Meu Irmão Secreto: Um Presente do Destino

O funeral do meu pai acabou.

A chuva miudinha caía, molhando a terra preta do cemitério.

O meu noivo, Pedro, segurava um guarda-chuva preto sobre a cabeça da minha madrasta, Sofia, e da sua filha, Laura.

Os três pareciam uma família. Eu estava de pé, sozinha, ao lado deles, deixando a chuva fria encharcar o meu cabelo e o meu vestido preto.

As notícias no telemóvel mostravam o colapso da ponte sobre o rio Douro. A manchete dizia: "Tragédia na Ponte da Arrábida: Falha Estrutural Causa Múltiplos Veículos a Cair, Autoridades Confirmam 15 Mortos".

O meu pai era uma dessas 15 pessoas.

Eu tremia, não só de frio, mas de uma dor que me consumia por dentro. Peguei no meu telemóvel e liguei ao Pedro. Precisava de ouvir a sua voz.

Ele estava mesmo ao meu lado, mas o seu telemóvel tocou no seu bolso. Ele olhou para o ecrã, franziu o sobrolho e rejeitou a chamada.

Eu olhei para ele, incrédula.

Ele nem sequer olhou para mim. Em vez disso, falou em voz baixa com a Laura.

"Estás bem? Estás a tremer. Queres o meu casaco?"

Laura fungou, os seus olhos vermelhos de tanto chorar. "Estou bem, Pedro. Só estou preocupada com a minha mãe. Ela não come nada desde ontem."

A voz de Laura era fraca e trémula. A minha madrasta, Sofia, abraçou-a com força.

"Oh, minha querida filha, o que seria de nós sem o Pedro? Ele tem sido a nossa rocha."

Uma rocha para eles. E para mim? O que era ele para mim? O noivo que ignorava a minha dor e as minhas chamadas?

Eu ri, um som amargo que se perdeu na chuva.

"Pedro," chamei, a minha voz rouca. "Vamos cancelar o casamento."

O silêncio caiu sobre eles. Pedro finalmente virou a cabeça na minha direção, a sua expressão era de pura irritação.

"Podes parar com o drama? O teu pai acabou de morrer. Não é altura para as tuas birras."

"Birras?", repeti, a palavra a saber a veneno. "O meu pai está morto, Pedro. E tu estiveste o tempo todo a consolar a Laura. Nem uma única vez me perguntaste se eu estava bem."

A sua raiva explodiu.

"Claro que a Laura precisa de apoio! Ela é sensível! Tu és sempre tão forte, achei que conseguias lidar com isto! Além disso, eu estive ocupado a tratar de tudo do funeral! Não podes ser um pouco mais compreensiva?"

"Compreensiva? Eu liguei-te dezassete vezes quando a ponte caiu. Dezassete. Tu não atendeste uma única. Estavas com a Laura, a acalmá-la porque ela viu as notícias e ficou em pânico."

"E qual é o problema disso? Ela estava a ter um ataque de pânico! O que querias que eu fizesse, que a deixasse sozinha para atender as tuas chamadas?"

A minha dor transformou-se numa clareza gelada. O meu pai estava morto. O homem que eu amava preocupava-se mais com a filha da minha madrasta do que comigo.

O homem que me pediu em casamento há um mês.

Eu olhei para o anel de noivado no meu dedo. Parecia um objeto estranho, pertencente a outra pessoa.

"Não quero mais isto," disse eu, a minha voz firme. "Acabou, Pedro."

Ele bufou, incrédulo. "Estás a terminar tudo por causa disto? Porque eu ajudei a Laura? Estás a ser egoísta, Inês! O teu pai ia querer que ficássemos juntos, que cuidássemos uns dos outros!"

Com isso, ele virou-me as costas, voltando a sua atenção para Sofia e Laura, guiando-as para longe do túmulo fresco.

Deixaram-me ali, sozinha com o meu pai.

Tentei ligar-lhe novamente mais tarde, quando cheguei a casa. O número estava bloqueado.

Um sorriso sem alegria curvou os meus lábios. Ele tinha razão numa coisa. O meu pai ia querer que eu fosse feliz.

E a minha felicidade já não o incluía.

Salvar a Laura foi mesmo só um ato de bondade? A casa dela fica do outro lado da cidade, longe de onde eu estava, longe de onde ele deveria estar.

Ele não pensou em mim quando eu estava desesperada, a ligar sem parar, sem saber se o meu pai estava vivo ou morto?

Ele não se importou. Se se importasse, teria atendido. Teria vindo ter comigo. Eu era a noiva dele.

O meu pai era tudo o que eu tinha.

A dor no meu peito era uma pressão constante. A dor da perda, a dor da traição.

Enquanto eu estava perdida nos meus pensamentos, o telemóvel da minha madrasta, que ela deixou na mesa da sala, começou a tocar. Era uma chamada do tio do Pedro, um homem que eu mal conhecia.

Pensei que talvez fosse sobre os arranjos do funeral. Hesitante, atendi.

"Sofia? É o Tiago. O Pedro contou-me da ridícula ideia da Inês. Tens de falar com ela! Que tipo de mulher abandona o noivo num momento destes? O pai dela mal arrefeceu no túmulo e ela já está a causar problemas. Ela não tem decência?"

A voz dele era dura, cheia de desprezo.

"Ela acha que pode simplesmente deitar fora um compromisso? O meu sobrinho é um bom partido! Ela devia agradecer por ele sequer olhar para ela!"

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