Morri Três Vezes, Suas Ligações Sem Resposta

O Scorpius Lounge era mal iluminado, todo de veludo e cromo reluzente.

Clara, no braço de Marcos, era a abelha rainha, cercada por suas "amigas" risonhas e bajuladoras.

Encontrei uma pequena mesa em um canto sombrio, tomando um refrigerante.

Eu observava Marcos.

Ele pediu o mocktail favorito de Clara – uma mistura complicada com flor de sabugueiro e lichia.

Ele colocou seu paletó caro sobre os ombros dela quando ela fingiu sentir um calafrio no ar-condicionado.

Mais tarde, ele anunciou ao grupo: "A Clara está se divertindo, então as bebidas são por minha conta hoje."

Um coro de "uau" e "ah".

"Marcos, você está mimando ela!" uma das amigas de Clara elogiou.

Ele sorriu, um braço possessivo em volta da cintura de Clara.

Alguém mais disse: "Clara, você e o Marcos são tão perfeitos! Quando é o grande dia?"

Clara corou, uma imagem de felicidade recatada.

Marcos olhou para mim, apenas por um segundo. Meu rosto estava cuidadosamente neutro.

Então ele sorriu para Clara. "Em breve. Já estamos planejando."

A conversa fluiu ao redor deles, um rio de bajulação e excitação.

Então, alguém sugeriu um jogo. "Verdade ou Desafio, mas com um toque de 'revelação de celular'."

Tentei recusar, mas Clara, com uma insistência açucarada, me puxou para o círculo. "Ah, vamos, Elisa, não seja estraga-prazeres!"

Marcos perdeu uma rodada.

A prenda, lida com alegria por uma das amigas de Clara: "Beije seu parceiro apaixonadamente por um minuto."

Marcos não hesitou. Ele se virou para Clara, segurou seu rosto e a beijou.

Profundamente.

O grupo aplaudiu, assobiou.

Eu assisti, sentindo nada além de um leve e distante desgosto. A Elisa que teria ficado arrasada com tal cena já não existia mais.

Então, inevitavelmente, foi a minha vez de perder.

A prenda: "Mostre sua conversa de texto mais recente."

Uma onda de antecipação percorreu o grupo.

Peguei meu celular, minha expressão calma.

Abri minhas mensagens.

A conversa no topo: "Meu Davi " seguida por uma série de emojis de coração.

Alguém ofegou. "Elisa, você tem um 'Davi'? Com corações? Você está namorando sério?"

Eu sorri, um sorriso genuíno e caloroso.

"Sim. Vamos nos casar no mês que vem. Em Florença. Todos vocês estão convidados, se puderem ir!"

Guardei meu celular, meu olhar encontrando o de Marcos.

Seus olhos estavam escuros, indecifráveis. Um músculo se contraiu em sua mandíbula.

Mais tarde, pedi licença para ir ao banheiro.

Marcos estava esperando no corredor quando saí.

Ele bloqueou meu caminho.

"Que história é essa de se casar?" Sua voz era baixa, intensa. "É mais um dos seus joguinhos, Elisa?"

"Não é um jogo, Marcos." Mantive minha voz firme. "Eu voltei para visitar o memorial da mamãe e do papai, e para te convidar. Ficaria honrada se você me levasse ao altar, como meu tutor, para testemunhar minha felicidade com o Davi."

Seu rosto se contraiu. Raiva, incredulidade, algo mais que eu não conseguia nomear.

"Tudo bem", ele disse, a voz tensa de emoção contida. "Ligue para esse 'Davi' agora mesmo. Quero ouvir dele."

Peguei meu celular. Disquei.

Caiu na caixa postal.

"É madrugada em Florença", expliquei. "Ele provavelmente está dormindo."

Marcos zombou, um som áspero e desdenhoso. "Patético. Pare com essas mentiras ridículas, Elisa."

Ele se virou e foi embora.

Naquele exato momento, meu celular vibrou. Davi. Retornando a ligação.

Ele parecia sonolento. "Desculpa, meu girassol, estava dormindo. O que foi?"

Suspirei. Marcos já tinha ido. "Nada, meu bem. Desculpa te acordar. Volte a dormir."

"Você sabe que pode me ligar a qualquer hora", disse Davi, sua voz mais clara agora, mais desperta.

"Ah, a propósito, eu estava pensando naquela escultura que você desenhou anos atrás, a que você chamou de 'Flor do Deserto'. Aquela que você sempre disse que era para o dia do seu casamento. Você vai trazê-la para Florença? Ficaria incrível na cerimônia."

'Flor do Deserto'.

Eu tinha derramado meu coração de dezoito anos naquela escultura.

Um coração que, tolamente, batia por Marcos.

Hesitei por uma fração de segundo.

"Sim", eu disse. "Ok. Eu vou levá-la."

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