O banheiro não estava tão cheio, um cara que usava o mictório
reclamou, e eu mostrei o dedo do meio para ele enquanto procurava uma
cabine livre. Era estranho como o banheiro dos homens não estava podre
como o das mulheres.
Depois de quase virar o pé três vezes na tentativa de fazer xixi sem
encostar no vaso, me sentei e dei risada, que merda eu estava fazendo ali? Eu
me limpei e dei descarga, depois subi as calças me apoiando nas paredes e
saí, numa tentativa falha de andar em linha reta até a pia. Encarei meu reflexo
e dei risada novamente — Deus sabia quão bêbada eu estava.
Bebi um pouco de água da torneira, na esperança que dois goles
d’água fossem capazes de me livrar de uma ressaca das bravas, e ajeitei a
maquiagem dos olhos, que parecia borrada. Tirando aquilo, até que eu não
estava nada mal.
Lembrei da minha insanidade na pista de dança e gargalhei sozinha,
pensando na provocação gratuita, mas logo parei de rir, pois fui interrompida
pelo barulho alto da porta batendo e anunciando que eu não estava mais
sozinha.
Havia um segurança dentro do banheiro, isso normalmente não me
deixaria nervosa, mas o homem para quem eu havia dito que não precisava de
ajuda estava lá também, me encarando com um sorriso de canto nos lábios
finos e mãos nos bolsos de sua calça jeans, que deveria ser muito cara.
— E-e-está perdido? — falei me enrolando, meu coração batia nos
ouvidos graças ao medo de algo acontecer contra a minha vontade. Obrigada,
fogo no cu, pela bebida!
— Eu não falo sua língua, mas você parece falar muito bem a minha
— o homem falou em inglês. Malditos gringos.
Tomada de uma coragem que eu tinha certeza ser provocada pelo
álcool, comecei a gastar o inglês que eu tanto havia suado para aprender?
— Vocês são folgados demais, quando pisamos na terra do Tio Sam,
somos todos obrigados a saber a língua de vocês. E não, nós não falamos
espanhol. Chama português, conhece? — não sabia se era inteligente
provocar aquele homem, ele não parecia o tipo que perdia tempo com
brincadeiras. Na verdade, a postura firme e aparentemente calma só me dava
maior sensação de poder.
Eu o observei ser o centro da mesa com seus companheiros, sabia que
ele não era protegido daquele modo à toa.
— Eu sei que vocês falam português, o que eu não entendo é essa sua
postura... Já havia escutado que brasileiras eram quentes... — ele disse, se
aproximando lentamente. — Mas o que você é ainda não tem nome — ele
sorriu e não chegou aos olhos.
Não gostei.
— Onde aprendeu a dar uma joelhada daquele jeito? — o homem
colocou a mão no meu queixo e olhou profundamente nos meus olhos,
aproximando nossos rostos.
Eu sei que estava mais bêbada que bicha menor de idade em parada
gay, mas aquele homem conseguia ser mais bonito de perto do que de longe,
e de longe ele já era maravilhoso. Pude ver os olhos castanhos me encarando
sob um belo par de sobrancelhas grossas e vivas, uma delas estava erguida
como se esperasse logo a resposta.
A boca fina estava aberta em um sorriso de dentes brancos e retos.
Notei os caninos proeminentes e sorri, achando aquilo sexy para caralho. O
rosto tinha as mandíbulas marcadas e a barba por fazer, me lembrei de anotar
esse fato mentalmente porque isso significava testosterona, o que significava
um belo pau grande. Comecei a rir loucamente do meu pensamento sujo, o
homem pareceu não entender nada, o sorriso em seu rosto sumiu, e ele tirou a
mão de mim, mas continuou me encarando.
De repente, graças a minha crise de riso, eu vacilei com aqueles saltos
enormes, e ele me puxou pela cintura, sustentando meu corpo e me fazendo
voltar ao equilíbrio. Ter aquele homem me segurando era irreal, eu não era o
tipo dele, então tentei não me abalar.
— Me desculpe — falei, parando de rir e limpando as lágrimas que
saíam dos olhos. — Preciso encontrar minhas amigas — tentei me soltar, mas
ele não me largou.
— Eu poderia te levar em casa... Segura e inteira, eu juro — ele
ergueu as mãos, finalmente me soltando, e eu o encarei como se ele fosse
louco.
— Não sei como é no seu país, mas, aqui, essa situação em que
estamos já é estranha, então faça o favor de sair da minha frente, ou farei um
escândalo. O tio de uma das minhas amigas é dono disso aqui e seria assim
— estalei os dedos — para eu te foder.
O cara ergueu as sobrancelhas e se afastou de mim como se tivesse
tocado em algo muito quente. Logo saiu da minha frente, e eu passei,
tentando manter minha dignidade sem cair de cara no chão.
O segurança não liberou o caminho, e eu me virei, irritada, olhando
para o gringo com as mãos na cintura.
— Você vai mandar ele me deixar sair, ou eu vou precisar lidar com
ele do meu jeito? — ameacei, sabendo que não daria conta nem mesmo de
dar um tapa na cara daquele armário em forma de gente.
— Antes de ir, me diga seu nome — ele provocou.
— Elizabeth — eu falei, entediada.
— Sobrenome?
Pra que diabos ele queria meu sobrenome? Ia me adicionar no
Facebook?
— Fabbri — ele ergueu as sobrancelhas, parecendo interessado.
— Italiana?
— Porca miseria! — eu xinguei, e ele pareceu se divertir.
— Deixe a garota ir, Henry... — ele permitiu, ainda com aquele
sorriso zombeteiro nos lábios.
— E seu nome? — tentei me fazer de idiota, mas estava curiosa.
— Louis Luppolo — ele respondeu mais sério do que eu esperava.
— Até nunca mais, senhor Luppolo... — eu disse seu sobrenome
lentamente, olhando por cima do ombro, antes de sair batendo a porta atrás de
mim.
O que tinha acabado de acontecer?
Foi tudo o que eu pude pensar antes de encontrar Isa e avisar que
estava indo embora.
A ressaca moral foi grande, mas a ressaca de álcool me deixou na
cama, evitando luz e som alto por todo o final de semana.
Eu estava sem celular, havia deixado o coitado cair quatro vezes no
mês, e meu dinheiro tinha acabado, não tinha como arrumar naquele
momento. Isso não significava muita coisa quando as pessoas ainda tinham o
chat do Facebook para falar comigo, mas eu fugi de todos naqueles dois dias.
Precisava colocar minha cabeça no lugar, fazer uma promessa de que não
colocaria tão cedo álcool na boca e que com toda a certeza eu nunca mais
sairia com aquelas meninas.
Na segunda à noite, quando Isa me abraçou na sala de aula, eu tive
certeza de que nem elas queriam sair comigo de novo. Pelo menos uma coisa
boa.
Estava um frio do cacete. O começo de julho castigava, e Perdizes
tinha a péssima mania de ser uma geladeira, mesmo no verão. A faculdade
estava quase vazia: tirando os poucos vendedores ambulantes e as pessoas
que bebiam mais do que estudavam, não tinha nenhuma alma viva nas ruas
laterais da PUC.
— Vamos beber alguma coisa em comemoração! Passamos raspando!
— Isa me obrigou a ir para o bar.
— Eu realmente não estou no clima, Bel. Vou te deixar no bar com
alguém decente e depois vou subir para pegar meu ônibus.
— Não quer que eu chame um Uber? — Isa vivia querendo me
ajudar, mas eu odiava que gastasse dinheiro comigo. Orgulho era um defeito
grande dentro de mim.
— Não, só me empreste seu celular para eu ligar para minha mãe. Ela
fica louca esperando na janela a cada ônibus que passa para saber se eu
cheguei.
Isa deu de ombros e me entregou o celular.
— Mãe? Sim, está tudo bem. Estou ligando para avisar que vou
enrolar um pouco aqui com a Isa e depois vou para casa. Não se preocupe,
ok? Sim, peguei minhas chaves. Sim, meu bilhete tem crédito. Também amo
você — essa foi a curta ligação com minha mãe.
— Tome cuidado. Amo você! — Isa disse, me abraçando.
— Também te amo! — beijei o topo de sua cabeça e me virei,
fazendo mais uma escolha errada na vida quando decidi subir pela escura
João Ramalho em vez de ir por dentro da faculdade.
Eu estava com frio, minha calça jeans chegava a estar gelada contra o
corpo, e bem naquele dia eu inventei de enfiar o tênis sem as meias. A sorte é
que por cima da camiseta, eu estava usando uma camisa xadrez vermelha, de
um tecido bem quentinho. Esfreguei os braços com força e me abracei
enquanto subia aquele pedaço de rua escuro.
Foi quando tudo aconteceu rápido demais.
De repente, uma Land Rover preta parou do meu lado, eu já ia me
preparando para xingar o tarado que estava ali quando dois seguranças
gorilões, iguais aos da boate de sexta, desceram do carro e me pegaram pelos
braços. Que merda era aquela?
— Me solta! — eu gritei e tentei empurrar os homens, um deles não
gostou muito da minha atitude e bateu no meu rosto com as costas da mão.
Aquilo doeu pra caralho. Senti meu lábio inferior abrir com a força do tapa,
mas nada ia me fazer parar de lutar. Respirei fundo e me concentrei em
acertar um belo chute em um deles para depois poder descer a mão no outro e
correr.
O plano deu certo até a metade do caminho, depois que um dos
grandalhões se desequilibrou com meu chute, o outro me puxou pela trança
que Isabella tinha perdido o maior tempo fazendo enquanto a professora
enrolava para passar a nota.
Eu berrei. Berrei alto, mas parecia que a merda da música na rua de
baixo também estava alta. Não tive nenhuma ajuda, achei que Deus também
estivesse olhando para o outro lado. Quando o segurança tapou minha boca,
fiz questão de dar uma bela mordida até sentir o gosto de sangue. Ele me
jogou no chão, xingando em inglês, e então eu me toquei que aquilo
realmente devia ser obra daquele gringo maluco. O que aquele bosta tinha na
cabeça?
— Mande seu chefe se foder! — eu falei, sentindo os joelhos ardendo
da ralada que levaram, chegando a rasgar minha calça.
— Ele vai foder você, sua vaca gorda, agora entra nesse carro.
— Me obrigue — desafiei e voltei a gritar, me pondo de pé e tentando
correr. Foi então que senti uma dor aguda na nuca e tudo ficou escuro.
Bela hora para o primeiro desmaio da vida.
-
Eu sempre me achei forte e também que aquilo nunca aconteceria
comigo, porque eu não era o tipo de garota que chamava atenção dos caras.
Nem dos certos, nem dos errados. Mas lá estava eu, dentro de um carro, com
quatro homens estranhos, sendo levada para sei lá onde por conta de um
gringo maluco.
Como eu me xinguei mentalmente por ter ido pelo lugar errado.
Como eu me odiei por isso.
Quando voltei à consciência, ouvi a música que tocava no carro, era
algo clássico, o tipo de música que me irritava profundamente. Senti minhas
mãos amarradas, meus pés também. Que droga. Eu nem mesmo sabia onde
estava, mas não importava, eu precisava lutar. Respirei fundo e juntei minhas
mãos. Olhei para o lado, de relance, e vi o segurança distraído, então coloquei
meu plano em ação, descendo uma cotovelada na cara daquele homem com
tanta força, que senti seu rosto afundar. O outro logo tentou me segurar, eu o
mordi novamente e joguei os pés contra o peito do cara que eu havia dado a
cotovelada, mantendo ele longe. Eu estava arranhando a cara do idiota que
estava mais próximo das minhas mãos quando fui chamada.
— Ei! Garota! Se não ficar quieta, eu vou estourar os seus miolos, e
se o chefe quiser, ele vai te foder morta — o cara do banco da frente apontava
uma arma na minha direção. Eu arregalei os olhos e engoli em seco.
— Eu vou foder a sua bunda com essa arma, me aguarde — eu
finalmente fiquei quieta.
— Essa vadia me mordeu de novo! — o segurança ao meu lado
reclamou. — Vou amordaçar essa vaca.
E foi o que aconteceu.
Achei que teria um infarto durante os vinte minutos seguintes, me
sentindo como um gado indo para o abate. Estava na merda e agora só um
milagre poderia me salvar.
O carro parou em um galpão no meio do nada, era mato para todo
lado, e tudo o que pensei foi em tentar correr e me esconder na plantação.
— Nem pense em fugir, ou eu juro que meto uma bala na sua cabeça
— aquilo me assustou. Queria matar o desgraçado que havia me levado até
ali.
Fui jogada dentro do enorme armazém e caí sobre os joelhos
machucados. Aquilo doeu como o inferno, mas eu respirei fundo e me sentei
o melhor que pude, olhando para frente e vendo Louis sentado em uma mesa
de jantar, à luz de velas, me olhando com muita curiosidade. Eu ia arrancar a
cabeça daquele filho da puta.
Não tentei me levantar e mantive meus olhos fixos no chão, vendo o
homem se levantar e andar lentamente até mim pela visão periférica.
Podia ouvir cada passo que Louis dava contra o chão frio, e aquilo foi
fazendo meu coração acelerar em um nível louco, achei que ele fosse saltar
para fora do peito.
Eu me peguei rezando para que aquilo fosse um sonho doido e
implorando ao meu inconsciente que me acordasse, mas tudo o que aconteceu
foi que o homem parou bem na minha frente com seu terno bem passado e
soltou a mordaça da minha boca. Evitei olhar em seu rosto e me mantive em
silêncio, mas senti um alívio enorme sem aquilo me apertando.
Minha respiração estava descompassada, podia sentir meu peito
subindo e descendo rápido demais, e engoli em seco quando vi Louis sacar
uma faca do bolso e passar com ela próxima ao meu rosto. Ele se abaixou,
ficando na minha altura, e disse com a voz mais mortal e séria enquanto
segurava meu queixo, me obrigando a encarar seus olhos castanhos.
— Eu vou soltar você, mas me prometa que não vai correr — que
opção eu tinha? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Fiz que sim com a cabeça, travando os dentes para não mandar aquele
homem enfiar a faca no rabo.
Ele passou o dedão no meu lábio inferior.
— Quem fez isso?
— Um dos seus guardinhas — disse com os dentes travados. Louis
parecia enfurecido, passando a faca em uma velocidade incrível nas cordas
que prendiam minhas mãos e pés.
— Tem um banheiro ali, se limpe e volte aqui.
Eu me afastei o mais rápido que podia enquanto ouvia o homem sair
do armazém.
O pânico quase tomou conta de mim dentro do banheiro quando me
olhei no espelho. Meu lábio estava inchado e ainda sangrava. Eu tinha um
arranhão leve na bochecha direita, e meus olhos estavam com marcas pretas
do rímel úmido pelas lágrimas. Olhei meus pulsos marcados, os joelhos...
Filhos da puta, estragaram meus jeans favoritos.
Limpei o rosto, ignorando que a maquiagem estava saindo e
mostrando as imperfeições que eu tinha. Quanto menos interessante eu fosse,
maiores chances de voltar para casa inteira eu teria.
Lavei os joelhos e senti como se estivesse passando fogo na ferida.
Que merda! Soltei meu cabelo da trança, que já estava praticamente desfeita,
e o prendi no alto da cabeça, em um rabo de cavalo firme. Depois, me encarei
no espelho e fechei os olhos, respirando fundo enquanto tentava encontrar um
pouco de paz no meio do turbilhão de pensamentos que estava tendo. Eu
desejava ter uma mente brilhante o bastante para armar algum plano.
O banheiro não tinha nada que pudesse ser usado como arma, caso o
idiota lá fora tentasse pôr as mãos em mim.
Respirei fundo, vencida.
Se esse maldito fosse me foder, eu faria de tudo para que ele saísse
sem o pau.
Quando abri a porta do banheiro, vi Louis sentado de costas para
mim, tamborilando os dedos na mesa, demonstrando impaciência. Grande
merda. Eu me sentei de forma grosseira na cadeira à sua frente e o encarei de
volta.
— Por que diabos me trouxe aqui? — perguntei, irritada.
— Eu gostaria de te chamar para jantar — ele respondeu com muita
calma.
— Não seria muito mais educado e menos doloroso — indiquei minha
boca e bochecha machucadas — fazer isso pessoalmente ou por telefone e
esperar uma resposta?
— O que você me responderia? — ele apoiou os cotovelos na mesa,
me desafiando.
— Que não. Nunca. Jamais — cuspi cada uma das palavras.
— Por isso mesmo eu encurtei o caminho e te trouxe logo para cá —
ele sorriu, e novamente eu vi que seu sorriso não chegou aos olhos.
— Minha mãe vai mandar a polícia atrás de mim — e a polícia ia me
achar como? Ele não precisava saber que eu tinha certeza que seria mais um
corpo achado por aí sem identificação. Bendita mania de andar sem
documentos.
— Não, não vai. Você vai ligar agora para ela e dizer que resolveu
ficar na casa de uma amiga, diga que amanhã estará em casa a tempo do café
da manhã com seu pai — ele me estendeu seu celular, e eu peguei. Pude ver
pelo visor que já passava da meia-noite. Respirei fundo, encarando a tela, e
disquei o número de casa.
— Mãe? Sou eu. Não, está tudo bem… Eu estava com as meninas e
acabei tomando um tombo, nada sério. Ralei os joelhos e machuquei o rosto.
Não, não precisa mesmo me buscar. Vou ficar aqui na casa da Isa até os
ônibus voltarem a passar — minha mãe confiava muito em mim para pensar
que eu estava mentindo. — Mãe? Eu te amo, ok? Sempre — desliguei e
joguei o celular no homem à minha frente. Encarei Louis em silêncio,
analisando o maldito.
Ele era maravilhoso, mas diziam que o diabo nunca se apresentava em
uma má aparência.
— Pronto. E agora? — questionei.
— Agora nós vamos jantar, e você vai me contar um pouco sobre a
sua vida — o homem empurrou uma pasta na minha direção, e eu a peguei,
puxando as folhas de dentro.
Fotos minhas na infância, e as raras da adolescência, um belo resumo
da minha vida. Páginas de redes sociais, uma breve descrição da minha
família… Fechei os olhos, largando os papéis em cima da mesa. Minha
cabeça girou, não acreditando no que estava acontecendo.
— Sério, isso? Você é doente — ele apenas riu da minha reação.
— Você é estranhamente interessante, Elizabeth…
— O que você espera com isso?
Assustei-me com um barulho atrás de nós e vi que eram garçons.
Olhei sem entender nada quando colocaram em cima da mesa uma barca
cheia de comida japonesa.
— Li que é sua favorita. Você foi em quatro restaurantes de comida
japonesa nos últimos três anos, e tem um favorito, onde você já colocou o pé
trinta e quatro vezes só no último ano. Essa comida é de lá — ele disse com
calma enquanto abria seus hashis. Eu nunca mais faria check-in no Facebook.
Nunca.
— Não vou comer. Você bateu em mim para me trazer aqui e espera
que eu coma com você numa boa?
— Bater em você estava extremamente longe do que eu mandei meus
homens fazerem, e eu te peço desculpas por isso. Nenhum deles vai te
machucar, nunca mais. Dou minha palavra — Louis me encarava, sério, com
os olhos castanhos que chegavam a ficar avermelhados sob a luz das velas.
— E o jantar é apenas uma bela desculpa. Não existe nenhum problema com
a comida, caso haja alguma dúvida sobre isso, eu não estragaria a noite, não
sou fã de necrofilia — ele sorriu e enfiou um pedaço de peixe cru na boca.
— Sua palavra não vale nada para mim. Eu quero ir embora.
— Você vai, Elizabeth, mas antes eu tenho uma proposta — a
curiosidade estampada no meu rosto o fez sorrir. Dessa vez, pela primeira
vez, o sorriso chegou aos olhos.
— Então fale logo e me deixe ir — foi tudo o que eu respondi.
— Primeiro, coma — era uma ordem. — Então me escute e logo
depois você será levada para casa. Eu mesmo farei isso.
— Tenho outra opção? — provoquei.
— Você sabe que não — Louis continuava comendo, então suspirei e
me rendi. Não havia nada que eu pudesse fazer.
— Você já ouviu falar sobre máfia? — Louis me perguntou logo que
enfiei de uma vez meu hot roll favorito na boca. Fiz que não com a cabeça.
— Nunca assistiu nenhum filme sobre isso? — neguei novamente — Por
quê? — ele questionou.
— Não acho interessante — fui clara.
— Nada? Nem mesmo O Poderoso Chefão te chamou atenção? — ele
parecia se divertir.
— Eu até gosto de filmes de ação, mas máfia? Sério? Não gosto,
nunca vi nenhum em toda minha vida — eu não tinha qualquer outra opção, e
já que estava ali, por que não encher o cu da minha comida favorita e ir
embora para nunca mais olhar na cara desse merda?
— Sua conta da Netflix realmente mostra isso… — ele parecia
decepcionado. — Mas, Jane Austen? Monstros S.A.? É disso que você gosta?
— eu parei o hashi no meio do caminho até minha boca, sentindo minha
cabeça esquentar. Respirei fundo e o encarei.
— Eu não acredito que até na minha conta da Netflix você conseguiu
fuçar. Aliás, quem é você? Como conseguiu tudo isso de informação sobre
mim?
Ele apenas sorriu e voltou a comer. Eu esperei, encarando o homem.
— Digamos que eu sou alguém que tem uma boa quantidade de
dinheiro e poder de informação. Sou um Don. Você devia ter assistido O
Poderoso Chefão, assim poderia entender um pouco o que eu posso fazer…
— o cara estava se vangloriando demais.
— Grande bosta — eu revirei os olhos e o ouvi gargalhar, até a risada
do desgraçado era bonita. Ele precisava de um defeito, como esse caráter lixo
ou os pés feios. — O que foi? — eu disse de boca cheia.
— Se fosse qualquer outra pessoa aqui na minha frente, em um dia de
mal humor, eu simplesmente estouraria os miolos, mas tudo o que eu quero
fazer é foder você.
Aquilo me pegou desprevenida, e eu engoli minha comida com mais
força do que devia, machucando a garganta.
— Me foder? Fora de questão. Procura uma das garotas que estavam
comigo na boate, mande flores e um belo cartão, a calcinha da escolhida vai
estar no chão no primeiro estalar de dedos. Se era essa a sua proposta, a
resposta é não. Obrigada pelo jantar — eu me levantei.
— Sente agora, eu não terminei — a voz dele estava cheia de uma
ameaça velada.
Eu me sentei com medo enquanto sustentava o olhar do homem.
— Termine, então.
— Vi que a situação da sua conta bancária não está das melhores…
— o homem mexia seu copo de uísque e viu que seu comentário surtiu efeito
em mim. — E sua tão adorada faculdade está com vários pagamentos
atrasados… — meus olhos encheram d’água, por raiva, constrangimento,
tristeza e vergonha. Aquilo me chocou ainda mais, como esse filho da puta
sabia? —Eu poderia ajudar. Já pensou? Todos os problemas resolvidos
apenas por passar uma noite comigo? — aquilo fez meu coração apertar de
uma forma brutal.
Eu não era idiota, era uma oportunidade de ouro, mas meu orgulho
engoliu qualquer outro sentimento e me fez ver em vermelho.
Decidida, me levantei da mesa, andei até a frente de Louis, que estava
acompanhando meus passos com um sorriso vitorioso no rosto, e dei o tapa
mais forte que eu podia.
— Você tá achando que eu sou o quê? Uma puta? Você não pode me
comprar! — eu gritei antes do homem me surpreender. Ele cresceu sobre
mim, pegando em meus pulsos com força e me sacudindo. Eu paralisei,
assustada, e ele se aproveitou da minha falta de ação para enfiar a língua
dentro da minha boca.
Foi o beijo mais agressivo da minha vida.
Louis me beijava como se pudesse apagar todo o fogo da fúria que eu
sentia, como se pudesse me ganhar, e eu, idiota, correspondi por um belo
minuto, até que percebi a merda que estava fazendo e mordi seu lábio inferior
com força suficiente para fazer sangrar. O homem me empurrou, e seu olhar
poderia me fuzilar.
— Eu juro que foderia você nessa mesa até você não aguentar andar,
garota — ele disse, passando a mão na boca, limpando o sangue que agora
escorria de seu lábio. Sorri, me sentindo vitoriosa.
— Mas não vai. Vai me levar agora para minha casa como disse que
faria, ou, como você mesmo disse, a palavra de um Don da máfia não vale
nada? — minha voz era carregada de desprezo e ironia.
Ele passou as mãos nos cabelos, respirando fundo, como se lutasse
para não fazer alguma besteira.
— Você ainda vai implorar por isso, eu juro — ele disse com nossos
rostos tão próximos, que pensei que iria me beijar novamente, mas ele não o
fez, só saiu andando e eu corri atrás.
Um segurança jogou no ar a chave de uma das Land Rovers do senhor
“Você sabe o que é máfia?”, e ele a pegou no ar. Entrou no carro sem dizer
uma palavra e me esperou. Eu entrei pela porta do passageiro, no banco
detrás.
— O que está fazendo? Pode vir aqui — ele indicou o banco ao seu
lado.
— Hoje não, Satanás, hoje não — como eu adorava Bianca Del Rio.
Queria minha cama, RuPaul’s Drag Race e um balde de sorvete para superar
tudo aquilo.
O homem revirou os olhos e desistiu de me convencer, então deu
partida no carro e saiu arrancando pelo meio do mato.
— Se não se importa, eu quero chegar viva em casa. Diminua essa
velocidade.
— E se eu não quiser? — ele pisou mais fundo no acelerador, apenas
para me desafiar. Eu não ia discutir, apenas prendi o cinto ao meu redor.
Tentei ser racional sobre o que havia acabado de acontecer, mas a
sensação ainda era de estar em um sonho muito louco, minha cabeça
flutuava. Era como se o dia não tivesse existido.
— Com quantas mulheres você se atreveu a fazer essa proposta suja?
— perguntei de modo atrevido.
— Algumas… — ele me olhou pelo espelho retrovisor, o sorriso
malicioso de volta aos lábios.
— Quantas? — insisti.
— Por que quer saber?
— Curiosidade, é meu segundo maior defeito depois do orgulho.
Você devia demitir quem faz sua pesquisa de campo. Não acredito que
deixaram isso de fora — soltei de forma ácida.
— Eu não me lembro da quantidade, só me lembro que tive tudo o
que queria delas, mesmo que precisasse esperar — o tom não me agradou e
me fez revirar os olhos.
— Quanto trabalho por causa de uma boceta. Por que você não casa
logo? Ou come o cu dos seus seguranças, tem mais de trinta, não vai enjoar
durante uns bons anos.
Não era minha intenção ser engraçada, mas até eu ri do que disse.
Louis gargalhou novamente, chegou a limpar os olhos. Era ridículo o
quanto aquele homem era bonito, o quanto parecia envolvente… E aí você
descobria que era um bosta e todo o encanto acabava. Minha risada morreu
aos poucos, olhando para meus joelhos fodidos e pensando em como meu pai
ficaria preocupado quando me visse naquele estado.
— O que está pensando? — ele me perguntou.
— No motivo que te fez me escolher para encher a porra do saco,
sendo que tinha tanta mulher mais alta, mais magra e mais bonita naquele
lugar e no mundo todo.
— Nenhuma delas fala palavras sujas como você — ele sorriu como
se me elogiasse, e eu revirei os olhos, tentando segurar o riso. Falar palavrões
como se fosse um ogro sujo se tornar uma forma de atrair homens era uma
novidade para mim.
— Já pensou em me apresentar para sua mãe? “O que a atraiu nela,
filho?” “Você sabe, mamãe, ela tem a boca de um caminhoneiro de estrada”
— pisquei e ri, mas percebi que Louis havia parado de dar risada. — Quantos
anos você tem, senhor “vou comer quem eu quiser”?
— Trinta e três — dez anos de diferença. Ele parecia bem mais novo.
— Não saio com menores, se esse é seu pensamento — ponto para o
gringo.
— Eu não tenho nada com sua vida, e logo que você me deixar em
casa, não vai ter nada com a minha também. A propósito, vocês estragaram o
meu melhor jeans.
— Vou pagar por ele, meus homens que encostaram em você,
também.
— Nada mais justo… — falei como se minha língua pudesse ferir o
homem, e distraída pela lua cheia que iluminava a estrada, eu acabei
cochilando no banco do carro.
— Elizabeth, acorde — abri os olhos lentamente, parecia que meu
corpo pesava uma tonelada. Eu estava cansada e com dores por todo canto.
Louis estava com o rosto bem próximo ao meu, com uma das mãos no meu
rosto, os dedos acariciando minha bochecha. — Eu realmente sinto muito por
meus homens terem feito isso com você, haverá consequências sérias — eu
nem mesmo discuti, apenas encarei aquele par de olhos castanhos e tentei
decorar os detalhes do seu rosto. Ele era bonito de se olhar, apenas isso.
— Não se preocupe — eu finalmente achei minha voz, que saiu rouca
e fraca. Limpei a garganta e o fiz afastar as mãos de mim. — Conviva com a
sua consciência sobre hoje e não durma por um mês ao saber que eu achei
que seria estuprada, que apanhei de três homens que são pelo menos três
vezes maiores que eu e que fui forçada a jantar com um cara que acha que
porque eu estou fodida, pode me comprar. Sexo é muito mais que um jogo de
interesses para mim, Louis, é sobre confiar, e eu não confio em você.
Pulei para fora do carro e puxei minha mochila das mãos dele.
— Obrigada pela carona — falei cheia de ironia enquanto procurava
minha chave na bolsa. Finalmente achei meu chaveiro, um Stitch gigante.
Louis não me respondeu, o gringo apenas me mediu de cima a baixo e
me esperou entrar em casa.
Não queria ver aquele homem nunca mais, eu não era o tipo dele e,
definitivamente, um homem que força uma mulher a sair com ele do jeito que
ele fez, não fazia o meu tipo.
A primeira coisa que fiz em quando entrei em casa foi ir para meu
quarto. Joguei minhas coisas na cama e entrei no banheiro, louca por um
banho, precisava tirar do meu corpo qualquer resquício daquele dia. Era uma
pena que a água que caía sobre a minha cabeça enquanto eu chorava sentada
no chão não pudesse lavar meus pensamentos também.
Eram seis horas, quando eu botei o analgésico para dentro e deitei na
cama, agradecendo por não ter sido estuprada, por estar em casa, por estar
inteira, mesmo que minha vida estivesse quebrada.
Uma noite de sexo e todos os problemas resolvidos… Aquilo era tão
ofensivo quanto um cuspe na cara, mas eu não tinha ideia de como ia resolver
tudo o que precisava.
Dormi pesado e sonhei com Louis pela primeira vez. No sonho, ele
até valia a pena. Pena que era apenas no sonho.





