Naquela manhã, o médico entregou-me o relatório do teste de ADN, com uma expressão séria.
"Senhora Costa, o seu filho, o Pedro, não tem a doença de Fabry. No entanto, o seu marido, o Diogo, tem."
Senti um alívio imenso, seguido imediatamente por uma confusão profunda.
Olhei para o papel. O resultado era claro.
"Mas... como é possível? O Diogo não tem sintomas. E esta doença é genética."
O médico empurrou os óculos para cima no nariz.
"É uma variante de início tardio. Pode não manifestar sintomas durante décadas. Mas ele é portador. A boa notícia é que o Pedro não herdou o gene defeituoso."
Agradeci ao médico, a minha mente a girar.
No corredor do hospital, liguei para o Diogo. Queria partilhar a boa notícia sobre o Pedro imediatamente.
A chamada tocou várias vezes antes de ele atender. A sua voz soava distante e apressada.
"Helena? O que se passa? Estou ocupado."
"Diogo, tenho ótimas notícias. O resultado do Pedro chegou. Ele não tem a doença."
Houve uma pausa. Não a pausa feliz que eu esperava.
"Ok, ótimo. Tenho de ir agora. A mãe da Clara está a ter um ataque de pânico. Tenho de a levar ao hospital."
Clara. A sua ex-namorada.
A minha garganta secou.
"A mãe dela? O que aconteceu? Ela não tem família para ajudar?"
"Sabes como ela é. Só confia em mim. A filha dela, a Bia, também está doente. É o meu dever ajudar. Falamos mais tarde."
Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
Fiquei parada no corredor barulhento do hospital, o telefone na minha mão. O alívio que senti há minutos transformou-se numa pedra fria no meu estômago.
O nosso filho escapou a uma doença genética grave, e a primeira reação do meu marido foi correr para ajudar a família da sua ex.
Não era a primeira vez. Nem a décima.
O Diogo sempre teve uma desculpa. A Clara era frágil. A sua mãe era idosa. A sua filha Bia precisava de uma figura paterna.
E eu? E o Pedro? Éramos sempre a segunda opção.
Olhei novamente para o relatório na minha mão. O nome do Diogo estava ali, impresso a preto e branco, ligado a uma doença que o afetaria para o resto da sua vida.
E ele não sabia.
Eu tinha o seu futuro nas minhas mãos, e ele estava a caminho do hospital com outra mulher e a sua família.
Naquele momento, uma decisão formou-se na minha mente, clara e afiada.
Se eu e o Pedro não éramos a sua prioridade, então ele também não seria a minha.





