Meu Último Desejo: A Traição do Meu Noivo

Ponto de Vista: Joana Dantas

Kaila tinha feito isso. Ela pegou minha tese, aquela que Arthur lhe dera, e a postou no fórum online da universidade, reivindicando-a como sua. Ela foi tão descarada, tão confiante em sua capacidade de manipular todos ao seu redor.

Meu antigo mentor, o Professor Alencar, um arquiteto brilhante, mas notoriamente meticuloso, foi o primeiro a notar. Ele sempre viu algo em mim, uma centelha de talento que minha família tentava implacavelmente extinguir. Ele apoiou meus projetos, elogiou minha visão única e até me ofereceu uma vaga cobiçada em seu laboratório de pesquisa avançada. Foi ele quem gentilmente sugeriu que meu trabalho era complexo demais, original demais, para o estilo usual de Kaila.

Quando a tese apareceu sob o nome de Kaila, ele ficou desconfiado. Começou a fazer perguntas a ela, aprofundando-se nos detalhes intrincados do projeto, nos referenciais teóricos. Kaila, previsivelmente, tropeçou. Ela não conseguia explicar as nuances, não conseguia defender a abordagem inovadora, não conseguia articular a alma do projeto.

A comunidade online, sempre vigilante, rapidamente percebeu. Comentários inundaram o fórum. "Isso não soa como o trabalho da Kaila." "Ela não consegue nem responder a perguntas básicas sobre sua própria tese." "É um caso claro de plágio!"

As acusações se multiplicaram, um incêndio de indignação digital. A integridade da universidade estava em jogo.

Arthur, com o rosto como uma nuvem de tempestade, me arrastou da cama. Meu corpo gritou em protesto, uma dor lancinante percorrendo meus membros enfraquecidos, mas ele ignorou. Estava cego por sua raiva, por sua necessidade fervorosa de proteger Kaila. Ele me empurrou em direção à minha irmã, que ainda estava agarrada a Joyce, seus soluços ecoando dramaticamente no pequeno quarto.

"Olhe para ela, Joana!", ele rosnou, apontando para Kaila. "Você arruinou tudo! Peça desculpas! Agora!"

Eu o encarei, a fúria em seus olhos, e uma única e agonizante pergunta ecoou em minha mente: Quando ele se tornou dela?

Lembrei-me da noite em que ele me encontrou, cinco anos atrás. Meus pais tinham acabado de me expulsar, suas palavras um punhal envenenado em meu coração. Eu estava quebrada, à deriva, sozinha no vento cortante. Arthur, então um jovem empresário promissor, estava lá, um farol na minha escuridão. Ele envolveu seu casaco em mim, seus olhos cheios de uma ternura que eu nunca conhecera. Ele me levou para casa, para seu apartamento, e ouviu pacientemente enquanto eu soluçava minha história. Ele foi meu salvador, minha âncora. Ele me fez acreditar no amor novamente, em um futuro que eu pensei estar perdido.

Ele jurou que me protegeria, que nunca mais deixaria ninguém me machucar. "Você é minha, Joana", ele sussurrou, suas palavras um bálsamo para minha alma estilhaçada. "Eu sempre vou te valorizar." Ele odiava a maneira como minha família me tratava, odiava o favoritismo deles, a crueldade casual. Ele era meu porto seguro, meu tudo.

Mas então Kaila começou a invadir nosso espaço, sutilmente no início. Ela aparecia em nossos encontros, "acidentalmente" esbarrando em nós, sempre parecendo frágil, sempre precisando da atenção de Arthur. Ela se inclinava para ele, sussurrava segredos, sua mão delicada sempre encontrando o braço dele. As mensagens de texto deles se tornaram uma constante, um fluxo silencioso de comunicação que me excluía, que corroía a base do nosso relacionamento.

Meu amor, meu protetor, lenta e insidiosamente, tornou-se o guardião feroz da minha algoz. Eu pensei que estava imune à dor agora, que meu coração estava entorpecido demais para se quebrar. Mas ver Arthur me destruir para exaltar Kaila, ainda revirava meu estômago.

O que importava agora? Eu era um fantasma de qualquer maneira, desaparecendo rápido. Meu tempo estava se esgotando. Eu lhes daria o que eles queriam. Eu realizaria este último e patético ato de autoanulação.

"Fui eu", eu disse, minha voz quase inaudível. "Eu plagiei a tese. Sinto muito, Kaila." As palavras tinham gosto de bile.

Um suspiro coletivo encheu a sala. Até Kaila parou de soluçar, seus olhos arregalados de surpresa. Meus pais me encararam, depois um ao outro, seus rostos uma mistura de choque e alívio perplexo.

"Oh, Joana", Joyce suspirou, a mão no peito. "Você finalmente se importa com sua irmã. É uma pena que tenha demorado tanto."

Frederico assentiu, um olhar presunçoso no rosto. "Viu? Eu disse que ela ia ceder. Ela só precisava de um empurrão. Sempre tão madura, no fundo."

Os olhos de Arthur se suavizaram, um lampejo de algo parecido com culpa passando por eles. Ele se aproximou de mim, estendendo a mão. "Joana, eu... eu sei que isso é difícil. Mas vamos superar. Eu vou cuidar de você. Você não terá que se preocupar com nada. Mesmo que não consiga terminar seus estudos, garantiremos que você viva confortavelmente."

Forcei outro sorriso, uma paródia grotesca de felicidade. Confortavelmente. Ele falava de um futuro que eu nunca veria, uma vida que eu nunca viveria. O futuro que ele imaginava para "nós" já estava se desfazendo em pó.

Kaila, que nos observava com uma intensidade estranha e calculista, de repente pegou o celular. Ela ligou a câmera, um sorriso malicioso brincando em seus lábios. "Eu quero gravar isso", ela fungou, a voz ainda pingando lágrimas falsas. "Para que todos saibam a verdade."

Ela apontou a câmera para mim. "Joana, sua ladra! Você roubou meu trabalho! Você tentou arruinar minha vida!", ela lamentou, sua atuação digna de um Oscar. "Diga! Diga que sente muito! Diga que plagiou minha tese!"

Meus pais e Arthur observavam, os olhos fixos em mim, esperando. Exigindo.

Olhei para a lente, para o olho frio e insensível da câmera. "Eu... eu plagiei a tese da Kaila", sussurrei, minha voz quebrando. "Peço desculpas. Foi errado. Eu admito."

Um suspiro coletivo de alívio varreu a sala. Eles tinham sua confissão. Sua filha de ouro estava absolvida.

Kaila, com o rosto ainda manchado de lágrimas performáticas, rapidamente subiu o vídeo. Em minutos, meu celular vibrou com notificações. O mundo online explodiu em uma tempestade de condenação. "Joana Dantas, a plagiadora! Que vergonha!" "Como ela pôde fazer isso com a própria irmã?" Mensagens de ódio, insultos e ridicularização inundaram minha caixa de entrada.

Kaila, enquanto isso, interpretava a vítima graciosa. Ela postou uma mensagem chorosa, "me perdoando", pedindo gentileza, retratando-se como o epítome da graça sob pressão. Enquanto todos os outros estavam distraídos, ela se inclinou para perto de mim, sua voz um silvo venenoso.

"Idiota", ela sussurrou, os olhos brilhando de triunfo. "Você nunca teve chance. Acha que pode competir comigo? Acha que merece o amor deles? Eles são todos meus, Joana. Mamãe, papai, Arthur. Sempre foram. Você não merece ninguém."

As últimas palavras foram um golpe de martelo, rachando o pouco que restava do meu espírito. Eu a encarei, a malícia pura e não adulterada em seus olhos, e soube, com uma certeza que me gelou até os ossos, que ela queria dizer cada palavra.

O veneno em minhas veias parecia um abraço bem-vindo. Acabaria em breve.

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