O Abandono da Noiva

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.

O cheiro de desinfetante era forte.

Meu corpo estava fraco, e a minha cabeça doía como se tivesse sido atropelada por um camião.

Tentei mexer-me, mas uma dor aguda na minha perna esquerda fez-me parar.

Estava engessada.

A minha mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama, com o rosto pálido e os olhos vermelhos e inchados.

Ela viu que eu estava acordada e agarrou a minha mão.

"Lia, finalmente acordaste."

A sua voz estava rouca.

"Mãe, o que aconteceu? Onde está o Pedro?"

Pedro era o meu marido.

A expressão da minha mãe ficou ainda pior. Ela hesitou antes de falar.

"O Pedro... ele está a cuidar da Cláudia."

Cláudia. A minha meia-irmã.

A filha do meu padrasto, que veio morar connosco há um ano.

Uma sensação fria espalhou-se pelo meu peito.

"A cuidar da Cláudia? Mas eu tive um acidente de carro. Eu liguei-lhe. Eu disse-lhe que a minha perna estava partida."

"Ele disse que a Cláudia teve um ataque de pânico por causa do acidente e que precisava dele."

A minha mãe disse as palavras devagar, como se cada uma delas lhe custasse.

Um ataque de pânico.

Eu estava num acidente de carro, com uma perna partida e uma concussão, e o meu marido foi cuidar da minha meia-irmã por causa de um ataque de pânico.

Agarrei no meu telemóvel, que estava na mesa de cabeceira.

O ecrã estava rachado, mas ainda funcionava.

Liguei ao Pedro.

Demorou muito tempo a atender. Quando finalmente o fez, a sua voz estava cheia de irritação.

"O que foi, Lia? Não vês que estou ocupado?"

Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Cláudia.

"Pedro, a minha cabeça dói tanto. Estou com tanto medo."

O meu coração gelou.

"Pedro, eu estou no hospital. Tive um acidente."

A minha voz tremia, mas eu tentei mantê-la firme.

"Eu sei. A tua mãe disse-me. Mas a Cláudia precisa de mim agora. Ela está muito traumatizada. Não sejas egoísta."

Egoísta?

Eu era a egoísta?

"Pedro, nós somos casados. Eu sou a tua esposa."

"E a Cláudia é a minha irmã! Ela não tem mais ninguém! Tu tens a tua mãe, não tens? Para de fazer drama."

Ele desligou o telefone.

Na minha cara.

Olhei para o ecrã do telemóvel, incrédula.

Tentei ligar de novo, mas a chamada foi direta para o correio de voz.

Ele tinha-me bloqueado.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

A minha mãe olhou para mim, com os olhos cheios de lágrimas.

"Lia, querida..."

"Está tudo bem, mãe. Eu entendi."

Entendi tudo perfeitamente.

O meu casamento tinha acabado.

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