Não Me Procures: O Recomeço Impiedoso

Quando abri os olhos, o cheiro forte de desinfetante invadiu as minhas narinas. O meu marido, Pedro, estava sentado ao meu lado, segurando a minha mão com força.

O rosto dele estava pálido, os seus olhos vermelhos e inchados.

"Eva, estás acordada? Como te sentes?"

A sua voz estava rouca, cheia de preocupação.

Tentei falar, mas a minha garganta estava seca e doía. Apenas consegui emitir um som fraco.

"Graças a Deus, estás bem," disse ele, com a voz embargada. "Fiquei com tanto medo."

A memória voltou como um flash. O carro a derrapar na estrada molhada, o som ensurdecedor do metal a torcer-se, e depois a escuridão.

O nosso filho, Leo. Onde estava o Leo?

O pânico apoderou-se de mim. Tentei sentar-me, mas uma dor aguda atravessou o meu corpo.

"Onde está o Leo? Pedro, onde está o nosso filho?"

A expressão de Pedro mudou. A preocupação deu lugar a uma dor profunda, uma dor que eu conhecia demasiado bem.

"Eva, acalma-te. O médico disse que precisas de descansar."

"Não! Eu quero ver o meu filho! Onde ele está?" A minha voz soava desesperada, quase um grito.

Pedro desviou o olhar, incapaz de me encarar. As lágrimas que ele estava a segurar começaram a cair.

"Eva... o Leo... ele não sobreviveu."

O mundo parou. O som do monitor cardíaco ao meu lado tornou-se um zumbido distante. O cheiro de desinfetante desapareceu. Tudo o que restava era um vazio frio e avassalador.

Não. Não podia ser verdade.

"Estás a mentir," sussurrei, abanando a cabeça. "Ele estava bem. Ele estava a rir no carro."

"O acidente... foi muito grave. Os médicos tentaram de tudo, mas..."

Ele não conseguiu terminar a frase. Soluçava abertamente, o seu corpo tremia com a dor.

Eu não chorei. Senti-me oca por dentro. Era como se todas as minhas emoções tivessem sido arrancadas de mim no momento do impacto.

A porta do quarto abriu-se e a minha sogra, a Sra. Helena, entrou. O seu rosto estava marcado pela dor, mas os seus olhos continham uma frieza que me gelou até aos ossos.

"Pedro, a Bia precisa de ti. Ela não para de chorar. Ela viu as notícias."

A Bia. A filha da minha cunhada, a irmã do Pedro.

Pedro olhou para mim, hesitante.

"Mãe, a Eva acabou de acordar..."

"E então? O Leo já se foi. Não há nada que possas fazer aqui. Mas a Bia está viva. Ela precisa do tio dela."

As suas palavras foram diretas, sem qualquer pingo de compaixão.

Eu olhei para o Pedro, esperando que ele ficasse, que me defendesse. Mas ele apenas baixou a cabeça.

"Eu volto já, Eva. Tenta descansar."

Ele soltou a minha mão e saiu com a mãe dele.

Fiquei sozinha no quarto silencioso, a encarar o teto branco. A realidade começou a instalar-se, peça por peça. O meu filho estava morto. E o meu marido tinha-me deixado para consolar a sua sobrinha.

Naquele momento, algo dentro de mim quebrou-se. O amor, a esperança, a fé que eu tinha na nossa família... tudo se desfez em pó.

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