Fome e Amor: Uma Conexão Eterna

A fome era minha sombra, uma criatura de garras e dentes roendo meu estômago desde os sete anos de idade.

Eu já sabia que o mundo se dividia entre os que comiam e os que só podiam olhar.

Em casa, a gente mais olhava.

Um dia, a sorte bateu à porta: ganhei um frango assado num concurso de desenho.

Um frango inteiro, dourado e crocante, a promessa de uma refeição que eu nunca tivera.

Corri para casa, mal podia esperar para dividir aquela alegria com meus pais.

Mas a alegria virou amargura, um golpe no estômago mais doloroso que a própria fome.

Minha mãe pegou o frango das minhas mãos, os olhos brilhando – mas não para mim.

Eles sentaram à mesa, dividiram cada pedaço, sem um olhar, uma palavra, ou sequer um osso para mim.

Nem uma migalha sobrou.

Noite adentro, a fome dentro de mim não roía, urrava.

Por que eu, a filha, era sempre a última, a esquecida, a que não merecia nem o fruto da sua própria vitória?

A dor daquele desprezo era mais aguda que qualquer pontada de fome.

Naquela noite, a fome urrava, mas algo mais nasceu.

Com uma faca na mão, sob o luar, fui até a horta da vizinha.

Peguei dois tomates e uma espiga de milho.

Saboreando cada pedaço, jurei para mim mesma que nunca mais dependeria de ninguém para saciar a minha fome – nem a do corpo, nem a da alma.

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