Não Havia Como Voltar Atrás: A Virada de Clara

Miguel chegou a casa perto da meia-noite, entrou de mansinho, como se não quisesse acordar ninguém.

Mas eu estava à espera, sentada no sofá da sala escura.

Acendi a luz do candeeiro de pé, e ele sobressaltou-se.

"Clara? Ainda estás acordada?"

Ele parecia cansado, os ombros descaídos. Trazia na mão um pequeno dinossauro de plástico. Provavelmente comprado na loja de conveniência do hospital.

"Isto é para a Luna," disse ele, pousando o brinquedo na mesa de centro. "Para pedir desculpa."

"Um dinossauro não apaga o dia de hoje, Miguel."

Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado.

"Eu já te expliquei. Foi uma emergência. O miúdo podia ter tido uma concussão."

"E a tua filha fez cinco anos. Uma vez na vida. Isso não conta como uma emergência familiar?"

Ele atirou as chaves para cima de uma taça, o som metálico a ecoar no silêncio.

"Estás a ser injusta. A Sofia é viúva, está a criar um filho sozinha. Precisa de apoio. Nós somos uma família, temos um ao outro. Ela não tem ninguém."

"Ela tem-te a ti, pelos vistos. Mais do que nós."

A minha voz era baixa, mas cada palavra pesava.

Ele aproximou-se, a sua expressão mudou de cansaço para irritação.

"O que é que isso quer dizer? Estás a insinuar alguma coisa?"

"Não estou a insinuar nada, Miguel. Estou a afirmar. As tuas prioridades estão erradas. A tua família devia vir primeiro. Não a família de outra pessoa."

Ele riu, um riso sem humor.

"Família? A Sofia é como família. Conhecemo-nos desde miúdos. O marido dela era o meu melhor amigo. Eu prometi-lhe que cuidaria dela e do Leo."

"Cuidar não é abandonar a tua própria filha no aniversário dela."

"Eu não a abandonei! Pára de ser tão egoísta, Clara! Não tens um pingo de compaixão?"

As palavras dele eram um murro. Egoísta. Eu, que planeei a festa sozinha, que consolei a nossa filha sozinha, que limpei tudo sozinha.

"Não," respondi, a voz a tremer ligeiramente. "Acho que a minha compaixão esgotou-se hoje."

"Isso é ridículo. Estás a exagerar por causa de uma festa de aniversário falhada."

"Não é pela festa. É pelo padrão. É sempre a Sofia. A Sofia precisa disto, o Leo precisa daquilo. E nós, Miguel? O que é que nós precisamos?"

Ele ficou em silêncio, a olhar para mim como se eu fosse uma estranha.

"Eu preciso de um marido," disse eu, a preencher o vazio. "E a Luna precisa de um pai. E tu não estás a ser nenhum dos dois."

Virei-lhe as costas e fui para o quarto. Não para o nosso. Para o quarto de hóspedes.

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