Juntos Contra o Destino: Afonso e Ana

Afonso Alencar entrou no escritório discreto, o cheiro a papel velho e desinfetante pairava no ar.

"Dezessete dias," disse ele, a voz firme. "Preciso que a minha morte pareça um acidente convincente."

O homem do outro lado da secretária, de fato cinzento e expressão neutra, acenou.

"Temos experiência, Senhor Alencar. Afogamento no Tejo, talvez? Clássico, mas eficaz."

Afonso anuiu. "Desde que o corpo seja encontrado e identificado corretamente."

"Claro. Já temos um candidato para o 'cadáver'. Semelhança notável, asseguro-lhe."

Pousou uma fotografia na mesa. Afonso olhou, um arrepio percorreu-lhe a espinha. Era perturbadoramente parecido.

"Excelente."

Discutiram os pormenores financeiros, uma quantia avultada trocou de mãos.

"O pagamento final será feito no dia," disse Afonso, levantando-se. "Espero um serviço impecável."

"Não se preocupe, Senhor Alencar. A sua 'morte' será uma obra-prima."

Ao sair do prédio anónimo, o seu motorista, João, esperava-o com o Bentley.

"Para casa, Senhor Afonso?"

"Sim, João."

O carro deslizou pelas ruas de Lisboa, em direção à vivenda imponente que partilhava com Beatriz Moreira. A casa era um símbolo da sua relação, fria e grandiosa.

Beatriz estava na sala de estar quando ele entrou, desenhando numa grande prancheta. Era elegante, os cabelos escuros presos num coque desalinhado, a expressão concentrada. Levantou os olhos, e a frieza neles era habitual.

Ela aproximou-se, o cheiro subtil do seu perfume a envolvê-lo. Os seus dedos tocaram-lhe o braço, um gesto que costumava ser um prelúdio.

"Chegaste tarde," disse ela, a voz neutra. Tentou beijá-lo.

Afonso recuou instintivamente. "Não hoje, Beatriz."

Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa e um leve toque de irritação.

"Algum problema? O nosso acordo ainda está de pé, ou o dinheiro para o tratamento do Tiago já não te compra a minha companhia?"

A sua pergunta era uma faca, direta e sem rodeios, lembrando-o da natureza do seu laço.

Afonso engoliu em seco. "Estou cansado. Só isso."

Beatriz deu de ombros, a indiferença dela era palpável. "Como queiras. Tenho trabalho." Voltou para os seus desenhos.

O telemóvel dela tocou. Ela atendeu, a voz a suavizar-se ligeiramente.

"Rui? Sim, claro. Encontramo-nos aí."

Desligou e agarrou na mala apressadamente.

"Vou sair," anunciou, já a caminho da porta. A urgência era incomum, e Afonso sabia que era por causa de Rui Costa.

"Beatriz, espera," Afonso começou, querendo dizer-lhe algo, qualquer coisa sobre a sua partida iminente, sobre a loucura que estava prestes a cometer.

Ela parou, impaciente. "O quê? Estou com pressa."

Ele olhou para o rosto dela, para a distância nos seus olhos. Desistiu.

"Nada. Diverte-te."

Ela saiu sem mais uma palavra.

Afonso ficou sozinho na sala imensa, o eco da sua própria resignação a preencher o silêncio.

"Vou-me embora, Beatriz," murmurou para o vazio. "Para sempre."

Cinco anos antes, Afonso era um estudante universitário rico e influente. Beatriz era uma colega de arquitetura, talentosa mas pobre, lutando para pagar o tratamento contínuo do irmão mais novo, Tiago.

Afonso viu uma oportunidade. Propôs-lhe um acordo: ele cobriria todas as despesas médicas de Tiago. Em troca, Beatriz seria sua namorada, viveria com ele, cumpriria as suas exigências. Até ele se cansar.

Beatriz, desesperada, aceitou. Ele "comprou-a", movido por um desejo de posse que confundia com afeto.

Durante cinco anos, a relação transacional persistiu. Afonso pagava, Beatriz cumpria. Ele, no entanto, alimentava a esperança secreta de que, um dia, ela o amaria de verdade.

Até que, há poucas semanas, um acidente trivial – uma queda, uma pancada na cabeça – mudou tudo.

Quando acordou, não era apenas Afonso Alencar. Era Afonso Alencar, o "personagem coadjuvante vilão" numa história. Uma história onde Beatriz era a heroína e Rui Costa, o seu amigo de infância, o herói predestinado.

A trama era clara: Beatriz, após o sucesso de um grande projeto de arquitetura, deixá-lo-ia. As suas tentativas desesperadas e possessivas de a reconquistar, de prejudicar Rui, levariam-no a uma morte trágica e solitária.

O medo gelou-o. A premonição era demasiado real, demasiado detalhada.

Lutou contra isso, tentou ignorar. Mas a narrativa parecia puxá-lo, cada interação com Beatriz, cada olhar trocado com Rui, confirmava o seu papel.

Finalmente, exausto e desesperado, tomou uma decisão drástica: simular a própria morte. Se não podia mudar a história, talvez pudesse escapar dela. E escapar de Beatriz.

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