Boris saiu do quarto. Permaneci do jeito que estava e fiquei processando o que ele tinha me informado sobre Ariel, ainda estava surpreso. Minutos depois a porta é aberta pela médica, ela entra e me cumprimenta, permaneço em silêncio e observo seus passos até o prontuário que está ao pé da cama.
— Que bom que acordou, está sentindo alguma dor?
— Apenas um incômodo. Quando receberei alta?
— Em uma semana.
— Isso é muito tempo.
— O senhor foi baleado duas vezes, uma bala acertou o seu pulmão, e a outra bem próxima em seu coração, perdeu muito sangue, por sorte ainda está vivo.
— Você também atendeu a minha mulher?
— Sim, já que presenciei a sua conversa com Boris, fui ameaçada falar como ordenado. — Explicou, depositando um sorriso falso e nervoso nos lábios. — Mas antes de informá-la eu recebi os exames que foram feitos.
— Exames? Ela está bem?
— Ela chegou ao hospital desmaiada, então providenciamos alguns exames. Ela está grávida!
A informação me encheu de alegria, foi duro de ouvir, pois por mais que isso tenha me alegrado, não poderei estar ao seu lado, acompanhando tudo tao perto, enquanto eu não resolvo o que preciso.
8 meses depois...
Depois que eu deixei o hospital fui para um esconderijo que ficava entre as montanhas da Rússia, onde tratei de me recuperar e começar a minha caça. Estava sozinho nessa, não quis soldados, nem supervisão, só assim me manteria morto, por hora. Durante esse tempo eu comecei a estudar todos os relatórios de anos atrás, tudo sobre Heron até o dia em que achei que havia matado ele, mas enquanto fazia isso, acessava as câmeras de segurança da mansão para dar uma olhada na minha mulher. Todos os dias Noah e Trevor os visitava, eles cuidavam das crianças e de Ariel, que passava a maior parte do tempo trancada em nosso quarto.
Antes de tudo, ordenei a Boris que me informasse sobre algo grave relacionado a minha família, então, fui informado que ela tinha decidido ir embora, não só da casa, mas que voltaria para seu país. No mesmo dia em que eles deixariam a Rússia eu resolvi entrar em contato Trevor e dizer que alvez de estar morto, tinha forjado a minha própria morte. Ele havia acabado de entrar na minha sala, ao me ver sentado na poltrona o seu terror foi evidente. À princípio ele achou que fosse um fantasma vingador, mas assim que percebeu que não era algo sobrenatural nem ilusório, se acalmou. Fui direto ao que me interessava e ordenei que ele convencesse Ariel a permanecer na Rússia, pois assim ela estaria segura do que havia lhe explicado. Não poderia impedir sua saída, assim levantaria suspeitas e por mais que criasse uma boa desculpa, não seria suficiente.
Um tempo depois cá estou eu. Oito meses se passaram, mesmo correndo perigo eu vim até o hospital, o mesmo hospital onde tempos atrás eu a vi pela primeira vez pessoalmente e me atendeu após um atentado. Hoje ela está ganhando a nossa filha. Em uma sala, atrás de um vidro escuro, eu a vejo empurrar nossa menina para fora de seu corpo e chamar por mim. Eu queria estar ao seu lado, incentivando-a empurrar e segurar a sua mão, mas não podia, então, tive que me contentar em ver de longe. Ariel a nomeou de Estella.
***
Paz, revolta e frustração, é a sensação que eu tenho sentido durante esses cincos longos anos longe da minha família. Mas independente da louca falta que sinto deles, estou grato que eles estejam a salvos e longe de qualquer perigo. Em toda minha existência eu fiz isso por alguém, me sacrifiquei e me auto puni por algo ou alguém importante para mim. Não sou uma boa pessoa, fui um desgraçado e continuo sendo, mas menos com eles. Ariel me fez enxergar humanidade dentro de mim, mas para isso levou muito tempo, mesmo depois de conhecê-la, obrigá-la a ser minha e me casar com ela, ela me mudou.
A prova disso foi eu estar completamente concentrado no seu resgate após ser sequestrada pelo Yudi que a esta altura está queimando no inferno. Foi a primeira vez em que meu raciocínio de um verdadeiro dom temeu pela vida, e não pela minha, mas a dela. Era a minha mulher quem corria perigo, em minha cabeça eu tinha que salvá-la de um jeito ou de outro, para mim mais nada importava. Enquanto eu estava ocupado, desesperado para tê-la de volta, houve um ataque terrorista no palácio de inverno, o mesmo onde me casei com Ariel. Por mais que eu odiasse e odeio o meu pai, em algumas de suas frases que havia me dito tinha verdade, ser desumano e cruel desde pequeno, me faria lidar com qualquer situação sem agir por emoção, mas uma coisa ele falhou, eu deixei que uma bela ruiva me dominasse e me deixasse completamente apaixonado por ela.
Não me arrependo de tê-la me deixado sentir o que jamais senti por alguém, muito pelo contrário, foi assim que eu deduzir que poderia sentir algo maior do que o comprometimento com a frieza e a indiferença. Ariel foi a luz que iluminou meu mundo sombrio, foi ela quem me ensinou a amar, a me redimir com os meus atos com ela. Ariel é o oposto do que sou, ela era o que faltava em mim. Porém, há um tempo acredito que ela não seja mais tão idêntica quanto no início, ainda havia resquícios da mulher em que eu tomei para mim, mas ela não era mais tão inocente, ingênua, e mesmo não aprovando, dava um puto tesão.
Estou morrendo de saudades dela e dos nossos filhos, mas infelizmente ainda não encontrei o causador que me fez fingir estar morto. Na nossa primeira e última conversa, eu contei a Ariel um pouco da história do meu pai e o motivo que ele decidiu se casar com a minha mãe, ambição para aumentar o território da organização e interesse, pois assim como eu, foi alertado pelos anciões o tempo de ter o herdeiro para que no futuro, assumisse o lugar. Minha mãe, Louise Roux era filha e descendente de duas máfias, tailandesa e francesa, contudo, as duas organizações foram divididas para ela e para seu irmão, Heron Roux. Ele assumiu a tailandesa, casou-se e teve uma filha, já Louise, por não poder assumir o que lhe era por direito, foi obrigada a se casar com meu pai, que a todo custo tentou desposar a qualquer custo. Em uma noite, assim que eu fiz cinco anos de idade, minha mãe decidiu fugir, e só conseguiria com ajuda de seu irmão, que não compareceu no lugar, e o resultado foi a sua morte.
Nesses cinco anos que forjei a minha morte, Heron Roux surgiu dos mortos, se aliou aos mexicanos para derrubar o meu império e tomar tudo o que me pertencia, eles poderiam conseguir, mesmo que a minha organização fosse bastante poderosa, havia protocolos a serem seguidos. Eu não posso fazer muito a essa altura, pois se eu mover um dedo contra aquele que está ajudando meu tio, automaticamente ele certificará que estou vivo e poderia ir facilmente atrás do meu bem mais precioso, minha mulher é filhos. Agora está nas mãos de Boris junto com Trevor, que estão tentando descobrir onde ele está.
No decorrer dos anos que passaram, eu morei em diversos países por um curto período, sempre trocando de cenas, nomes, até cortes de cabelo, inclusive substituindo meu bom e velho smoking por qualquer trapo. Mesmo escondido Trevor me ligava para saber onde estou e como estou, em uma de suas ligações eu pude ouvir a doce voz da minha mulher, eu sentia sua falta, principalmente de nossas transas, os banhos gelados já são frequentes na minha vida.





