Garras

Pov Moira

Não fazia sentido ficar a manhã toda no quarto, precisava sair e encontrar algo decente para comer.

A rua na vila estava iluminada e o sol tentava, inutilmente, passar entre as nuvens.

- Bom dia, senhora - um homem de aparência rude e visivelmente bêbado se apoiava na cerca de sua casa.

- Seu velho safado - a esposa gritou da janela.

Não era o tipo de lugar que eu andaria, com certeza, mas as crianças correndo despreocupadas na rua, davam mais alegria á vista.

Avistei uma casa com uma placa onde se lia "Ristorante" e comecei a salivar enquanto andava decidida até lá.

- Não comeria ali, se fosse você.

Me virei bruscamente já com a varinha em mãos apontada no pescoço do indivíduo.

- Hei, hei... calma, docinho.

- Mordaque - eu bufei.

- Surpresa em me ver tão cedo?

- Na verdade, sim. Não tem mais dragões para encinerar?

- Vim com Charles.

- Ele já chegou?

- Como assim? esperava por ele? Não, achamos que você podia querer o couro da asa do segundo dragão.

- Sim, eu quero.

- Mas esqueceu, não é tão experiente assim. Não é, docinho.

- Eu tenho nome, Moira Scringeour ou Srta. Scringeour para você.

- Não fica tão na defensiva, acho que podemos ser bons... amigos - ele deu uma piscadinha de lado - além do mais, não sei pronunciar esse nome.

- Duvido. Agora, se me der licença eu preciso comer.

- Vou aconselhá-la mais uma vez a não comer ali.

- Eles servem comida italiana, é melhor que a hospedaria.

Mordaque ficou sério por um segundo, com os olhos sombrios enquanto olhava rápido para a estalagem no começo da rua, mas logo voltou com seu ar cafajeste.

- Italiana?

- Sim, está escrito Ristaurante.

- O velho Wathe é quase analfabeto - ele riu - eles servem carne de baleia quando elas chegam mortas à margem.

- Repugnante - eu ajeitei meu blazer puxando a barra com força - melhor eu seguir meu caminho, com licença.

- Espera.

Eu continuei em em frente sem dar atenção até pisar em algo mole e viscoso. Eu não queria olhar, sabia onde havia pisado.

- As ruas não são assim tão limpas como no ministério, docinho.

- Acha isso engraçado?

- Não, mas devia considerar mudar de roupas. Aliás, se tiver dificuldade com isso, eu me ofereço para ajudar.

- Não há problema nenhum com as minhas roupas.

- Concordo, blazer e salto alto são realmente sexy, mas essa é uma cidade montanhosa, botas seriam mais confortáveis.

- Você é tão intrometido - e bonito.

- Só estou preocupado com seu bem estar - ele deu alguns passos para trás, balançando o corpo de um lado para outro - docinho.

Meu estômago roncava, bati os sapatos sujos no chão de terra e tomei o caminho de volta.

Pov Carlinhos

- Meio cruel fazer a moça andar da reserva até aqui ontem a noite, se temos a carroça.

- Não ia tirar os cavalos naquele frio, estavam dormindo - pulei no chão e desamarrei as cordas que prendiam o rolo de couro - além do mais, a Srta. Scringeour precisa entender como as coisas funcionam por aqui.

- E acha que ter os pés maltratados naqueles sapatos vai mudar alguma coisa? - Mordaque virou o corpo na carroça apoiando o cotovelo na coxa - ela é uma garota rica.

- Eu sei, mas é um começo. Anda, me ajuda com isso.

Ele levantou o couro enrolado e jogou sobre meus ombros.

- Quer que eu entre? - a relutância na sua voz era nítida.

- Não, compre algumas cenouras para os cavalos - enfiei a mão no bolso da jaqueta e joguei moedas para ele.

- Te espero aqui?

- É, vai ser rápido.

Seria difícil subir as escadas carregando duas asas de dragão mas não podia pedir que Mordaque me ajudasse, ele já se sentia mal o suficiente de ver a hospedaria de fora, não queria que a visse por dentro.

Assim que passei pela porta fui recebido pelo proprietário que estava tão feliz em me ver quanto eu em vê-lo.

Homenzinho detestável.

- Weasley, espero que esteja com meu dinheiro.

- Na próxima semana.

- Disse isso o mês todo.

- Vou pagar duas prestações juntas, está bem?! Agora, preciso falar com Moira Scringeour.

- Não tem ninguém com esse nome aqui.

- A auror, talvez a reserva seja no nome do estagiário, Dominic Ioannou.

- Terceiro andar á esquerda - ele resmungou enquanto voltava para o bar.

- Idiota.

Como eu pensei, cheguei ao terceiro andar já ofegante e parei para tomar um ar, encostado na parede eu pude ver o quadro que tanto me incomodava.

A pintura em cores quentes dos pais e um filho, o cabelo amarelo do menino, tão vivo como se fosse real.

- Weasley?

Dominic subia a escada de onde eu tinha vindo.

- Ioannou? Estou procurando a Moira.

- Ela devia estar aqui, eu acabei de mandar uma coruja pra você.

Ele fez sinal para que eu o seguisse e fiz isso mantendo alguma distância.

- Porque me mandou uma coruja? - entrei no quarto carregando o couro e o joguei em cima da cama que despencou no chão com os quatro pés quebrados e uma nuvem de poeira.

Olhei para Ioannou já me preparando pra me explicar mas ele deu de ombros.

- Essa é da Moira.

- Ela não vai gostar - ele ficou olhando com indiferença para o móvel no chão - então?

- Ah, sim. Não conseguimos os livros mas Moira tem um palpite, soubemos de uma catedral, queremos que nos leve até lá.

- Não.

- Não?

- Não está acostumado com essa palavra?

- A Moira é uma auror em exercício da função - ele tomou um ar autoritário e nada simpático enquanto se mantinha pomposo, era engraçado - e você um especialista ao serviço dela.

- Em dragões, não em expedições.

Ele torceu o nariz e ficou ainda mais nervoso, se continuasse se segurando poderia facilmente explodir. A porta atrás de mim se abriu e minha atenção se voltou para ela.

Moira entrou no quarto bravejando e arrancando as roupas.

- O que eles pensam que eu sou - blazer.

- Moira? - Ioannou levantou a mão tentando chamar sua atenção, em vão.

- Se eles querem que eu me vista como uma camponesa - a camisa branca.

- Moira, espera.

- É exatamente o que vou fazer - o fecho do sutiã.

Ela era bonita, as poucas mulheres na reserva eram mais brutas que eu mas Moira era delicada, feminina e eu pensava em como ela poderia ser doce em baixo daquela pose de auror.

Mesmo assim seria errado olhar o corpo dela dessa maneira sem que ela ao menos soubesse, limpei a garganta em duas tossidas rápidas.

Ela se virou assustada cobrindo os seios com as mãos e tentou falar alguma coisa várias vezes mas acabou desistindo quando viu que as palavras não saíam.

- O Sr. Weasley está aqui.

- Eu estou vendo, Dom. Obrigada.

Ela me encarou, dei alguns passos lentos em sua direção até ficar lado a lado com ela e me abaixei para perto de seu ouvido.

- No seu lugar, eu teria continuado o show.

Saí para o corredor me sentindo provocado, as roupas apertando na virilha. Lá embaixo, Mordaque dava cenouras aos cavalos.

- Missão cumprida?

- Sim, e espero que essa seja a última asa de dragão que temos que retirar.

- Weasley? Weasley? - Moira corria para a rua agora usando um suéter mesmo que ainda fosse possível ver que não usava sutiã.

- Em que posso ajudá-la?

- Meus olhos são aqui em cima - ela bravejou chamando minha atenção - Dominic me contou da sua recusa em me servir e devo dizer que é inaceitável.

- Você goste ou não, Srta. Scringeour. Eu não vou fazer uma expedição perigosa pela montanha, ainda mais com pessoas inexperientes.

- Não sou inexperiente.

- E aprendeu sobre exploração e escalagem na sua escola de aurores ou nas aulas de etiqueta?

- Porque acha que fiz aulas de etiqueta? - Moira estava na defensiva e a conversa se tornou quase uma discussão.

- É filha do ministro, não é?!

- Vejo que fez sua lição de casa, no entanto, não pense que me conhece.

- Que seja - dei de ombros enquanto arrumava o interior da carroça - mas não há nada na caredral. Seria inútil.

- Eu tenho uma intuição.

- É vidente?

- Não.

- Anote isso - eu disse para o garoto atrás dela que trazia uma prancheta e uma pena - Não vou levar vocês por um palpite. Encontre outra pessoa.

Um estrondo alto como uma explosão seguido de gritos foi ouvido de uma rua próxima, corri junto a Mordaque até o local.

No meio da rua um dragão repousava, me aproximei a tempo de sentir o vapor quente da sua última respiração, meu peito apertou.

Um grito ensurdecedor fez os curiosos cobriram os ouvidos e correrem desesperados mas eu estava habituado com esse som.

- O que é isso? - Moira gritou com as mãos sobre as orelhas.

- É um filhote - eu apontei para o céu onde um dragão enorme circulava e berrava - e aquela é a mãe, está furiosa.

- O que faremos?

- Eu não sei, Mordaque - olhei para o rosto impassível de Moira - estejam prontos ao anoitecer, no cais.

Pov Charles

O cais ficava no interior da vila, o outro lado da baía era tão longe que não dava para avista-lo nem mesmo com a luneta. Desviei o olhar da imensidão e me sentei sobre um barril velho enquanto esperava, a primeira pessoa a aparecer não era bem quem eu imaginava.

- Você não vai - enfatizei para Mordaque quando o vi se empoleirar no pier.

- Se ele vai eu também vou.

Bentley apontou para o cachorro de porte médio ao meu lado. Brutus era um cão velho e quase surdo da raça Bloodhound.

- É um cão farejador, é útil.

- Eu também, posso carregar suas coisas - ele pegou a mochila de couro ao meu pé e colocou no ombro - ou distrair a auror. Por falar nisso, onde ela está?

- Espero que a caminho.

Brutus se deitou de barriga e esticou o queixo no chão, deixando as orelhas esparramadas.

- Sério, porque trouxe o cão?

- Acredito que a senhorita Scringeour não tenha muito apreço pelos animais que estamos tentando salvar, talvez algo mais próximo e familiar desperte nela esse interesse.

- Ah claro - ele disse ironicamente - até por que Baelfire e dragões tem muitas semelhanças. Um cospe fogo e o outro tem incontinência urinária... sério, Charles... esse cão tem uns cem anos.

- Não ligue pra ele - eu falei para o cão que mal levantou a cabeça - Bentley tem se sentido muito oprimido ultimamente.

- Agora sei porque esse pulguento está aqui, vai usá-lo pra provocar a auror, como faz comigo.

- Não sei do que está falando.

Ter Mordaque aqui não me deixava muito a vontade, o caminho até a catedral era cruel, implacável e suas motivações eram emotivas demais, para dizer o mínimo.

Mas ele tinha razão, Moira precisava se situar de onde estava e com quem estava lidando mas minha mãe criou um cavalheiro, jamais diria coisas tão desagradáveis para ela, não diretamente.

Me surpreendi quando ela apareceu com seu assistente, aparatando á alguns metros de nós, ela usava botas e mal tinham salto, couro e uma saia longa que dava total liberdade de movimento, parecia outra pessoa.

Uma pessoa com quem eu adoraria me ver sozinho.

- Boa tarde, Sr. weasley - ela ainda mantinha a pose - Mordaque? Estou surpresa, esperava uma equipe mais qualificada.

Eu ri com a ingênuidade dela.

- Não se preocupe, temos um cachorro - Bentley respondeu.

- E armas - bati com a mão espalmada no no coldre.

- Uma espada?

- Nunca se sabe, não é? Essa é uma região...

- Inospta. Já usou essa palavra Sr. Weasley.

- Essa é a graça com as palavras Srta. Scringeour - me levantei ficando bem á frente dela, perto de mim Moira parecia ainda mais pequena - você pode usar, elas não gastam.

Ela engoliu em seco mas não expressou nenhuma emoção. Atrás dela, mais uma vez, Dominic tremeu e seus olhos se arregalaram como se fosse explodir mas as palavras se recusaram de sair da sua boca.

- Que seja - era Moira quem falava - desfaça o feitiço de desilusão, vamos logo com isso.

- Não há feitiço.

- E onde está o barco?

- Estará aqui - peguei o relógio no bolso e examinei por alguns segundos - agora.

O píer começou a tremer e Moira se desequilibrou, caindo sobre mim, a segurei pelos cotovelos e sorri ao ver sua expressão assustada me encarando. Seus olhos subiram de onde os meus estavam e se concentraram atrás de mim.

- Moira, isso é um navio subaquático - Dominic parecia muito preocupado - é uma violação do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia.

- Eu percebi, Dom - ela se soltou de mim dando dois passos atrás para me olhar de forma confortável - não viajaremos de forma ilegal.

- Se acalme, vamos pela superficie.

Uma rampa de madeira caiu formando um caminho entre o píer e o navio e no topo dela apareceram dois indivíduos, um subordinado quieto e a capitã com um largo sorriso e um charuto na boca.

- Espere, Brutus - falei com o cão que ainda nem havia se levantado e dei um breve olhar para Moira - deixe as damas irem na frente.

Ela sacudiu o cabelo e levantou o queixo.

- Dominic, pegue a prancheta.

O assistente lutou contra a pasta e mais ainda contra a pena que entregou para Moira assim que chegamos ao topo da rampa e entramos no navio.

- Bem vindos á bordo - a capitã se dirigiu ás pessoas que ela não conhecia - eu sou Acacia Santierra, capitã do Estrela do Norte - ela deu alguns passos até Moira - mas você pode me chamar de mamãe.

- Moira Scringeur - respondeu duramente enquanto assinava o documento que Dominic havia pego na pasta e o entregou á capitã.

- O que é isso?

- Uma multa, navios subaquáticos são ilegais.

O rosto de Acacia se fechou e seus olhos se estreitaram enquanto chega perigosamente ainda mais perto de Moira.

Ela pegou o documento e levantou entre seus rostos e então o rasgou vagarosamente, me vi na obrigação de intervir antes que a viagem acabasse sem nem começar.

- Acacia, posso ver o plano de bordo?

- Claro, acho que terminamos aqui.

Moira mais parecia de gesso, não demonstrava nenhum sentimento mas suas mãos trêmulas me diziam que estava com medo, Mordaque já havia entrado no convés e ela seguiu no mesmo caminho.

- Pode levar a bagagem, serviçal? - disse em tom cortês o assistente - marujo?

- Esse é Einar, ele não fala - respondi olhando do subordinado para Dominic - ou escuta, na verdade, acho que ele nem entende nossa língua.

Acacia fez um gesto rápido e o homem que até então, não havia movido um músculo se colocou para frente apanhando as malas do chão com muita facilidade.

- Vai me dizer porque vão até a bahia? - Acacia disse assim que ficamos sozinhos.

A rampa começou a se recolhei de volta ao convés.

- Tenho que levar a auror até a Catedral.

- Não há nada lá, Charlie.

- Ela tem uma intuição e pra ser bem sincero, eu também.

- Isso é perigoso e ainda mais com o menino.

- Ele vai ficar bem.

- Devia deixá-lo no barco, posso inventar alguma coisa.

- É melhor que Bentley fique comigo. Vai ser bom ter um amigo por perto, de qualquer maneira.

- Vejo que não foi a única companhia que trouxe?

Franzi os cantos do olhos, sem entender o que ela quis dizer e Acacia apontou para o horizonte onde um dragão voava rápido, pela curvatura da asa e pelo tamanho arriscaria dizer que era um Barriga-de-Ferro Ucraniano.

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