Justiça Além das Chamas

O cheiro a fumo acordou-me.

Abri os olhos, a garganta seca, o ar pesado e cinzento. A nossa casa estava em chamas.

O meu primeiro instinto foi gritar pelo meu marido.

"Tiago!"

A minha voz saiu rouca, um som abafado pela fumaça que enchia o nosso quarto no segundo andar.

Tentei levantar-me, mas as minhas pernas tremiam. O pânico era uma coisa fria e pesada no meu estômago.

Agarrei no telemóvel na mesa de cabeceira e liguei-lhe. O som da chamada ecoava no meu próprio andar de baixo. Ele estava em casa.

Ele atendeu, a voz tensa e distante, abafada por estalos e pelo rugido do fogo.

"Sofia? O que foi?"

"Tiago, o fogo! Estou presa no quarto! Não consigo sair!"

Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi outra voz, uma voz de mulher, a tossir. Clara. A amiga de infância dele, a sua eterna musa. Ela era pintora e estava a ficar connosco há uma semana.

"Fica onde estás, não te mexas! Os bombeiros estão a caminho!" disse ele, a sua voz cheia de uma urgência que não era para mim.

"Tiago, por favor, vem ajudar-me! O fumo é muito denso!"

"Estou a tratar de uma coisa! Apenas espera aí!"

Depois, ouvi-o gritar, mas não o meu nome.

"Clara, aguenta! Vou tirar as pinturas primeiro! São a tua vida inteira!"

As pinturas.

Ele estava a salvar as pinturas da Clara.

A chamada desligou-se. O som do meu próprio coração a bater era mais alto que o fogo.

Fiquei ali sentada no chão, o calor a subir pelas tábuas do soalho. A fumaça queimava-me os olhos e os pulmões.

Ele escolheu telas e tinta em vez de mim.

A janela estilhaçou-se e um bombeiro entrou, o seu rosto coberto por uma máscara. Ele envolveu-me num cobertor e levou-me para fora.

Lá em baixo, no relvado, o ar fresco doeu nos meus pulmões. Vi Tiago e Clara perto da ambulância. Ela estava sentada, enrolada num cobertor, a chorar. Ele estava ao lado dela, a mão no seu ombro, a falar com um paramédico.

Ao lado deles, encostadas a uma árvore, estavam meia dúzia de telas grandes. Salvas. Intactas.

O bombeiro que me salvou gritou para o paramédico.

"Temos aqui uma vítima com inalação de fumo, precisa de oxigénio!"

Tiago virou-se. O seu olhar passou por mim e voltou para Clara.

Ele disse ao paramédico, a sua voz clara na noite caótica.

"Vejam-na a ela primeiro. Ela é mais frágil."

Naquele momento, deitada na relva fria, a olhar para o céu laranja, eu soube. O nosso casamento tinha acabado. Tinha ardido juntamente com a casa.

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