O Alfa e a Criança da Lua

POV Zane (17 anos)

A lua pairava sobre a floresta como uma lâmina de prata, fria e distante, iluminando o caminho tortuoso que levava de volta à matilha. A comitiva se movia silenciosa, sombras pesadas e alongadas serpenteando pela trilha de terra batida. O silêncio era profundo, quebrado apenas pelo estalar ocasional de galhos secos sob botas firmes.

Nos braços de Zane, a menina dormia. Ela era pequena demais, leve demais, frágil demais para a escuridão que a cercava. Ele sentia o calor irregular do seu corpo, uma brasa fraca em meio ao frio da noite. A cabeça dela repousava contra seu peito, os fios de cabelo emaranhados roçando sua pele.

Zane sentiu a raiva queimar no fundo do seu peito. Não era uma raiva explosiva, mas um calor persistente e subterrâneo que ameaçava consumir tudo. Raiva pelo que havia acontecido, pela injustiça de uma criança ser tirada de sua infância, de ser forçada a enfrentar a crueldade do mundo antes mesmo de conhecer a bondade.

Mas, misturada à raiva, havia uma determinação silenciosa, uma promessa que ele sentia germinar em sua alma, como uma semente em solo árido. Ele não permitiria que ela fosse transformada em troféu.

O cheiro dela era uma sinfonia estranha. A doçura de mel e a leveza de lavanda, um perfume infantil e inocente que contrastava violentamente com a mancha de ferro seco de sangue. Era a fragrância de algo puro manchado pela violência. Um cheiro que se gravou em sua memória, como uma tatuagem na alma.

Ao lado dele, Carson caminhava em silêncio. O Beta era sempre sólido, mas naquele dia seu peso era quase físico, cada pensamento dele lançado contra o peito de Zane como pedras de gelo. Seu cheiro carregava ferro, madeira e gelo, mas também uma preocupação que Zane podia sentir mesmo sem palavras.

Atrás deles, a comitiva avançava em um silêncio carregado, uma procissão quase ritualística. Os guerreiros, que testemunharam a metamorfose do lobo branco, moviam-se com uma reverência que beirava o temor, seus passos medidos e seus olhares fixos, mas discretos. Eles não carregavam apenas uma criança; transportavam um presságio palpável, um oráculo envolto em fragilidade. Zane sentia, mais do que ouvia, a expectativa opressiva que permeava o ar. Ele já conhecia a cantiga ancestral que ecoava nas mentes deles, a verdade inescapável que aterrorizava e fascinava:

O lobo branco. O presente da Deusa. A peça rara que poderia moldar — ou quebrar — o destino da Silver Claw.

— Alfa… — Carson começou, a voz hesitante, como se cada palavra tivesse que atravessar um muro de gelo.

Zane ergueu os olhos e o interrompeu:

— Não.

Carson engoliu, o ar pesado entre eles.

— Mas…

— Eu disse não. — A voz de Zane cortou a noite, firme como aço.

— Ela é apenas uma criança. Não vou permitir que seja transformada em troféu da matilha. Nem de ninguém.

O silêncio que se seguiu não era aceitação; era um momento de contenção, de palavras afiadas engolidas e guardadas para outro dia.

Quando as muralhas da matilha surgiram à frente, os guardas se entreolharam, o respeito evidente em cada gesto contido. Nenhum ousou fazer perguntas, mas os olhares seguiram Zane até a casa da matilha. Curiosidade, expectativa… e algo mais sombrio que ele preferia ignorar.

Sem hesitar, Zane seguiu direto para a ala médica, carregando a menina como se ela fosse a joia mais preciosa do mundo. Myra, a curandeira, apareceu, os olhos arregalados ao ver a cena.

— Alfa, o que…?

— Nada de perguntas. — A voz de Zane não admitia réplica. — Apenas cuide dela.

Myra assentiu, rápida, preparando uma cama limpa, lençóis brancos e água morna. Mas Zane não a entregou de imediato. Cuidou de cada detalhe: deitou a menina, ajeitou os lençóis, garantiu que sua cabeça repousasse suave no travesseiro.

O rosto dela estava marcado pela poeira e pelo sangue seco, mas dormia com a pureza de qualquer criança. Pele oliva, lábios carnudos entreabertos, cílios longos pousados sobre o rosto delicado — um anjo coberto de cicatrizes antes mesmo de começar a viver.

Zane se sentou ao lado da cama. O peso da responsabilidade o esmagava e, ao mesmo tempo, despertava algo que não conseguia nomear. Talvez fosse o olhar violeta que ainda ardia em sua memória, ou destino, como diriam os anciões. Ou apenas humanidade — aquela parte dele que, apesar do título de Alfa, ainda era só um rapaz tentando não falhar.

Zander, seu lobo, ressoou em sua mente, sua voz grave e penetrante:

— Ela é importante, Zane. Mais do que podemos imaginar.

Zane fechou os olhos, exausto. A promessa formou-se silenciosa, sólida, inquebrável:

— Não importa. Eu não vou permitir que a tratem como moeda de poder.

A noite avançou, silenciosa e densa, e enquanto a menina respirava suavemente, protegida de tudo, Zane soube que, ali, sob a lua distante, nascia uma promessa capaz de mudar para sempre o destino da Silver Claw.

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