Justiça Por Mia

O cheiro de desinfetante no hospital era forte, quase me sufocava.

Eu estava sentada num banco frio do lado de fora da sala de emergência, olhando para a porta fechada. Lá dentro, os médicos lutavam para salvar a minha filha, Mia, que tinha apenas cinco anos.

O meu telefone vibrou. Era o meu marido, Pedro.

A sua voz soou irritada e impaciente do outro lado da linha.

"O que foi agora, Sofia? Estou numa reunião importante com o Sr. Oliveira. Não te disse para não me ligares a não ser que fosse uma emergência?"

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

"Pedro, a Mia está na emergência. Ela caiu da escada."

Houve um silêncio momentâneo, depois a voz da minha sogra, Helena, soou ao fundo, alta e clara.

"É a Sofia? Diz-lhe para não exagerar. Crianças caem a toda a hora. O Lucas também caiu ontem e só arranhou o joelho. Ela está a tentar estragar a reunião do Pedro de propósito?"

A voz do meu sogro, Jorge, juntou-se à dela.

"Exatamente. Este negócio com o Sr. Oliveira é crucial para o futuro da nossa empresa. A Sofia precisa de aprender a lidar com coisas pequenas sozinha. Não pode depender do Pedro para tudo."

A reunião deles. O negócio deles. O futuro da empresa deles.

E a minha filha? A neta deles? A vida dela era apenas uma "coisa pequena".

"Pedro," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente, "a médica disse que é grave. Ela pode precisar de uma cirurgia."

"Cirurgia? Que disparate!" a voz de Pedro explodiu, cheia de raiva. "Estás a tentar chantagear-me para eu sair daqui? A Helena tem razão, estás a fazer uma tempestade num copo de água. O Lucas está aqui connosco, perfeitamente bem. Ele é a prioridade agora, temos de causar uma boa impressão ao Sr. Oliveira."

Lucas. O filho da irmã do Pedro. O neto que eles realmente valorizavam.

"Então," eu disse, a minha voz agora estranhamente calma, "a vida da tua filha não vale nada comparada a um contrato de negócios?"

"Não sejas dramática, Sofia. Para de me incomodar. Resolve isso tu. E não me ligues mais."

Ele desligou.

O som da chamada a terminar ecoou no corredor silencioso do hospital.

Olhei para o meu telefone, para a tela escura. Senti um vazio profundo a instalar-se no meu peito.

Este era o homem com quem me casei. O pai da minha filha.

Ele não se importava. Nenhum deles se importava.

Para eles, a minha filha e eu éramos descartáveis.

A porta da emergência abriu-se e a médica saiu, com uma expressão séria no rosto.

"Senhora Alves? A sua filha precisa de uma cirurgia de emergência. Houve uma hemorragia interna. Precisamos da sua autorização."

As minhas mãos tremiam enquanto assinava os papéis.

Naquele momento, enquanto entregava o destino da minha filha aos médicos, tomei uma decisão.

Este casamento tinha acabado.

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