Mamãe de mentira

— Você ia embora sem me dar tchau? Não ia nem ficar para me ajudar a cortar o bolo? — Os olhos amendoados estavam cheios de lágrimas.

— Não, eu ia exatamente atrás de você.

— Eu tomei banho, mamãe. — Ela cheirou o próprio pulso e me estendeu para que eu fizesse o mesmo. — A vovó me fez prometer que eu não ia aborrecer você com perguntas, e disse que você só veio para me ver rapidinho.

— Eu nunca perderia a oportunidade de ver você. — Ajoelhei-me diante dela, em um momento insano de coragem, e assumi o lugar da mãe que nunca tive. Eu a entendia, eu sabia o que aquelas lágrimas representavam.

— Eu te amo, mamãe. — E choramos juntas, uma dor que só quem não teve mãe entende. Estava dando a ela um abraço que esperei a minha vida inteira.

— Não vamos chorar, não é? — Sequei os olhos dela e em seguida fiz o mesmo com os meus.

— Eu morava na sua barriga. — Ela me olhou cheia de sabedoria infantil. — Foi a única vez que ficamos juntas.

A ergui no colo, enquanto um nó de sentimentos conflitantes me inundava o corpo e calava a minha voz.

Ela me arrastou até o quarto dela no andar superior, haviam variantes infinitas de bonecas e unicórnios.

Ela me mostrou uma boneca velha que estava em sua cama.

— Mamãe, eu sei que coisa velha não é presente, mas essa é a Lucinda, minha boneca de nanar. Eu quero que leve ela com você; a gente tem o mesmo cheiro, quando tiver saudade de mim, você vai poder sentir meu cheiro.

Ela era muito esperta. Isso não havia como negar.

— A mamãe não pode aceitar...

— Você não sente minha falta? — Ela lambeu o lábio inferior num gesto de nervoso.

— Sim, a mamãe sente, é que...

Ela pegou minha mão e me fez sentar com ela na cama.

— Você não ama mais o papai? É por isso que você não fica aqui?

— O quê?

— A mãe do Joaquim não ama o pai dele e foi embora com um homem que não usa camisa.

— Não é isso, foram outras coisas e...

A porta se abriu e Antônio entrou, me deixando aliviada.

— Duda, o papai estava preocupado com você. A vovó te deixou na sala de TV e você saiu...

— Estou com a minha mãe; sabia que minha mãe ama você, papai?

Senti meu rosto queimar quando ele me lançou um sorriso.

— Também amo a mamãe e nosso amor te trouxe para a terra. Duda, você pode deixar a mamãe se vestir e tomar um banho antes da festa?

Antônio me estendeu a mão, que aceitei de bom grado. Saímos do quarto e fomos em direção a outro, este maior e mais espaçoso. Os tons sóbrios emprestavam uma masculinidade que combinava com o perfume que tornava o ambiente altamente atraente.

Só percebi que ainda estava de mãos dadas com meu chefe quando ele me soltou e fechou a porta.

— Obrigado, estou tão aliviado que não sei sequer como agradecer...

— Ela disse que vai ter uma festa?

— Sim, só para familiares e amigos íntimos.

— Essas pessoas não conhecem a verdadeira Daniela?

— Não, a Daniela nasceu aqui em São Paulo, eu sou de Ipiaú, uma pequena cidade no sul da Bahia. Meus parentes que moram aqui agora só conhecem a mesma Daniela que a minha filha conhece, uma moça tímida que detestava fotografias e que me deixou para seguir a vocação.

— Você engana todo mundo? É isso?

— Eu mataria todo mundo pela minha filha, quanto mais mentir. Minto e não me arrependo, meu arrependimento maior foi não ter dito que a mãe tinha morrido, mas pensei que se ela voltasse isso seria complicado.

— E se ela voltar agora? Vier para a festa, por exemplo?

— Daniela se casou com um turco e vive na Europa. Pelo que sei, há filhos e a menor vontade de lembrar que existe alguém aqui com seu sangue...

— Agora a pouco você me disse que não fazia ideia de onde essa mãe estava e...

— Eu menti, gostou? Eu teria te contado qualquer história que fizesse você fingir que era a mãe dela. Você tem o mesmo nome, isso é um trunfo...

— Você me trouxe aqui com esse objetivo? — O encarei e ele riu.

— Não, mas cheguei a pensar nisso enquanto estávamos no carro. Tem mais...

— Mais? — Meneei a cabeça.

— Eu sou apaixonado por minha esposa, qualquer mulher nesse período foi apenas necessidade física, por isso nunca casei, nem tive namoradas. Na realidade não quero que minha filha tenha uma madrasta.

— E a Daniela te largou? E você sofre por isso, sei...

— Não, eu pinto nosso relacionamento como uma espera, então vou ter de colocar a mão na sua cintura durante a festa...

— Você o quê?

— Te abraçar, te olhar assim... — Ele se aproximou de mim e o olhar dele foi tão carregado de desejo que quase caí sentada no chão.

— Nada de abraços... — Tentei me manter segura.

— Dois meses e você contrata e demite quem quiser. Pode cuidar de cada detalhe do seu projeto para a empresa.

— Quem eu quiser?

— Se minha mão puder ficar assim durante alguns momentos... — A mão dele acarinhou minha cintura, meu olhar pousou na boca rosada. — Você pegou o espírito. Quem te vê agora até acha que você quer me beijar.

— Você está louco! — Soltei a mão dele da minha cintura e senti que ainda queimava com o toque, naquele momento parecia uma adolescente tola e impressionável.

— Apenas te elogiei.

— Sua mão na minha cintura só quando tiver gente presente. Eu quero três meses para apresentar lucro e você demite aquelas modeletes que você contratou.

— Certo. — Ele estendeu a mão num gesto de acordo, que eu correspondi. — Há um banheiro ali, naquela porta, nesse lado do closet tem algumas peças femininas, agulha e linhas, ajuste alguma que combine com seus sapatos. Quero ver se você é tão boa costureira quanto é chantagista. Eu te espero lá embaixo e, mais uma vez, obrigado.

Ele saiu fechando a porta atrás de si, peguei um dos vestidos e comecei a ajustá-lo na minha cintura.

Mal sabia naquele momento que a gente só escolhe começar a mentir. Não há o menor controle sobre quando parar.

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