Na manhã seguinte, pedi uma reunião com meu chefe, o senhor Almeida, editor-chefe do jornal onde eu trabalhava como repórter investigativa. Era um homem mais velho, de cabelos grisalhos e olhar penetrante, que conhecia minha família há anos. Ele tinha um respeito profundo pelo meu pai.
Sentei na cadeira em frente à sua mesa de mogno maciço. O escritório dele cheirava a papel antigo e café forte.
"Sofia, que bom te ver. O que a traz aqui tão cedo?" ele perguntou, com um sorriso gentil.
Respirei fundo, tentando manter a voz firme.
"Senhor Almeida, eu gostaria de saber se a agência tem alguma conexão ou programa que facilite a transição para o jornalismo internacional. Especificamente... correspondente de guerra."
O sorriso dele desapareceu. Ele tirou os óculos, pousando-os sobre a mesa, e me encarou com uma seriedade paterna.
"Correspondente de guerra?" ele repetiu, a voz baixa. "Sofia, você tem certeza do que está pedindo?"
"Sim, senhor. Tenho."
"Eu conheci seu pai. E conheci seu irmão. Eram homens de uma coragem imensa. Mas você entende o que essa vida implica, não é? O perigo é real. Não é como investigar a corrupção na prefeitura. As pessoas morrem. Nós perdemos jornalistas." A preocupação em sua voz era genuína, e por um momento, minha determinação vacilou. Ele estava certo. Era perigoso, talvez até estúpido.
Mas então, a imagem de Lucas consolando Patrícia voltou à minha mente. A lembrança do bracelete quebrado. A humilhação.
"Meu pai e meu irmão não morreram para que eu vivesse uma vida com medo, ou pela metade" , respondi, minha voz ganhando força. "Eles viveram e morreram com propósito. Eu preciso encontrar o meu. E não vou encontrá-lo aqui."
Senhor Almeida me observou em silêncio por um longo tempo, seus olhos experientes tentando ler além das minhas palavras. Ele parecia entender que minha decisão ia além da carreira.
"Vou ver o que posso fazer" , ele disse por fim, com um suspiro. "Tenho um contato em uma agência em Londres que está sempre procurando por gente com coragem. Mas pense bem, Sofia. Uma decisão como essa... não tem volta."
Agradeci e saí de sua sala, sentindo um misto de alívio e pavor. O caminho estava se abrindo, e isso era mais assustador do que eu imaginava.
Naquela tarde, meu celular tocou. Era Lucas, a voz dele transbordando uma excitação que não tinha nada a ver comigo.
"Sofia! Tenho uma surpresa! Consegui reservar aquele salão no terraço do hotel para a nossa festa de noivado! Sábado à noite! Já chamei todo mundo, vai ser incrível!"
Fiquei em silêncio. Ele tinha organizado uma festa de noivado sem nem me consultar.
"Lucas, nós não tínhamos conversado sobre isso..."
"Não precisa se preocupar com nada, eu cuidei de tudo!" ele me cortou, animado. "Patrícia me ajudou a escolher a decoração, vai ficar perfeito. Você só precisa aparecer e estar linda. Ah, e compre um vestido novo, algo espetacular."
Patrícia. Claro. A festa era mais deles do que nossa.
"Lucas, eu não sei se..."
"Ah, qual é, Sofia? Não comece com o drama de novo" , ele disse, a irritação já se infiltrando em sua voz. "Você ainda está amuada por causa daquele pedaço de metal? Sério? Patrícia está se sentindo culpada até agora por sua causa. Você precisa superar isso. Pelo menos finja estar feliz no sábado, por mim."
"Pedaço de metal."
Ele chamou a última lembrança do meu irmão de "pedaço de metal" . A frieza na minha espinha se intensificou. Não era mais tristeza, era um tipo de clareza gelada. Eu não sentia mais nada por ele. Apenas um vazio onde o amor costumava estar.
"Ok, Lucas. Estarei lá" , menti. Minha voz saiu calma, controlada. Eu precisava ganhar tempo.
"Ótimo! Sabia que você ia ser razoável."
Ele desligou, satisfeito.
Fiquei olhando para o telefone na minha mão. A festa de noivado seria no sábado. Minha candidatura para a vaga de correspondente tinha sido aceita para a primeira fase de entrevistas, online, na sexta-feira. Se tudo desse certo, eu estaria em um avião antes que ele percebesse que eu não estava apenas atrasada para a festa.
A necessidade de sair dali, daquela casa, daquela vida, era uma força física, me empurrando para frente. Eu olhei pela janela do meu quarto, para a rua movimentada lá embaixo. As pessoas iam e vinham, cada uma com sua própria história, seus próprios problemas. Eu senti uma solidão imensa, mas também uma estranha sensação de poder. Pela primeira vez em meses, eu não estava apenas reagindo à minha dor. Eu estava agindo.
Comecei a traçar um plano. Eu precisava ser cuidadosa. Lucas não podia desconfiar de nada. Eu agiria como a noiva dócil e arrependida que ele queria, enquanto, secretamente, desmontava minha vida aqui, peça por peça. Seria meu último ato de serviço nesta casa: garantir que minha partida fosse limpa, silenciosa e definitiva.





