Humilhação e Recomeço

A música alta da festa anual da empresa vibrava no meu peito, mas o champanhe na minha mão parecia insípido. Eu estava ali, um funcionário júnior no meio de diretores e gerentes, sentindo-me um peixe fora d'água. A única razão da minha presença era Ana, minha namorada e, para o resto do mundo, a CEO inatingível da companhia.

Nós mantínhamos nosso relacionamento em segredo. Ela dizia que era para evitar fofocas no escritório, para proteger minha carreira de acusações de favoritismo. Eu acreditava.

De repente, uma voz cortou o barulho da festa como uma faca.

"Meu relógio! Meu Patek Philippe sumiu!"

Era Lucas, o melhor amigo de infância de Ana. Ele sempre me olhou com desprezo, como se eu fosse uma sujeira no sapato caro dele. Agora, seus olhos estavam fixos em mim, cheios de uma malícia que fez meu estômago gelar.

"Miguel, você foi o último que passou por mim. Onde está meu relógio?"

A música parou. Todos os olhares se viraram para nós. Senti o calor subir pelo meu pescoço, uma centena de pares de olhos me julgando.

"Eu não sei do que você está falando, Lucas." Minha voz saiu mais fraca do que eu esperava.

"Não sabe? É um relógio de edição limitada, vale mais do que você ganha em cinco anos. Vamos, esvazie sua mochila."

Ele apontou para a mochila simples que eu carregava nas costas, onde eu guardava um casaco para mais tarde e os documentos do hospital da minha mãe. Humilhação pura e crua. Ele queria me despir na frente de todos.

"Você não tem o direito de fazer isso."

Procurei os olhos de Ana na multidão. Ela era a CEO, a autoridade máxima ali. Ela poderia acabar com aquilo com uma única palavra. Nossos olhares se cruzaram, e por um instante, esperei que ela me defendesse, que colocasse Lucas em seu lugar.

Em vez disso, ela se aproximou, o rosto uma máscara de decepção fria. Ela não olhou para Lucas, olhou para mim. E então, ela proferiu a sentença que me marcaria para sempre.

"Miguel, mesmo que sua mãe precise urgentemente de dinheiro para o tratamento, você não deveria roubar."

A frase dela ecoou no silêncio mortal. Não era uma pergunta. Era uma condenação. A menção da minha mãe, da sua doença, da nossa luta desesperada por dinheiro, transformou a suspeita de Lucas em um fato consumado na mente de todos.

O ar se encheu de sussurros. "A mãe dele está doente?" "Coitado, mas roubar já é demais." "Eu sabia que ele não era confiável."

Fui instantaneamente isolado. Meus colegas, com quem eu dividia o almoço todos os dias, agora me olhavam como um criminoso. Lucas sorria, um sorriso vitorioso e cruel. Ele tinha conseguido exatamente o que queria.

Naquele momento, eu não sabia, mas minha vida como eu a conhecia tinha acabado. Eu levaria minha mãe e desapareceria daquela cidade, da vida daquelas pessoas.

E Ana, a mulher que me apunhalou com palavras na frente de todos, me procuraria desesperadamente por cinco longos e amargos anos.

Tentei me afastar, sair daquele salão que de repente parecia não ter ar. Eu precisava fugir. Mas Lucas se moveu, bloqueando meu caminho.

"Onde você pensa que vai, ladrão? Ninguém sai daqui até meu relógio aparecer."

Seu rosto estava a centímetros do meu, o hálito caro cheirando a vitória. Eu estava preso.

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