Não Sou Mais Sua Opção

Quando abri os olhos, o cheiro forte de desinfetante invadiu as minhas narinas, e a luz branca do teto do hospital feria a minha vista.

A minha cabeça doía terrivelmente, e a memória do acidente de carro era um borrão confuso de metal a torcer-se e do som de vidro a estilhaçar-se.

Ao meu lado, a minha mãe, Sofia, dormia numa cadeira, com o rosto pálido e marcado pela preocupação.

Tentei mexer-me, mas uma dor aguda atravessou a minha perna direita, que estava imobilizada com gesso.

O meu telemóvel estava na mesinha de cabeceira, com o ecrã rachado. Com dificuldade, agarrei-o e liguei para o meu noivo, Miguel.

O telefone chamou, chamou, e quando eu já estava a perder a esperança, ele atendeu. A sua voz soava distante e irritada, abafada por música alta e risos.

"Helena? O que foi? Estou ocupado agora."

A sua falta de preocupação atingiu-me.

"Miguel, eu sofri um acidente. Estou no Hospital de Santa Maria."

Houve uma pausa do outro lado da linha.

"Um acidente? Estás bem? É grave?"

Antes que eu pudesse responder, ouvi uma voz feminina ao fundo, uma voz que eu conhecia demasiado bem. Era a Clara, a minha prima.

"Miguelito, amor, quem é? Anda dançar! Deixa o telemóvel."

O meu coração parou por um segundo. Miguelito? Amor?

"Miguel, a Clara está contigo?" perguntei, a minha voz a tremer.

Ele hesitou. "Sim, estamos numa festa. O pai dela, o meu tio, está a celebrar a promoção. Eu tinha de vir, é importante para a família."

"Uma festa," repeti, a palavra soava absurda. "Eu sofri um acidente de carro, estou num hospital, e tu estás numa festa com a minha prima?"

A sua voz tornou-se defensiva, mais alta.

"Helena, o que querias que eu fizesse? A festa já estava marcada! Além disso, a Clara estava muito ansiosa com a apresentação do pai dela, precisava de apoio. Tu sabes como ela é sensível."

Sensível? E eu? Eu estava com uma perna partida e possivelmente uma concussão.

"Eu preciso de ti aqui," disse eu, a minha voz a falhar.

"Não sejas dramática," ele respondeu bruscamente. "Já estás no hospital, os médicos estão a cuidar de ti. Eu vou aí amanhã de manhã. Agora tenho de ir, o tio vai fazer o discurso."

E desligou.

Simplesmente desligou o telefone na minha cara.

Olhei para o ecrã rachado do meu telemóvel. Tentei ligar de volta, mas a chamada foi direta para o correio de voz. Ele tinha-me bloqueado.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios, tão alta que a minha mãe acordou sobressaltada.

"Filha? O que se passa? Estás com dores?"

Eu abanei a cabeça, incapaz de falar. As lágrimas que eu tinha segurado começaram a rolar pelo meu rosto.

O Miguel e eu estávamos noivos há seis meses. O casamento estava marcado para dali a dois meses.

Eu amava-o, ou pelo menos pensava que sim. Mas agora, tudo parecia uma mentira.

Ele escolheu a festa. Ele escolheu a Clara.

Ele não me escolheu a mim.

Enquanto a minha mãe me tentava acalmar, o seu próprio telemóvel começou a tocar. O nome no ecrã fez o meu sangue gelar.

Era o meu tio, o pai da Clara.

A minha mãe atendeu, colocando em alta-voz para que eu pudesse ouvir.

A voz do meu tio, normalmente tão jovial, soava agora fria e autoritária.

"Sofia! Onde está a tua educação? Porque é que a Helena está a ligar para o Miguel a fazer este drama todo? Ela não percebe que hoje é uma noite importante para a nossa família?"

"Rui, ela sofreu um acidente de carro! Está no hospital!" respondeu a minha mãe, chocada.

"Um acidente? E então? Ela não morreu, pois não? A Clara ficou tão nervosa com o telefonema que quase estragou a noite toda! Tens de ensinar a tua filha a não ser tão egoísta!"

Egoísta.

Eu era egoísta por precisar do meu noivo depois de um acidente de carro.

Naquele momento, deitada naquela cama de hospital, com uma perna partida e um coração em pedaços, eu tomei uma decisão.

Este noivado acabou.

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