Nunca Mais Serei a Segunda Opção

O som de metal a torcer foi a última coisa que ouvi antes de tudo ficar escuro. Quando abri os olhos, o cheiro a queimado encheu o ar. O carro estava virado de lado, o para-brisas estilhaçado.

A minha perna. Estava presa. Uma dor aguda subia por ela, e eu vi o sangue a manchar as minhas calças de ganga.

"Mateus," chamei, a voz rouca. "Mateus, estás bem?"

Ele gemeu do banco do condutor. Conseguiu soltar o cinto e rastejar para fora pela janela partida.

"Estou bem," disse ele, a voz trémula. Ele olhou para mim, para a minha perna presa. Os seus olhos arregalaram-se.

"Ajuda-me," supliquei. "Não consigo sair."

Nesse momento, ouvimos outro grito.

"Mateus!"

Era a voz de Sofia. O carro dela tinha batido na traseira do nosso. Ela estava de pé na estrada, a segurar o braço. Tinha um pequeno arranhão.

Mateus olhou para mim, depois para ela. O seu rosto estava dividido pela indecisão por um segundo. Apenas um segundo.

Depois, ele correu. Correu para lá de mim. Correu para Sofia.

"Sofia, estás bem? Estás ferida?" Ele segurou-a, examinando o seu arranhão como se fosse uma ferida mortal.

"Acho que torci o pulso," choramingou ela, encostando a cabeça ao peito dele.

Eu fiquei a ver, presa no metal retorcido. A dor na minha perna era imensa, mas a dor no meu peito era pior. Ele nem sequer hesitou.

"Mateus!" gritei de novo, a minha voz a quebrar-se. "A minha perna!"

Ele olhou para mim por cima do ombro de Sofia, o seu rosto uma máscara de irritação.

"Espera aí, Clara! Não vês que a Sofia está em choque? Já chamo os bombeiros!"

Ele pegou no telemóvel e começou a ligar, uma mão sempre a confortar Sofia.

Eu desisti de chamar. Deitei a cabeça para trás contra o assento rasgado e fechei os olhos. As sirenes ao longe eram o som mais doce que alguma vez tinha ouvido.

Um bombeiro apareceu à janela. "Senhora, consegue ouvir-me? Vamos tirá-la daí."

Eu assenti, incapaz de falar.

Enquanto me cortavam para fora do carro, vi o Mateus a levar a Sofia para a ambulância que chegava. Ele ajudou-a a entrar, falando suavemente com ela. Nem sequer olhou na minha direção uma vez.

Naquele momento, deitada numa maca, a caminho do hospital, a decisão foi tomada.

O nosso casamento tinha acabado.

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