O Acidente e a Conspiração: Meu Marido e Minha Irmã

Quando saí do escritório do advogado, o sol do meio-dia queimava a minha pele. O papel do divórcio na minha mala parecia pesado, quase a rasgar o couro.

Dentro do carro, liguei o ar condicionado no máximo. O frio fez-me tremer. Olhei para o meu reflexo no espelho retrovisor. Estava pálida, com olheiras profundas.

Peguei no telemóvel e liguei ao meu, agora, ex-marido, o Pedro.

A chamada foi atendida quase instantaneamente.

"Já assinaste?"

A voz dele era fria, sem qualquer emoção.

"Sim," respondi, a minha voz a falhar um pouco. "Está feito, Pedro. Estamos divorciados."

"Ótimo. A Sofia vai ficar contente por saber."

Sofia. A minha irmã mais nova. A razão de tudo isto.

"Como é que ela está?" perguntei, quase por obrigação.

"A recuperar. O médico disse que a cirurgia ao joelho correu bem. Ela só precisa de descansar. Estou a caminho do hospital para lhe levar o almoço."

"Pedro..." comecei, mas não sabia o que dizer.

Ele interrompeu-me. "Olha, Lara, não vamos tornar isto mais difícil do que já é. Foi uma decisão mútua. Segue com a tua vida."

Ele desligou.

Não foi uma decisão mútua. Foi uma imposição dele.

Há duas semanas, a minha irmã Sofia sofreu um acidente de carro. Um condutor bêbado bateu-lhe por trás. Ela partiu o joelho. Precisava de uma cirurgia complicada e de muito sangue.

A Sofia tem um tipo de sangue raro, AB negativo. O mesmo que o meu. O hospital não tinha reservas suficientes.

O Pedro ligou-me, desesperado.

"Lara, a Sofia precisa de ti. Os médicos dizem que é urgente. Precisam de uma doação de sangue direta."

Eu estava grávida de sete meses.

"Pedro, eu não posso," disse-lhe, com o pânico a subir-me pela garganta. "O médico foi muito claro. Doar sangue agora é perigoso para mim e para o bebé. Pode induzir um parto prematuro."

"Perigoso? Mais perigoso do que a tua irmã morrer? Lara, é a Sofia! A tua única irmã!"

"E este é o nosso filho!" gritei, a mão a proteger a minha barriga. "O nosso filho, que tentámos ter durante anos!"

A linha ficou em silêncio por um momento. Depois, a voz dele tornou-se gelo.

"Se não vieres, não te quero ver nunca mais. Escolhe, Lara. É a tua irmã ou esse... feto."

Feto. Ele chamou ao nosso filho um feto.

Desliguei o telefone e chorei durante horas. Mas eu não fui. Não podia arriscar a vida do meu filho.

No dia seguinte, a minha mãe ligou-me. A Sofia tinha conseguido o sangue. Uma doação de emergência de outra cidade chegou a tempo. A cirurgia foi um sucesso.

Senti um alívio imenso. Mas quando tentei ligar ao Pedro, ele não atendeu. As minhas mensagens não foram respondidas. Ele bloqueou-me.

Uma semana depois, recebi os papéis do divórcio por correio.

Agora, aqui estava eu, sentada no meu carro, com o divórcio finalizado. A minha mão pousou instintivamente na minha barriga. O meu bebé chutou, como que a tranquilizar-me.

"Está tudo bem, meu amor," sussurrei. "Somos só tu e eu agora."

Liguei o carro e conduzi para casa, para o apartamento que em breve teria de deixar. O apartamento onde eu e o Pedro construímos uma vida. Onde pintámos o quarto do bebé de amarelo e montámos o berço.

Tudo isso parecia agora uma memória de outra pessoa.

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