Nem Uma Palavra Sobre Mim

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.

Um cheiro forte de desinfetante encheu o meu nariz, e uma dor surda vinha do meu braço direito, que estava firmemente enfaixado e pendurado numa tipóia.

A minha cabeça latejava. Fragmentos de memória voltaram lentamente.

O som de pneus a chiar no asfalto molhado.

O impacto violento.

O vidro a estilhaçar-se por todo o lado.

E a voz do meu marido, Pedro, ao telefone, segundos antes do acidente.

"Inês, eu não posso ir. A Cláudia precisa de mim. O gato dela, o Miau, foi atropelado, e ela está em pânico. Leva tu o carro à oficina."

Tentei mexer-me, mas uma dor aguda percorreu o meu corpo.

Olhei para o lado. A minha mãe estava a dormir numa cadeira, o seu rosto pálido e cansado.

Onde estava o Pedro?

Peguei no telemóvel com a minha mão esquerda. A bateria estava quase a acabar.

Vi dezenas de chamadas não atendidas dele. E uma mensagem de texto enviada há uma hora.

"Inês, onde estás? A Cláudia não para de chorar. O veterinário disse que o Miau pode não sobreviver à noite. Preciso de ficar aqui para a apoiar. Liga-me quando vires isto."

Nem uma única pergunta sobre mim. Sobre se eu estava bem. Se o carro estava arranjado.

Ri-me. Um som seco e amargo que arranhou a minha garganta.

Decidi ligar-lhe.

A chamada foi atendida quase instantaneamente.

A voz ansiosa do Pedro soou.

"Finalmente! Onde te meteste? Estou aqui no veterinário, a Cláudia está..."

"Pedro," interrompi-o, a minha voz surpreendentemente calma. "Eu tive um acidente de carro."

Houve um silêncio do outro lado. Por um segundo, pensei que a chamada tinha caído.

Depois, ouvi-o suspirar, um som de irritação.

"Um acidente? Estás bem? O carro ficou muito danificado? Sabes o quão caro é o seguro."

"O carro ficou destruído," respondi, ignorando a sua primeira pergunta. "E eu estou no hospital."

"Hospital? O que aconteceu? É grave?"

A sua preocupação soava forçada, tardia.

Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz chorosa da Cláudia ao fundo.

"Pedro, o veterinário quer falar connosco... Oh, desculpa, estás ao telefone?"

Depois, a voz dela ficou mais perto do microfone, como se ele lhe tivesse passado o telemóvel.

"Inês? Desculpa, a culpa é toda minha. Se eu não tivesse entrado em pânico por causa do Miau, nada disto teria acontecido. O Pedro está aqui a consolar-me. Ele tem sido um anjo."

Um anjo. O meu marido era um anjo para a minha melhor amiga.

Enquanto eu estava aqui, com ossos partidos, ele estava a segurar a mão dela por causa de um gato.

"Pedro," disse eu, a minha decisão tomada. "Vamos divorciar-nos."

A fúria dele explodiu através do telefone.

"Divórcio? Estás a brincar? Por causa disto? Eu não podia deixar a Cláudia sozinha, ela não tem mais ninguém! Estás a ser egoísta, Inês! Um pequeno acidente e já queres acabar com tudo?"

Um pequeno acidente.

A minha visão ficou turva.

"Pequeno acidente? Pedro, eu podia ter morrido."

"Mas não morreste, pois não? Para de ser dramática! A Cláudia precisa do meu apoio agora. Falamos quando voltares a ter juízo."

Ele desligou.

Olhei para o ecrã escuro do telemóvel.

Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.

Claro que estava.

A minha mãe mexeu-se na cadeira e abriu os olhos.

"Querida? O que se passa?"

"Nada, mãe. O Pedro estava só a ver como eu estava."

Menti. Menti para a proteger, e para me proteger a mim mesma da vergonha.

O meu marido escolheu o gato da minha melhor amiga em vez de mim.

Não havia como voltar atrás disto.

Capítulos
Personalizar
Próximo Capítulo

Você pode gostar

Logo
Seu guia para os melhores dramas curtos online. Prévias gratuitas, informações completas do elenco e links para plataformas oficiais — tudo em um só lugar.
©2026 PinesDramas Todos os direitos reservados