Minha cura

ALGUNS DIAS ANTES

Meu despertador começa a tocar e desligo, já me

levantando e me esticando toda.

Hoje tenho uma sessão de fotos de um bebê e

preciso chegar cedo ao parque para ver se arranjo

um local calmo e tranquilo. Lavo meu rosto e me

sinto extremamente cansada. Meu corpo está

dolorido e percebo que faz tempo que estou nesse

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cansaço excessivo. Coloco minha roupa e percebo

alguns hematomas na perna e barriga. Não me

lembro de ter batido em nenhum lugar.

Coloco minhas sapatilhas e amarro meu cabelo.

Observo-me no espelho.

estou abatida e com cara de doente. Isso não é bom.

Meu casamento será em 2 meses e meio e não

posso adoecer agora.

Respiro fundo e sigo para a cozinha, tomar meu

café da manhã.

Assim que entro na cozinha, vejo minha mãe

sentada tomando seu café como sempre.

Me aproximo com cuidado e abraço ela, dando um

beijo em seu rosto.

- Bom dia, mãe!

- Bom dia, Larissa!

Sorri e me olha.

- Você anda abatida.

- Eu sei.

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- Você esteve doente muitas vezes em pouco

tempo.

A encaro rindo.

- Foram gripes.

- Você trabalha demais. Acho bom fazer uma

bateria de exames antes do casamento.

- Estou bem!

Sento-me e começo a me servir.

- Temos essa semana para à prova final do seu

vestido.

- Sim...

Digo empolgada.

Estou empolgada e muito feliz com meu casamento

com José.

Estamos juntos há três anos e acho que seremos

muito felizes.

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Abrimos o Studio de fotografia juntos e estamos

planejando fazer um curso em Londres ano que

vem. Ficaremos seis meses por lá.

- José já verificou fotógrafo para o casamento?

Começo a rir e sei que ela vai odiar a minha ideia.

- Nós vamos nos fotografar.

Ergue uma sobrancelha me olhando.

- Isso não vai dar certo. E durante a cerimônia?

- Self ?!?!?!?

Ela começa a rir.

- Não vou discutir. O casamento é de vocês.

- O papai já disse quando chega?

Posso vê-la ficar triste. Meus pais se separaram

quando eu tinha doze anos, mas ainda é nítido que

se amam.

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Apenas não aceitam as diferenças. Só espero não

ser assim com José.

- Ele vai tirar férias e chegará daqui trinta dias.

- Certo!

Me levanto e beijo sua testa.

- Só vai comer isso?

- Estou sem fome.

- Por isso fica doente tantas vezes.

Pego minha mochila e minha mala com os meus

equipamentos.

Fujo do sermão dela e corro para fora de casa.

Coloco minhas coisas no baú da moto e coloco meu

capacete.

Subo na moto e assim que a ligo, escuto seu ronco.

Amo a liberdade sobre duas rodas e como o vento

batendo em meu corpo me deixa eufórica. Sigo

para o parque, percorrendo sem problema as ruas

de Campinas.

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Assim que chego, observo o local tentando achar

algum espaço bonito e calmo.

Lucas tem apenas um ano e será seu primeiro

ensaio.

Acho em um canto uma árvore perfeita e ao lado

algumas flores encantadoras.

Arrumo meu material e coloco as coisas que vou

precisar no chão sobre uma toalha.

Arrumo minha lente e vejo os pais chegarem com

meu pequeno Lucas. Ele está tão lindo e sorridente.

- Bom dia, Larissa!

- Bom dia, Suzana e Nuno.

Me aproximo do meu pequeno modelo.

- Bom dia meu pequeno.

Ele sorri com a mão na boca.

Pego ele no colo e sigo para o cantinho que arrumei

para a sessão.

O coloco no chão e entrego alguns brinquedos.

- Quero esse lindo sorriso para mim, em Lucas.

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Faça a titia Larissa feliz.

Me afasto e começo tirar fotos.

Após duas horas em um momento fofura extremo,

Lucas começa a chorar e sei que está cansado,

assim como eu.

- Acho que o material que tenho já está bom.

Digo aos pais olhando algumas fotos na máquina.

- Quanto tempo até tudo ficar pronto?

Suzana pergunta abraçando o filho.

- Duas semanas o material estará em suas mãos.

- Maravilha!

Eles vão embora e começo a recolher minhas

coisas. Quando coloco minha mala nas costas, tudo

começa a rodar e não vejo mais nada.

*************

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Escuto um choro angustiante e abro meus olhos

assustada.

Estou deitada e sinto uma dor em meu braço.

Observo em volta e vejo que estou em um quarto

de hospital e tem um acesso em meu braço.

- Larissa...

Minha mãe sai do canto do quarto vindo em minha

direção.

Posso ver em seu rosto que estava chorando.

- O que aconteceu?

- Você desmaiou.

Passa a mão em meu rosto.

- Por que esta chorando?

Começa a chorar ainda mais e a porta se abre. Um

médico de idade avançada entra.

- Olá, Larissa!

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- Olá!

- Sou o Dr. Ferreira.

Se aproxima e me olha com dó. Não gosto quando

me olham assim. A última pessoa que me olhou

assim foi meu pai, avisando que estava se

separando da minha mãe.

- Me diz logo o que tenho.

Minha mãe pega a minha mão e aperta firme.

- Os exames apontaram leucemia.

Encaro seu rosto ainda sem saber se ouvi direito.

- Não pode ser.

- Os exames são 100% seguros.

Fecho meus olhos sentindo meu peito doer. Minhas

lágrimas começam a cair pelo meu rosto e minha

mãe as limpa com carinho. Não posso estar com

leucemia. Vou me casar em pouco tempo e não

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posso estar doente.

- Os exames que fizemos não apontam o tipo de

leucemia e nem como esta o seu quadro clínico.

Abro meus olhos encarando o médico.

- Não sabe então me dizer quanto tempo tenho de

vida?

- Não fala assim filha.

Respiro fundo tentando controlar o choro.

- Quando faço os exames?

- Vou encaminhar vocês para o hospital de São

Paulo. Eles possuem uma Ala própria para esse tipo

de doença.

- Vou precisar de transplante de medula?

- Larissa tudo vai depender dos seus exames e do

diagnóstico. Seu médico avaliará seus exames e

seguirá para o melhor tratamento.

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A porta se abre e vejo José. Ele vem em minha

direção e seus olhos preocupados acabam comigo.

Como vou dizer a ele que tenho uma doença

extremamente dolorosa e que posso não

sobreviver?

- Como você esta?

Segura meu rosto me olhando.

- Vou ficar bem.

Sussurro sentindo meu peito apertado. Minha mãe

suspira e vem na direção dele.

- Vamos conversar lá fora.

Pega o braço dele e o puxa para fora. O médico

tenta explicar como fará meu encaminhamento para

o hospital de São Paulo. Não consigo ouvir nada.

Só penso em como será meus dias e como vou

fazer meu tratamento durante o casamento. Vou

perder meu cabelo se for fazer quimioterapia e

minha vida vai acabar.

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Fecho meus olhos angustiada com meu futuro. O

médico vendo meu sofrimento, diz que conversará

com a minha mãe e se retira.

Alguns segundos depois, escuto passos e

permaneço de olhos fechados.

O toque em minha mão já me diz que é José. Abro

meus olhos e o vejo perdido.

- Como vamos fazer?

Pergunta com a voz baixa, assustado.

- Suspende o casamento.

- Tem certeza?

Confirmo com a cabeça.

- Não quero me casar doente. Não quero carregar

esse peso para a nossa vida de casados.

Suspira e imagino que esteja aliviado. Sinto um

aperto em meu coração.

Não era essa a reação que esperava dele, mas

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ignoro a sensação de alivio que sentiu.

" O que você queria Larissa? Que ele te abraçasse e

dissesse que não importa a doença, que ainda vai te

amar e querer se casar. "

Ignoro minha irritação e permaneço em silêncio.

- Vou para o Studio terminar algumas coisas.

- Certo!

Ele beija minha testa e sai me deixando na sensação

de abandono.

*******************

TEMPO ATUAL

O cansaço aumentou e José se afastou. liga para

perguntar como estou e diz que está na correria no

Studio.

Encaro a janela do meu quarto, sentada em minha

cama.

- Você precisa ser forte.

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Minha mãe diz entrando em meu quarto. Vejo

minha mala em sua mão.

- José vai nos levar para São Paulo.

- Ele resolveu aparecer?

Ela respira fundo e se aproxima.

- Não esta sendo fácil para ele, Larissa.

Minha mãe sempre foi defensora de José. Até em

nossas brigas ela o defendia.

Não quero brigar. Na verdade minha vontade era de

permanecer aqui sentada, esperando tudo isso

acabar.

Sem querer discutir, me levanto, sigo para fora do

meu quarto e minha mãe me segue.

Saio de casa e vejo José esperando fora do carro.

Me abraça e beija minha testa.

- Vai dar tudo certo.

Sussurra e sem dizer nada, entro no carro.

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****************

A viagem foi cansativa e meu corpo todo dói.

Dormi uma boa parte da viagem, mas ainda tenho

sono.

Chegando ao hospital, somos recebidos pela Dra.

Lins. Uma médica loira, um pouco alta e bem

conservada. Deve ter entre 45 a 50 anos. Ela faz a

minha internação para os exames e diz que

dependendo da resposta deles, vai analisar se a

internação será definitiva para tratamento aqui ou

encaminhado a outro hospital.

Sou encaminhada para um quarto e durante o

caminho, vejo crianças e adultos em estágios

avançados de câncer sofrendo. Meu coração aperta

e me imagino aqui como eles, lutando para

sobreviver.

Entro em meu quarto e em segundos enfermeiros

entram fazendo os exames complementares de

sangue.

- Larissa vamos te encaminhar para o exame da

medula óssea.

Sem questionar, apenas sigo as orientações e

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aguardo os procedimentos.

*******************

Estou deitada e esgotada. Meu corpo todo está

doendo e não consigo ficar com os olhos abertos.

- Vamos deixar você descansar.

Minha mãe diz, beijando minha testa. Abro um

olho e vejo José me encarando.

- Volta pra Campinas. Alguém precisa cuidar do

Studio.

Ele suspira e se aproxima.

- Não vai precisar de mim?

- Não. Entregue o material do Lucas que esta na

minha casa pronto.

Talvez o pequeno Lucas tenha sido meu último

trabalho.

José quer desesperadamente fugir daqui, posso ver

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em seus olhos.

Beija minha testa e sai com a minha mãe. Posso

ouvir os dois conversando e cada palavra dita por

ele, quebra meu coração em pedaços. Já não

aguentando mais a dor do corpo e a dor do coração,

me entrego ao cansaço e tento dormir. Sinto alguém

me observando.

- Srta. Martins.

Uma voz grossa ecoa em meu ouvido e imagino ser

mais um médico.

Minha vida será assim agora. Médicos e

enfermeiras para todo lado.

Tento abrir os olhos, mas a claridade não me deixa

mantê-los aberto.

Assim que abro ele todo, vejo um jovem médico.

Jovem demais para ser tão importante neste

hospital.

Ele tem cabelos negros, pele branquinha e lindos

olhos verdes. Um belo homem. Alto e de porte

atlético.

- Oi!

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Digo o encarando.

- Oi!

Esta me olhando de um jeito diferente. Não com

dó. Parece admiração e carinho.

Me pego sorrindo como uma boba por não sentir

pena em seus olhos. Isso me deixa feliz.

- Sabe meu nome, mas ainda não sei o seu.

- Enzo... Enzo Aguiar seu médico.

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