Não Voltes a Casa, Ricardo

O telefone tocou no meio da noite, um som agudo que cortou o silêncio do meu apartamento.

Era a minha mãe.

A voz dela estava embargada, quebrada pelo pânico.

"Sofia, é o teu pai."

O meu coração parou por um segundo.

"Ele teve um ataque cardíaco. A ambulância está a levá-lo para o hospital de Coimbra. É grave."

Coimbra ficava a duas horas de Lisboa. O ar saiu dos meus pulmões.

"Mãe, acalma-te. Eu estou a ir para aí."

Desliguei e disquei imediatamente o número de Ricardo. O meu namorado. O homem com quem eu vivia há cinco anos.

Caixa de correio.

Liguei de novo. E de novo. E de novo.

Na quinta tentativa, ele atendeu. A voz dele estava distante, abafada por música alta e conversas.

"Sofia? O que foi? Estou ocupado."

"Ricardo, o meu pai. Ele teve um ataque cardíaco. Está a caminho de Coimbra. Preciso que me leves, agora. O meu carro está na oficina."

Houve uma pausa. Ouvi uma voz feminina a rir perto dele. Clara. A "musa" dele.

"Agora? Amor, é impossível. Estou na inauguração da galeria do Mário. Isto é super importante para a minha carreira. Estão cá todos."

A voz dele era leve, irritada com a minha interrupção.

"Ricardo, não estás a perceber. É uma emergência. O meu pai pode morrer."

"Não sejas dramática, Sofia. Os hospitais sabem o que fazem. Pega um Uber ou um autocarro. A gente fala amanhã."

"Um autocarro? Ricardo, são duas da manhã!"

"Então um Uber. Tu tens dinheiro para isso. Olha, tenho de ir. O Mário está a chamar-me. Beijo."

Ele desligou.

Fiquei a olhar para o telemóvel, para o ecrã preto. O som da galeria, o riso de Clara, a frieza na voz dele. Tudo ecoava na minha cabeça.

Cinco anos. Cinco anos a apoiar a "arte" dele, a pagar as contas, a acreditar nas promessas.

E na noite em que eu mais precisei dele, a carreira dele e a companhia de outra mulher foram mais importantes.

Senti uma calma estranha apossar-se de mim. Uma clareza fria.

Abri a aplicação da Uber. A estimativa da viagem era de duzentos e cinquenta euros.

Confirmei sem hesitar.

Enquanto esperava, enviei-lhe uma mensagem.

"Não te preocupes em voltar para casa. Quando eu voltar, não quero encontrar-te aqui."

Não houve resposta.

O nosso relacionamento tinha acabado. Eu só não sabia disso até àquele momento.

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