MEU BOMBEIRO MAFIOSO E BILIONÁRIO

Horas antes:

Diziam-me que a vida é dura e que eu iria me arrepender de ter engravidado. Isso só vai acontecer quando a galinha nascer dente, porque eu faria tudo de novo. A emoção de segurá-lo em meus braços pela primeira vez foi um dos melhores momentos da minha vida. Tê-lo foi difícil, eu chorava enquanto me levavam para o hospital. Gostaria de ter feito o parto normal, mas Joca ainda estava sentado com 36 semanas de gestação. Sem o meu filho do meu lado, eu nunca conseguiria passar por todos os obstáculos que vieram pela frente.

Ele já está com 7 anos. É um menino inteligente, amoroso e compreensivo.

Beijo sua foto que coloquei no armário do vestiário.

— Daqui a pouco estou voltando para casa — sussurro.

— Disse alguma coisa?

Fecho a porta do meu armário e avisto o capitão Dominique Wilson apenas com uma toalha enrolada na sua cintura. Se tem visão melhor do paraíso, eu desconheço.

— Eu estava falando sozinha, senhor.

— Entendi. — Ele sorri de lado e passa por mim, indo para o banheiro. 

Se ele não fosse o meu superior, eu me envolveria, mas ele é e vou me manter na linha. Já tive experiências ruins com homens de cargos superiores e não quero estragar minha vida. Ela está melhorando a cada passo que dou. Saí da Bahia quando Joca tinha apenas 4 anos. Eu não poderia continuar com o Rubens, pois ele me mostrou um lado que eu desconhecia completamente. Fez eu perceber que o homem que eu tanto amei era uma farsa. O verdadeiro Rubens é um assassino, um agressor e um traidor. Nesse momento, deve estar cuidando do seu filho com a outra. Só sinto muito por essa criança ter logo ele como pai.

Não sinto dor pelo que passou. O passado já se foi. Agora, Joca e eu temos uma vida boa em Souls, nos Estados Unidos. Moramos num apartamento simples, mas bem bonito e arrumado. Eu fiz um curso para me tornar bombeira e hoje é meu primeiro dia no trabalho. 

O chefe do quartel me apresentou a todos e de primeira arrumei um "amigo". Pelo menos ele disse que agora somos amigos. O seu nome é James, mas ele gosta que eu o chame por Jin. É um tagarela que gosta muito da cultura latina, principalmente a do Brasil, mas não acreditei quando ele disse:

— Ah! Morava no nordeste? Lá tem esgoto? Água encanada? Tem internet? E olhando assim para você, acho que não parece brasileira, brasileira não é branca.

Expliquei para ele sobre miscigenação e que em todo lugar do Brasil há lugares pobres e ricos. Felizmente, apesar de Taperuçu ser uma cidade pequena, há saneamento básico, água encanada e internet. Não que a prefeitura se esforçasse para dar o melhor para os moradores, é o dono da cidade quem fez tudo isso acontecer, Geraldo Luís, tio do meu marido e o traficante mais poderoso da Bahia. Eu não vou me estender falando sobre ele, pois não quero chamar coisa ruim para o meu lado.

Por primeira impressão, eu não gostei do Jin. Ele se parece com meu marido (a propósito, o chamo de marido porque ainda sou casada no papel). Eles possuem o mesmo bigode fino, mesmo porte físico, cabelo cacheado cortado bem curto. A diferença mais evidente é na cor, o meu marido é preto em um tom avermelhado e Jin é branco.

Os meus veteranos estão me tratando bem, mas como sou a novata preciso fazer tudo que pedem. Inclusive limpar, enrolar e guardar as mangueiras gigantes.

Estou a enrolar uma no chão.

— Trabalhando duro?

Olho para cima, é o capitão. Ele é um colírio para os meus olhos, um homem jovem para o seu posto e muito bonito. Os seus cabelos loiros estão sujos de farinha. 

— Sim. — Levanto-me e tento não olhar para o cabelo dele, mas é uma coisa que eu tenho com sujeira que me incomoda muito. — Capitão, o senhor tem farinha no cabelo.

— Não te faz rir? — Ele balança a cabeça e a farinha se espalha e cai em mim. Passo a mão na minha blusa. — Foi mal. — Ele dá um risinho. — Faz horas que está aqui e não riu nem um pouco. Nem sorriu direito. Eu quero que se sinta à vontade conosco, Dias. — Ele coloca as mãos nos bolsos das calças.

— Eu me sinto à vontade. Obrigada por se preocupar. — Penso em sorrir, mas não quero.

— Só para eu saber e não estar te irritando... Você é do tipo mais reservada e que não gosta de piadas ou você só precisa de tempo para se acostumar?

— Sou reservada, mas tenho senso de humor e também preciso de um tempo para me acostumar ao ambiente e às pessoas.

— Certo. — Ele dá dois tapinhas no meu ombro. — E eu estava fazendo bolo e o Jin jogou farinha em mim. Só para justificar a farinha e você não pensar que eu sou um retardado que joga farinha na própria cabeça. — Ele fica me encarando com um sorriso.

Espero para ver se ele diz algo, mas não diz. Isso é constrangedor.

— O senhor quer algo?

— É... — Ele coça a nuca. — Só quero avisar que você agora faz parte da família. Sabe que aqui todo mundo gosta de todo mundo, não é? Com você não vai ser diferente, mas como é novata podem te fazer sofrer um pouquinho. Qualquer dúvida fala comigo ou o Jin, os novatos não têm obrigação de saber fazer tudo. Entendeu?

— Entendi. — Dou um leve sorriso.

Além do Jin, o capitão é muito simpático e acolhedor. É um homem jovem, penso que deve ter uns 30 anos, e já conseguiu o cargo de capitão. Posso não o conhecer direito, mas sinto ser uma pessoa boa e, como é capitão, sei que é um ótimo bombeiro...

Faltam 40 minutos para o final do turno, estou sentada no sofá comendo uma maçã enquanto assisto ao jogo de basquete com o tenente Simon Abraham. Ele é um homem negro, usa tranças curtas no cabelo. Parece um modelo. Sinto que estou no programa da Eliana.

Uma moça com cabelo cacheado de cor vermelha anda até nós e para na frente da televisão.

— Treinamento, gatinhas. Bora pra garagem!...

Fomos uns cinco bombeiros para a garagem e o capitão veio até nós carregando uma bolsa pesada no ombro. Continua sorridente, parece que nunca deixa de estampar esse sorriso.

— Imaginei que seria bom um treinamento já que faz algumas horas que estamos parados aqui. Vai ser bem rápido já que temos pouco tempo. — Ele joga a bolsa no chão. — Vamos fazer um treinamento "básico" com limite de tempo. O vencedor ganha... — Ele para de falar quando o seu celular toca e o pega no bolso das suas calças. O sorriso se desfaz ao olhar para a tela do celular. — Só um minuto, pessoal. — Ele se afasta um pouco de nós.

Parece meio tenso e preocupado.

— Nem disfarça que tá secando o capitão Wilson. — sussurra no meu ouvido a moça do cabelo vermelho. Qual é mesmo o seu nome? Acho que é Vanessa Dubois.

— Eu não estou. — Franzo as sobrancelhas e a olho de lado. Seria um desrespeito fazer isso, principalmente com ele tão preocupado.

— Está, mas tudo bem. Ele é mesmo atraente. Por dentro e por fora. É um homem perfeito.

— É? — pergunto arqueando uma sobrancelha. Essa história de homem perfeito não rola comigo.

— É, o único problema é que não tem xota. — Ela faz uma careta.

— Ah!... — Volto a olhar para o capitão. O alarme para um chamado toca e ele guarda o celular...

Ouvimos um chamado para um desmoronamento de prédio. Corri para vestir o uniforme de proteção e, ao passar perto dele para entrar na cabine do caminhão, ouço ele murmurar de cabeça baixa:

— Eu nunca vou matar um homem, muito menos aquele.

Olho para ele de dentro da cabine. Ele percebe que estou o olhando, me encara e sorri como se não tivesse dito nada demais.

— Matar? — Arqueio as sobrancelhas. Eu deveria ter ficado quieta e fingir não ter ouvido, mas a palavra saiu da minha boca automaticamente. Laura, sua burra…

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