Minha Dor Não É Capricho: O Divórcio

Quando abri os olhos, a luz branca do hospital ofuscou-me. A minha cabeça doía, um zumbido constante nos meus ouvidos.

A enfermeira viu que eu estava acordada e aproximou-se.

"Senhora Alves, o seu marido esteve aqui. Ele disse que tinha um assunto urgente para resolver e pediu-nos para a contactar assim que acordasse."

O meu marido, Leo.

Tentei sentar-me, mas uma dor aguda atravessou o meu corpo. Olhei para baixo. A minha barriga, antes redonda, estava agora coberta por um lençol branco e plano.

O bebé. O nosso bebé tinha-se ido.

Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer. Havia dezenas de chamadas não atendidas dele, todas de quando eu estava inconsciente.

Liguei-lhe de volta. Ele atendeu quase instantaneamente.

"Catarina? Graças a Deus, estás acordada! Como te sentes?"

A sua voz soava ansiosa, mas havia algo mais por baixo, uma tensão que eu não conseguia identificar.

"Leo, onde estás?", perguntei, a minha voz rouca. "O nosso bebé..."

"Eu sei, meu amor. Eu sei. Sinto muito."

Fez-se silêncio.

"Tive de ir. A Sofia... ela tentou suicidar-se. Está no Hospital da Luz, no mesmo andar que tu, mas na outra ala."

Sofia. A sua ex-namorada.

A mulher que ele me jurou que já não significava nada.

"Ela está bem?", perguntei, a minha voz desprovida de emoção.

"Os médicos salvaram-na. Ela tomou comprimidos. O pai dela ligou-me, desesperado. Eu era a única pessoa a quem ela queria falar. Tive de ir, Catarina. Percebes, não percebes?"

Não, eu não percebia.

O nosso filho tinha acabado de morrer. Eu tinha acabado de passar por uma cirurgia de emergência. E ele estava com a sua ex-namorada.

"Leo, eu quero o divórcio."

As palavras saíram antes que eu pudesse pensar. Eram frias e definitivas.

Houve um longo silêncio do outro lado. Depois, a sua voz voltou, cheia de raiva contida.

"Divórcio? Estás a falar a sério? O nosso filho acabou de morrer e tu estás a falar em divórcio? O que se passa contigo, Catarina? Não tens coração?"

"O meu coração?", repeti, uma risada amarga a escapar dos meus lábios. "O meu coração estava aqui, contigo e com o nosso bebé. Onde estava o teu?"

"Eu estava a salvar uma vida! O que querias que eu fizesse? Deixá-la morrer?"

"Ela tem família, Leo. Eu não tinha ninguém. Eu estava sozinha."

"Eu não te deixei sozinha! Eu estive aí! Falei com os médicos, certifiquei-me de que estavas estável. Mas a Sofia... ela não tem ninguém que a compreenda como eu."

"Parece que ela tem a ti. Então fica com ela."

Desliguei.

O meu corpo tremia incontrolavelmente. Olhei para a janela. A cidade lá fora continuava a sua vida, indiferente à minha dor.

O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem dele.

"Não sejas ridícula. Estás em choque. Vamos falar quando estiveres mais calma. A Sofia precisa de mim agora. Sê compreensiva."

Bloqueei o número dele.

Eu não estava em choque. Pela primeira vez em muito tempo, via tudo com uma clareza dolorosa.

O nosso bebé, que tínhamos esperado durante dois anos, tinha-se ido. A única coisa que me ligava a Leo, a esperança de uma família, tinha desaparecido.

Ele disse que a Sofia estava na outra ala. Ele podia ter vindo ver-me. Podia ter ficado comigo por cinco minutos.

Mas não o fez.

Ele escolheu-a.

A porta do quarto abriu-se e a minha mãe entrou, os seus olhos vermelhos e inchados. Ela correu para o meu lado e abraçou-me.

"Minha filha, minha querida filha."

Comecei a chorar nos seus braços, um choro silencioso e convulsivo que abalava todo o meu corpo.

"Mãe", sussurrei. "Acabou."

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