligou e virou-se, o seu rosto endurecendo no momento em que me viu. Aquele rosto que eu conhecia tão bem, agora era uma máscara de frieza.

"Juliette."

A forma como ele disse o meu nome, sem qualquer emoção, fez o meu peito doer.

"Olá, irmão."

Usei a palavra de propósito, para o provocar. Vi um brilho de irritação nos seus olhos escuros.

"O que estás a fazer aqui?"

"Vim visitar a tia Clara," menti, referindo-me à mãe dele. "Soube que ela não tem andado bem."

"Não tens o direito de lhe chamar tia," ele cuspiu as palavras. "E como é que soubeste? Apaguei o teu número há muito tempo. Pensei ter deixado claro que não queria mais nenhum contacto."

A sua crueldade era direta, sem rodeios. Doeu, mas eu não demonstrei.

"Tenho as minhas fontes, Leonel."

Ignorei a sua raiva e caminhei em direção à entrada da clínica. Ele não me impediu, mas seguiu-me, os seus passos pesados ecoando atrás de mim.

A mãe dele, Clara, estava sentada numa cadeira de rodas junto à janela, a olhar para o nada. O seu olhar estava vazio. O caso da minha mãe com o pai dele tinha-a destruído, deixando-a neste estado vegetativo.

Ajoelhei-me ao lado dela e peguei na sua mão fria.

"Olá, tia Clara. Sou eu, a Juliette. Vim ver-te."

Ela não reagiu. Comecei a falar-lhe baixinho, a contar-lhe sobre os meus dias, sobre os azulejos que pintava, qualquer coisa para preencher o silêncio. Fazia isto sempre que podia, mesmo depois de Leonel ter partido para o Brasil. Era a minha penitência.

De repente, senti uma mão forte no meu braço, puxando-me para cima. Era Leonel. A sua cara estava a centímetros da minha, os seus olhos a arder de fúria.

"Eu não te quero perto dela. Fica longe da minha mãe."

A sua voz era um rosnado baixo e perigoso.

"Porque é que voltaste, Leonel? Para te casares?" perguntei, a minha voz a tremer ligeiramente.

"Isso não te diz respeito."

"Claro que diz," insisti, encontrando o seu olhar. "Eu não vim aqui pela tua mãe. Eu vim aqui por ti. Eu queria ver-te."

A minha confissão pareceu apanhá-lo de surpresa. Ele afrouxou o aperto no meu braço. Por um momento, vi algo no seu olhar, uma fissura na sua máscara de gelo.

Ele tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. O fumo envolveu-nos. Por puro reflexo, um hábito antigo, estendi a mão e tirei-lhe o cigarro dos lábios.

"Sabes que eu não gosto que fumes."

Ele olhou para a minha mão, para o cigarro, e depois para mim. A sua expressão era indecifrável.

"Algumas coisas nunca mudam, não é, Juliette?"

Ele pegou no cigarro de volta e deu uma longa passa, antes de o apagar no cinzeiro. Depois, virou-me as costas e foi-se embora, deixando-me sozinha com a sua mãe e o eco das suas palavras.

Naquela noite, fui para o Bairro Alto. Precisava de barulho, de música, de gente. Precisava de esquecer a dor que me consumia. O Fado que saía das tascas parecia contar a minha própria história de amor e perda.

Entrei num bar apinhado, o cheiro a álcool e suor no ar. Pedi uma ginjinha e virei-a de um só trago. O licor doce e forte queimou-me a garganta.

"Juliette, meu amor."

Virei-me e vi-o. Tiago. Um estudante de Belas-Artes que eu tinha ajudado. Um erro de julgamento. Ele parecia-se tanto com um Leonel mais novo, mais inocente. Era por isso que o tinha ajudado, para tentar preencher o vazio que Leonel deixara. Mas Tiago tinha-se tornado um problema, viciado em apostas online, sempre a pedir mais dinheiro.

"O que queres, Tiago?"

"Só um pouco mais, Juliette. Estou quase a ganhar o grande prémio. Depois pago-te tudo de volta, prometo."

A sua voz era melosa, mas os seus olhos eram gananciosos. Ele era um parasita. E eu estava cansada de ser a sua hospedeira.

"Acabou, Tiago. Não há mais dinheiro."

Peguei na minha bebida e, num movimento deliberado, derramei-a sobre a cabeça dele. O líquido escuro escorreu-lhe pelo cabelo e pela cara. O bar ficou em silêncio. Todos olhavam para nós.

"Fica longe de mim," disse eu, a minha voz fria como o gelo.

Tirei uma nota de cinquenta euros da carteira e atirei-a para a poça de bebida aos pés dele.

"Para a lavandaria."

Ouvi os murmúrios à minha volta. "É a Juliette Dixon, a artista. Dizem que ela é louca por homens que se parecem com o meio-irmão dela." "Coitado do rapaz, ela só o está a usar."

Eu não me importava. Deixei que pensassem o que quisessem. A minha reputação já estava manchada.

Saí do bar e senti o ar frio da noite no meu rosto. Olhei para cima, para as varandas dos prédios antigos. E então, vi-o.

Leonel.

Ele estava numa varanda do outro lado da rua, a olhar diretamente para mim. Tinha uma mulher ao seu lado, loira e elegante. Sofia. A noiva dele. Ele disse algo ao ouvido dela, e ambos riram. A sua expressão era de puro desprezo enquanto olhava para a cena que eu tinha acabado de protagonizar. Ele tinha visto tudo. E tinha confirmado a pior opinião sobre mim.

Perfeito. Era exatamente disto que eu precisava.

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados