Noiva Abandonada, Vida Reconstruída

Cheguei ao hospital e perguntei na receção pelo quarto da Clara.

A enfermeira indicou-me o corredor, e eu caminhei até lá, o meu vestido de noiva a arrastar-se no chão polido.

Encontrei o quarto e parei à porta, a observar a cena lá dentro.

O Pedro estava sentado na beira da cama, a segurar a mão da Clara.

Ela tinha um pequeno corte na testa e um arranhão no braço, nada mais.

Não parecia uma mulher que tinha estado à beira da morte.

Ela estava a chorar suavemente, a olhar para ele com olhos adoradores.

"Pedro, eu sabia que virias. Eu estava com tanto medo. Pensei que ia morrer sozinha."

A voz dele era suave, cheia de uma ternura que ele raramente usava comigo.

"Shh, está tudo bem agora, Clara. Eu estou aqui. Não te vou deixar."

Ele inclinou-se e beijou-lhe a testa.

Aquele gesto, tão simples e tão íntimo, foi a confirmação de tudo.

A raiva que eu sentia desapareceu, substituída por um vazio frio e claro.

Entrei no quarto.

"Que cena comovente."

Os dois viraram-se bruscamente, os olhos arregalados de choque.

O Pedro levantou-se de um salto, o pânico no seu rosto.

"Ana! O que é que estás aqui a fazer?"

"Eu? Eu vim ver a mulher moribunda que roubou o meu noivo no dia do meu casamento. Mas parece que ela está a ter uma recuperação milagrosa."

A Clara encolheu-se na cama, a tentar parecer mais frágil.

"Ana, não é o que parece. Eu precisei dele."

"Claro que precisaste. Tu sempre precisas dele quando as coisas na minha vida estão a correr bem."

Virei-me para o Pedro, o meu olhar frio.

"Tu deixaste-me no altar. Deixaste a nossa família e os nossos amigos à espera, para vires aqui consolar esta mulher por causa de um arranhão."

"Não foi só um arranhão!", disse ele, a voz a subir. "Ela podia ter morrido! Tu não tens compaixão?"

"Compaixão?", ri sem humor. "Eu gastei toda a minha compaixão contigo e com ela nos últimos dois anos. Acabou. A minha paciência esgotou-se."

Tirei o anel de noivado do meu dedo.

Era pesado, uma mentira de ouro e diamantes.

Estendi-lho. "Pega. Podes dá-lo a ela. Talvez lhe sirva melhor."

Ele olhou para o anel, depois para mim, a confusão a lutar com a culpa no seu rosto.

"Ana, espera. Não faças isto. Nós podemos resolver."

"Resolver o quê, Pedro? Que tu vais sempre correr para ela? Que eu serei sempre a segunda opção? Não, obrigada. Eu mereço mais do que isso."

Joguei o anel para cima da cama. Atingiu a colcha com um som suave.

"Está acabado. Não me procures mais. Não me ligues. Apaga o meu número."

Virei-me para sair.

"Tu não podes fazer isto!", gritou ele atrás de mim. "Nós temos uma casa! Temos planos!"

Parei à porta e olhei para trás por cima do ombro.

"Tu tinhas planos, Pedro. Agora, tens a Clara. Espero que ela te faça feliz."

Saí do quarto e não olhei para trás.

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