Não Mais Uma Mulher Negligenciada

No dia seguinte, fui a um advogado.

Ele explicou-me os procedimentos para um divórcio litigioso, já que o Pedro se recusava a cooperar.

"Sendo que estão casados em comunhão de adquiridos e a casa foi comprada depois do casamento, terá direito a metade", disse o advogado, um homem de meia-idade com um olhar cansado.

"Eu não quero a casa", disse eu, "Só quero a custódia total do meu filho e uma pensão de alimentos justa."

O advogado ergueu as sobrancelhas.

"Tem a certeza? É um bem valioso."

"Tenho a certeza. Não quero nada que me ligue a ele, exceto o nosso filho."

Saí do escritório com uma pilha de papéis e uma estranha sensação de alívio.

Passei o resto do dia a tratar da alta da Lia e a levá-la para o meu pequeno apartamento, o mesmo onde eu vivia antes de casar.

"Ana, tens a certeza disto?", perguntou a Lia, deitada no sofá com uma almofada a apoiar o abdómen. "Divorciar-se agora... com o bebé quase a nascer?"

"Tenho mais certezas do que nunca, Lia."

O meu telemóvel tocou. Era a minha sogra, a Helena. Atendi, preparando-me para o confronto.

"Ana! O que é esta história de divórcio? O Pedro disse-me que perdeste a cabeça!", a sua voz era estridente.

"Não perdi a cabeça, Helena. Apenas ganhei juízo."

"Como te atreves a falar assim comigo? Depois de tudo o que fizemos por ti! Demos-te uma casa, um marido, uma família! E é assim que retribuis? Por causa de um pequeno mal-entendido?"

"Um pequeno mal-entendido?", ri sem humor, "Ele deixou-me sozinha no hospital com a minha irmã para cuidar da ex-namorada. Se acha isso pouco, então não temos mais nada a conversar."

"A Sofia é uma rapariga tão frágil! O Pedro tem um bom coração, só estava a ajudar! Tu, como mulher dele, devias apoiá-lo, não ser ciumenta e mesquinha!"

A raiva subiu-me pela garganta.

"Eu estou grávida de nove meses do vosso neto. Se isso não é suficiente para merecer a lealdade do meu marido, então este casamento não vale nada."

Desliguei o telefone antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.

A Lia olhava para mim com os olhos arregalados.

"Uau. Nunca te vi assim."

"Eu também nunca me vi assim", admiti, sentindo o meu coração a bater depressa. "Mas acabou. Não volto atrás."

Naquela noite, o Pedro apareceu no meu apartamento. Ele não bateu, usou a chave que ainda tinha.

A sua cara estava vermelha de fúria.

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