Não Mais a Vítima

No hospital, o mundo era branco e cheirava a desinfetante.

A cara do médico era séria. As suas palavras eram diretas, sem rodeios.

"Lamento, Sofia. O trauma do acidente foi demasiado forte. O seu corpo entrou em trabalho de parto prematuro. Perdemos o bebé."

Eu não chorei. As lágrimas não vinham. Apenas um vazio imenso, frio, instalou-se no meu peito.

A minha mãe, Helena, chegou pouco depois. Os seus olhos estavam vermelhos. Ela abraçou-me, e o seu corpo tremia com soluços silenciosos.

Eu continuei a olhar para a parede branca.

Horas mais tarde, Marcos apareceu.

Ele não veio sozinho. Lúcia estava com ele, com um pequeno penso na testa. Ao lado deles, estava o pai dela, Ricardo, o mentor e chefe de Marcos.

A cara de Marcos era uma máscara de irritação.

"Sofia, que raio de drama foi este? Chamar uma segunda ambulância? Fizeste uma cena!"

A minha mãe levantou-se. "Uma cena? A tua mulher perdeu o vosso filho, Marcos! Onde é que tu estavas?"

"Eu estava a ajudar a Lúcia! Ela estava em choque, magoada!"

Lúcia começou a chorar. "A culpa é minha. Eu não devia ter vindo convosco. Sofia, desculpa..."

Ricardo pôs um braço protetor à volta dos ombros da filha.

"Não peças desculpa, querida. Não foi culpa tua. Sofia, tens de entender. Marcos fez o que qualquer pessoa decente faria, ajudou quem precisava mais."

Quem precisava mais? Um arranhão na testa contra uma hemorragia que me roubou o meu filho?

Olhei para Marcos. Pela primeira vez, vi-o com clareza. Não o homem com quem casei, mas um estranho.

"O bebé morreu, Marcos." A minha voz estava morta, sem emoção.

Ele vacilou por um segundo. Apenas um segundo.

Depois, a sua cara endureceu de novo. "Eu sei. É uma tragédia. Mas acidentes acontecem. Tu estavas a conduzir depressa demais."

A culpa. Ele estava a colocar a culpa em mim.

"Saiam." Eu disse, a minha voz baixa mas firme.

"Sofia..." começou Marcos.

"Eu disse para saírem. Todos vocês. Fora do meu quarto."

A minha mãe ficou ao meu lado, uma leoa a proteger a sua cria.

Ricardo olhou para mim com desprezo. "Vamos embora. Ela está histérica. Quando te acalmares e fores razoável, falamos."

Eles saíram. Marcos nem sequer olhou para trás.

Fechei os olhos. O vazio no meu peito tinha agora um nome. Chamava-se liberdade.

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